ataraxia

Comments:

Quarta-feira, Junho 18, 2008

Re-li um texto do Cabrera Infante que publiquei aqui no Ataraxia, chama-se a história do conto e nesse texto ele cita grandes contistas e ótimos contos. Um deles é do Hemingway e chama-se "The Killers", no texto que publiquei aqui no blog o titulo está traduzido como "Os Assassinos". Jamais encontrei a tradução do conto, portanto fui à luta e o traduzi. Há detalhes em cada língua existente ou extinta que são peculiares a elas, ou ao momento histórico em que ela é utilizada e o texto é desenvolvido, que são intraduzíveis, tentei usar uma linguagem que refletisse a personalidade dos personagens. Segue o resultado e o link para o original, assim vocês podem tirar suas próprias conclusões.
Tem mais uma coisa, eu decidi traduzir o titulo como Os Matadores, em homenagem ao primeiro longa filmado pelo Beto Brant que eu assisti faz muito tempo e também porque assassino pode ser qualquer bunda mole, Matador é alguém absolutamente peculiar. Tem psicologia intrincada.
Vamos ao que interessa, se é que interessa:



Os Matadores

por Ernest Hemingway



A porta do restaurante Herry’s se abriu e dois homens entraram. Eles sentaram-se no balcão.

“Qual sua pedida?” George perguntou a eles.

“Não sei”, disse um dos homens. “O que você gostaria de comer Al?”

“Não sei” disse Al. “Eu não sei o que gostaria de comer.”

Fora estava escuro. As luzes da rua acenderam. Os dois homens no balcão liam o menu. Do lado de dentro Nick Adams os olhou. Ele conversava com George quando eles entraram.

“Eu gostaria de um medalhão de carne de porco grelhado com molho de maçã e purê de batata,” disse o primeiro deles.

“Ainda não estamos servindo.”

“Então porque cacete vocês põe no cardápio?”

“Esse é um prato do jantar,” explicou George. “Você pode pedi-lo as seis.” George olhou para o relógio atrás do balcão.

“São cinco.”

“O relógio diz cinco e vinte,” disse o segundo.

“Está vinte minutos adiantado.”

“Pro inferno com o relógio,” o primeiro disse. “O que você tem para comer?”

“Eu posso lhe oferecer qualquer sanduíche,” disse George. “Você pode escolher presunto e ovos, bacon e ovos, fígado e bacon, ou bife.”

“Me dá croquete de frango com ervilha verde, molho e purê de batatas.”

“Esse é do jantar”

“Tudo o que queremos é jantar, é?” “Essa é a forma que vocês trabalham?”

“Posso lhe oferecer presunto e ovos, bacon e ovos, fígado-“

“Eu vou querer presunto e ovos disse o homem chamado Al.” Ele usava um chapéu de jóquei e um sobretudo preto abotoado no peito. Seu rosto era pequeno e branco e ele tinha lábios finos. Ele usava um cachecol de seda e luvas.

“Eu vou querer bacon e ovos,” disse o outro homem. Ele era quase do mesmo tamanho que Al. Seus rostos eram diferentes, mas eles se vestiam como gêmeos. Ambos usavam sobretudo muito apertado para eles. Eles se sentaram inclinando para frente, seus cotovelos apoiados no balcão.

“Tem algo para beber?” Al perguntou.

“Cerveja, soda, ginger-ale,” disse George.

“Eu quero saber se você tem bebida?”

“Somente as que mencionei.”

“Está é uma cidade quente,” disse o outro. “De que eles a chamam?”

“Summit.”

“Já ouviu falar?” Al perguntou ao amigo.

“Não.” Disse o amigo.

“O que eles fazem aqui à noite?” Al perguntou.

“Eles jantam,” respondeu seu amigo. “Todos eles vêm aqui e comem o grande jantar.”

“É isso aí.” George disse.

“Então você acha que é isso aí?” Al perguntou a George.

“Claro.”

“Você é um garoto bem espertinho, não é?”

“Claro,” disse George.

“Bom, você não é,” disse o outro baixote. “Ele é Al?”

“Ele é estúpido,” disse Al. Ele voltou-se para Nick. “Qual seu nome?”

“Adams.”

“Outro garoto espertinho,” Disse Al. “Ele não é um garoto espertinho, Max?”

“A cidade é cheia de garotos espertinhos,” disse Max.

George colocou duas travessas, uma delas de presunto e ovos, a outra de bacon e ovos sobre o balcão. Também pôs dois pratos de acompanhamentos com batatas fritas e fechou a portinhola que dava para a cozinha.

“Qual é o seu?” ele perguntou para Al.
“Não lembra?”

“Presunto e ovos.”

“Realmente um garoto esperto,” disse Max. Ele inclinou-se para frente e olhou para o presunto e os ovos. Ambos comeram com suas luvas vestidas. George olhou eles comerem.

“O que você está olhando?” Max olhou para George.

“Nada.”

“Claro que você estava. Você estava olhando para mim.”

“Talvez o garoto tivesse a intenção de fazer uma brincadeira, Max,” Al disse.

George riu.

“Você não tem que rir,” Max disse a ele. “Você não deve rir de maneira alguma, certo?”

“Tudo bem,” disse George.

“Então ele acha que está tudo bem.” Max voltou-se para Al. “Ele acha que está tudo bem. Essa é boa.”

“Oh, ele é um pensador,” disse Al. Eles continuaram comendo.

“Como é o nome do garoto esperto no final do balcão?” Al perguntou a Max.

“Ô garoto esperto,” Max disse a Nick. “Vá para o outro lado do balcão com seu amigo.”

“Qual é?” Perguntou Nick.

“Não é.”

“É melhor você ir para o outro lado, garoto esperto”, Al disse. Nick passou para trás do balcão.

“Qual é?” George perguntou.

“Porra nenhuma que te interesse,” disse Al. “Quem está na cozinha?”

“O negão”

“O que você quer dizer com o negão?”

“O negão que cozinha.”

“Fala pra ele vir aqui.”

“Qual é?”

“Fala pra ele vir aqui.”

“Onde você pensa que está?”

“Nós sabemos muito bem onde estamos,” O homem chamado Max disse. “Nós parecemos tolos?”

“Você só fala besteira” Al disse a ele. “Por que cacete você está discutindo com esse moleque?” Escuta, ele disse para o George, “fala pro negão vir aqui.”

“O que você fará com ele?”

“Nada, use sua cabeça, garoto esperto. O que nós faríamos com um negão?”

George abriu a portinhola que dava para cozinha. “Sam,” ele chamou.
“Venha aqui um instante.”

A porta da cozinha abriu-se e o negão entrou. “O que é isso?” ele perguntou. Os dois homens no balcão olharam para ele.

“Tudo certo negão. Você fica bem ali,” disse Al.

Sam, o negão, de pé com seu avental, olhou para os dois homens sentados no balcão. “Sim, senhores” ele disse. Al saiu de seu banco.

“Eu voltarei para a cozinha com o negão e o garoto esperto,” ele disse. “Volta pra cozinha negão, você volta com ele garoto esperto.” O baixote seguiu atrás de Nick e Sam, o cozinheiro, de volta para a cozinha. A porta se fechou atrás deles. O homem chamado Max sentou-se no balcão em frente a George mas olhava para o espelho que ficava na parte de trás. Herry’s era um saloon e havia sido transformado em restaurante.

“Bem, garoto esperto,” disse Max, olhando para o espelho, “porque você não diz algo?”

“O que significa isso tudo?”

“Ei, Al,” Max chamou, “o garoto esperto quer saber o que significa isso tudo.”

“Porque você não diz a ele?” A voz de Al veio da cozinha.

“O que você acha que significa isso?”

“Eu não sei.”

“O que você acha?”

Max olhava para o espelho durante todo o tempo que ele falava.

“Eu não sei dizer.”
“Ei, Al, o garoto esperto diz que não sabe dizer o que ele pensa que significa isso.”

“Eu posso escutar vocês, certo,” Al disse de dentro da cozinha. Ele manteve a portinhola por onde passam as louças que entram e saem da cozinha aberta com uma garrafa de catchup. “Escuta, garoto esperto,” ele falou da cozinha para George. “Fique um pouco mais perto do bar. Você Max, mova-se um pouco para a esquerda.” Ele parecia um fotografo organizando uma foto em grupo.

“Fala comigo, garoto esperto,” disse Max. O que você acha que irá acontecer?”“

George não disse nada.

“Eu vou te contar,” Max disse. “Nós vamos matar um sueco. Você conhece um grandão sueco chamado Ole Anderson?”

“Sim”

“Ele vem jantar aqui todas as noites, não vem?”

“Às vezes ele vem aqui.”

“Ele vem aqui as seis, não vem?”

“Se ele vem.”

“Nós sabemos de tudo isso, garoto esperto,” Max disse. “Fale sobre alguma outra coisa. Vai ao cinema às vezes?”

“Bem de vez em quando.”

“Você deveria ir mais ao cinema.Os filmes são bons para um garoto esperto como você.”

“Porque motivo vocês vão matar Ole Anderson? O que ele já fez para vocês?”

“Ele nunca teve a chance de fazer nada contra nós. Ele nunca nem nos viu.”

“E ele só nos verá uma vez,” Al disse da cozinha.

“Então porque motivo vocês irão matá-lo?” George perguntou.

“Nós iremos matá-lo por um amigo. Somente como forma de gratidão a um amigo, garoto esperto.”

“Cala a boca.” Disse Al da cozinha. “Você fala demais.”

“Bem, eu tenho que distrair o garoto esperto. Não tenho garoto esperto?”

“Você fala pra cacete,” Al disse. “O negão e meu garoto esperto se distraem eles mesmos. Eu os tenho amarrados como um casal de namoradinhas no convento.”
“Eu achei que você estivesse num convento,”

“Nunca se sabe.”

“Você está em um convento kosher. É onde você está.”

George olhou para o relógio.

“Se alguém entrar você diz que o cozinheiro está de folga, e se a pessoa insistir em ficar, você diz que você mesmo irá cozinhar. Você entendeu garoto esperto?”

“Claro.” George disse. “O que você fará conosco depois?”

“Isso depende,” Max disse. “Essa é uma das coisas que você nunca sabe até que ela aconteça.”

George olhou para o relógio. São seis e quinze. A porta da rua abriu. Um condutor de bonde entrou.

“Olá George,” ele disse. “Posso jantar?”

“Sam saiu,” George disse. “Ele voltará em aproximadamente meia hora.”

“É melhor eu subir a rua,” disse o motorneiro. George olhou para o relógio. Eram seis e vinte.

“Essa foi boa, garoto esperto,” Disse Max. “Você é mesmo um pequeno gentleman.”

“Ele sabia que eu estouraria sua cabeça,” Al disse da cozinha.

“Não,” disse Max. Não é isso. “O garoto esperto é bacana. Ele é um garoto bacana. Eu gosto dele.”

As seis e cinqüenta e cinco George disse: “Ele não virá.”

Duas outras pessoas entraram no restaurante. Quando George foi à cozinha para preparar um sanduíche de presunto e ovo para viagem que o homem queria levar, dentro da cozinha ele viu Al, seu boné de jóquei virado para trás, sentado em um banco ao lado do passa pratos com a boca da cartucheira cano serrado apoiada em sua perna. Nick e o cozinheiro estavam costas com costas num canto, uma toalha amarrada na boca de cada um. George havia preparado o sanduíche, embrulhado, posto em uma sacola, trouxe para o salão, o homem havia pago e saído.

“Garoto esperto pode fazer tudo,” disse Max. “Ele pode cozinhar e tudo mais. Você poderia fazer de alguma garota uma esposa feliz, garoto esperto.”


“Sim?” George disse, “Seu amigo, Ole Anderson, não virá.”

“Bom eu lhe darei dez minutos,” disse Max.
Max olhou para o espelho e para o relógio. Os braços do relógio marcavam sete e depois sete e cinco.

“Vamo nessa, Al,” disse Max. “É melhor irmos. Ele não virá.”

“Melhor dar mais cinco minutos,” Disse Al da cozinha.

Nesses cinco minutos um homem entrou e George explicou que o cozinheiro estava doente.

“Porque cacete vocês não arranjam outro cozinheiro?” O homem perguntou. “O seu negócio não é uma lanchonete?” Ele saiu.

Vamos nessa Al. Max disse.

“E quanto aos dois garotos espertos e o negão?”

“Eles são de boa”

“Você acha?”

“Certeza. Ta tudo certo com eles.”

“Eu não gosto disso,” disse Al. “Isso é babaquice. Você fala demais.”

“Pro inferno,” disse Max. “Nós temos que ficar entretidos, não temos?”

“De qualquer forma, você fala pra cacete,” disse Al. Ele saiu da cozinha. Os canos cerrados da cartucheira deixaram uma saliência abaixo da cintura de seu sobretudo apertado. Ele esticou o casaco com as luvas vestidas.

“Até logo garoto esperto,” ele disse para George. “Você tem muita sorte.”

“Isso é verdade,” Disse Max. “Você deveria apostar nos cavalos, garoto esperto.”

Os dois homens saíram. George os observou pela da janela, passaram pelo luminoso e atravessaram a rua. Com seus sobretudo apertados e seus chapéus de jóquei eles se pareciam ter saído de um teatro de variedades. George entrou na cozinha pela porta vai-e-vem e desamarrou Nick e o cozinheiro.

“Eu não quero passar por isso novamente,” disse Sam, o cozinheiro. “Não quero isso nunca mais.”

Nick levantou-se. Ele nunca teve sua boca amarrada com uma toalha antes.

“Fala,” ele disse. “Que cacete foi isso?” Ele tentava entender aquilo tudo.

“Eles iam matar Ole Anderson,” George disse. “Eles iam atirar nele quando ele entrasse para comer.”

“Ole Anderson?”

“Certeza.”

O cozinheiro tocou os cantos de sua boca com seus dedões.

“Eles já foram?” ele perguntou.

“Sim,” disse George. “Eles já foram.”

“Não gosto disso,” disse o cozinheiro. “Não gosto mesmo de nada disso.”

“Escuta,” George disse para Nick. “É melhor você ir ter com o Ole Anderson.”

“Beleza.”

“É melhor você não ter nada a ver com isso,” Sam, o cozinheiro, disse.
“É melhor você ficar bem longe disso.”

“Se não quer não vá,” disse George.

“Se meter nessa história não vai te levar a lugar nenhum,” disse o cozinheiro. “Você fique fora disso.”

“Eu irei vê-lo,” Nick disse a George. “Onde ele mora?”

O cozinheiro virou-se.

“Garotos sempre sabem o que eles querem fazer,” ele disse.

“Ele vive na pensão dos Hirsch,” George disse a Nick.

“Eu irei até lá.”

Do lado de fora a luz do luminoso brilhava por entre os galhos pelados de uma árvore. Nick subiu a rua acompanhando os trilhos do bonde e virou no próximo luminoso para uma rua lateral. Três casas subindo a rua era a pensão dos Hirsch. Nick subiu os dois degraus e tocou a campainha. Uma mulher veio à porta.

“O Ole Anderson está?”

“Você quer vê-lo?”

“Sim, se ele está”

Nick seguiu a mulher pelas escadas até o final de um corredor. Ela bateu na porta.

“Que é?”

“É alguém que quer vê-lo, Sr. Anderson,” disse a mulher.
“É Nick Adams”

“Entre”

Nick abriu a porta e entrou no quarto. Ole Anderson estava deitado na cama vestido. Ele foi um lutador peso-pesado de luta-livre e era muito grande para aquela cama. Ele deitava com sua cabeça em dois travesseiros. Ele não olhou para Nick.

“O que é?” ele perguntou.

“Eu estava no Henry´s,” Nick disse, “dois camaradas entraram e amarraram eu e o cozinheiro e eles disseram que iriam te matar.”

Isso soou bobo quando ele disse. Ole Anderson não disse nada.

“Eles nos puseram na cozinha,” Nick prosseguiu. “Eles iriam atirar em você quando entrasse para jantar.”

Ole Anderson olhou para a parede e não disse nada.

“George achou melhor eu vir até aqui e te avisar.”

“Não há nada que eu possa fazer sobre isso,” Ole Anderson disse.

“Eu te digo como eles eram.”

“Eu não quero saber como eles eram.” Ole Anderson disse. Ele olhou para a parede. “Obrigado por vir me contar.”

“Ta tudo certo.”

Nick olhou para o grandalhão deitado na cama.

“Você quer que eu vá chamar a policia?”

“Não,” disse Ole Anderson.

“Há algo que eu possa fazer?”

“Não, não há nada a fazer.”

“Talvez fosse apenas um blefe.”

“Não, não era blefe.”

Ole Anderson rolou para o lado da parede.

“A única coisa é,” ele disse, falando em direção a parede, “Eu não consigo me convencer a sair. Estive aqui o dia todo.”

“Você não pode sair da cidade?”

“Não,” disse Ole Anderson. “Eu estou acabado com tudo isso que vem acontecendo.”

Ele olhou para a parede.

“Não há nada que possa ser feito?”

“Não dá para arranjar uma saída?”

“Não. Eu errei.” Ele falou com a mesma voz modulada. “Não há nada que se possa fazer. Daqui um tempo eu vou me convencer a sair.”

“Melhor eu voltar e falar com George,” Nick disse.

“Até mais,” disse Ole Anderson. Ele não olhou para Nick. “Obrigado por vir.”

Nick saiu. Enquanto ele fechava a porta ele viu Ole Anderson com todas suas roupas deitado na cama olhando para a parede.

“Ele ficou na cama o dia todo,” a proprietária disse lá embaixo. “Eu acho que ele não se sente bem. Eu disse a ele: ‘Sr. Anderson, o senhor deve sair e dar uma caminhada em um belo dia de outono como este,’ mas ele não estava afim.”

“Ele não quer sair.”

“Fico chateada que ele não se sente bem,” a mulher disse. “Ele é um homem muito bom. Ele era lutador, você sabe.”

“Eu sei disso.”

“Você jamais saberia exceto pelo jeito como a cara dele é,” disse a mulher.

Eles ficaram conversando bem perto da porta da rua. “Ele é muito gentil.”

“Bom, boa noite Sra. Hirsch,” disse Nick.

“Eu não sou a Sra. Hirsch,” a mulher disse. “Ela é a dona do lugar. Eu só tomo conta para ela. Eu sou a Sra. Bell.”

“Bom, boa noite Sra. Bell.” Disse Nick.

“Boa noite,” a mulher disse.

Nick andou pela rua escura até a esquina do luminoso e então acompanhou os trilhos do bonde até o restaurante Henry´s. George estava lá dentro, atrás do balcão.

“Você viu o Ole?”

“Sim,” disse Nick. “Ele está em um quaro e não quis sair.”
O cozinheiro abriu a porta da cozinha quando ouviu a voz de Nick.

“Eu não ouvi isso,” ele disse e fechou a porta.

“Você falou para ele?” George perguntou.

“Claro.” Eu falei para ele, mas ele sabe do que se trata.

“O que ele irá fazer?”

“Nada.”

“Eles irão matá-lo.”

“Eu acho que vão.”

“Ele deve ter arrumado alguma encrenca em Chicago.”

“Eu acho que sim,” disse Nick.

“Mas que situação do cacete”

“Realmente horrível,” disse Nick.

Eles não falaram nada. George pegou uma toalha e enxugou o balcão.

“Eu imagino o que ele fez?” Nick disse.

“Ele trapaceou alguém. É por isso que eles matam.”

“Eu vou sair dessa cidade,” Nick disse.

“Sim,” disse George. “Essa é uma boa coisa para se fazer.”

“Eu não consigo me acostumar com a idéia dele esperando no quarto e sabendo o que irá acontecer. Isso é desgraçadamente horrível.”

“Bem,” disse George, “você faz melhor se não pensar nisso.”

Segue o link do texto original, umas fotos do filme do Beto Brant e umas de Chigaco nos anos 20 do século passado, época desse conto.

http://www.geocities.com/cyber_explorer99/hemingwaykillers.html




autor: Sexto

Comments:

Sábado, Junho 07, 2008

“Só creio naquilo que está ao alcance do meu cuspo.”

Esta é a primeira vez que escrevo um texto no blog em mais de uma etapa. Sempre que inicio um texto já tenho a idéia absolutamente completa em minha cabeça, sei exatamente onde quero chegar e qual será a conclusão da coisa, pode haver algumas pequenas idéias durante a criação, que podem ser boas, e ai acabam fazendo parte do todo, mas o objetivo principal está absolutamente definido. Então o texto sempre vira post no segundo seguinte ao ponto final. Depois incluo umas imagens se for o caso. O processo sempre é, ou era, esse.



Não é o caso agora. Só sei de onde quero partir e é dessa frase estupenda do Carlos Heitor Cony, mas vou ter que inventar alguma coisa a partir dela. Não sei exatamente o que. Veremos. O Ventre é o nome do romance onde está essa frase, esse romance tem uma história interessante digo não a história que ele conta, que de fato é interessante, mas o que aconteceu com ele. Mas o que interessa é a frase.

Agora vou para casa comer algo e ler Noite na Taverna. Tenho que bolar algo para esta frase.



Agora eu vou, chove muito aqui. - Solfieri, aguarde-me antes de encher os copos.





Não pensei em nada, como um cético pode crer no que está ao alcance do seu próprio cuspo? Um cético, como eu, sexto, não crê em absolutamente nada, independente do raio de alcance de seu cuspo, mas a frase é fantástica, a continuação dela também é, mas não me lembro de cor, a continuação diz que "o resto é cristianismo e...." não lembro do que vem após o "e".

Darei uma cusparada agora, vamos ver onde cairá e poderei dizer se creio ou não. rraschussssspp (isso foi um cuspo). Verificarei com cautela onde cada perdigoto pousou e então direi, acredito, não acredito, como um bem-me-quer nas folhas da margarida.

Bertran, não inicie suas divagações etílicas sem minha presença. -Taverneira não vez que os copos estão vazios.



Perdigotos espalham-se juntamente com a minha total descrença, nas coisas, no homem, na verdade inabalável, mas pelo menos dei uma cusparada em coisas que apesar de não serem o que parecem ser as vezes enchem. Neste absoluto momento o computador me agrada, mas dez minutos atrás, quando mandava um e-mail inútil para meu chefe somente para cumprir tabela me incomodava. O cuspo o tangiu! À ele, á mesa, á persiana (belo nome para um objeto tão simples) tudo que não existe de fato está a minha volta!

Gennaro, teus devaneios nos exibirão a origem desse seu pavor pela altura e escuridão! Deixe de poesia e romantismo, vamos ao que queremos...

Mergulho de tal forma na esfumaçada noite da taverna que me desvio do mote deste post, mas apesar do ultra romantismo de meus amigos de taverna continuo sem crer em nada, quanto mais nesse amor louco que leva aos extremos do comportamento, morte, aqui jaz a miséria humana essa sim presente mas não posso crer nela pela impossibilidade de ser tocada pelo meu cuspo.

Claudius Hermann tua desgraça não é pior que a de outros levanta-te ou estas tão ébrio que não podes levantar? Quer que o louro conte o final de tua miséria?

Apesar da frase, eu não acredito em nada, consciente e claramente, o que existe ou não, pertence ao ego, é idiossincrasia, nada existe de fato, nada nem o ser nem o nada. Quem fala agora? Joahnn tua história é a mais dura, deixa-me incredulo. Tudo se acaba na miséria da existência.



Giórgia, tinha que haver uma mulher para que a tragédia da existência se completasse, seus anos se foram e nossa vida...



Alvares e a trágica taverna!


FIM do Post. 29/5/08

autor: Sexto

Comments:

Domingo, Junho 01, 2008

Em 1991, lembro perfeitamente deste acontecimento, eu lia o suplemento letras do jornal folha de São Paulo, que como todos os jornais, é tendencioso, mas que serve de alguma coisa às vezes. Deparei-me com um artigo do Regis Bonvicino falando a respeito de um livro póstumo (la vie em close) de um poeta que eu conhecia superficialmente a época, esse poeta é o Paulo Leminski (já falei dele anteriormente), o texto era nitidamente de amigo, digo o Regis era amigo do Paulo ou parecia, fui lendo, caminhando pelo artigo que de quando em quando trazia excertos de poemas (excelentes) fui ficando cada vez mais interessado até me deparar com o seguinte poema:



“Suprassumos da quintessência”:



“O papel é curto

viver é comprido

Oculto ou ambíguo,

Tudo o que digo

Tem ultrassentido

Se rio de mim

me levem a sério

Ironia estéril?

Vai nesse ínterim

meu inframistério”.



Por causa desse poema, no dia seguinte comprei o livro e depois comprei muitos outros deste poeta que faz parte da minha vida, seu texto povoa meus pensamentos até hoje, porque eu acredito que algo que lemos com calma e cuidado se incorpora a nossa existência. Outros escritores foram lidos com calma e cuidado mas o Leminski participou de um momento de mudanças radicais na minha vida.



O que me levou a escrever este texto foi o fato de pouquíssimos críticos, curiosos, admiradores e etc... mencionam este poema especificamente, e por eu acha-lo magnífico, decidi publicá-lo aqui e a partir de agora se alguém procurar por ele acabará achando, assim espero.



Grande abraço a todos. E segue um desenho dessa figura impar que foi o Leminski:



autor: Sexto

Comments:

Segunda-feira, Agosto 20, 2007



ética estética conduta

genético transfere

ausente fere

presente gere

imagen meio mensagem

incompreensível indecifrável intransponível

morse fonte compilado

quem pode saber o que de fato nos trazem

jogo lógica dado

Concreto

CÓ-DI-GO


O desenho-poema é de Augusto de Campos o texto é do mano aqui!

Demorei mas apareci!
autor: Sexto

Comments:

Terça-feira, Dezembro 05, 2006

Nem percebi que tanto tempo se passou entre o último Post e hoje. Tudo bem, não tinha nada de interessante para escrever e não tinha tempo também. Na verdade eu tenho um texto que estou cozinhando aqui na minha cabeça há bastante tempo, mas que ficará para a próxima visto que hoje tenho que escrever sobre uma história em quadrinhos, que seja a primeira de uma série, roteirizada por um tremendo amigo e que não está sendo divulgada aqui por conta desta amizade, mas sim pela qualidade do argumento e (o Klen que me desculpe) pela impressionante qualidade da arte, não conheço o Nelson, mas já sou fã do seu trabalho.
Fazia bastante tempo que eu não via algo inovador, é verdade que não tenho fuçado muito, mas como moro na rua paralela a Devir sempre dou uma olhada no que há de novo e nada tinha me chamado atenção como "O Reino de Doidéra" e a história do Pedralhão. Diga-se de passagem O Reino de Doidéra é um puta nome. Se em Tandera tem Thundercats em Doidéra tem Pedralhão e Flor-da-Paixão. Tem mais, me agrada muito a reengenharia e aglutinação de palavras com a finalidade de criar outras e essa éra de doideiras só poderia chamar-se Doidéra, que sacada!

Quando abri o Link para ler a história foi um choque na primeira olhada, veio imediatamente à mente o quadro expressionista O GRITO do norueguês Munch, analisando mais detalhadamente outros signos foram surgindo e mais traços expressionistas um tanto surpreendentes, depois percebi que não era só o traço, mas a escolha das cores, cada detalhe e é com detalhes que se compõe uma obra de arte. Havia um grupo expressionista alemão no começo do século pássado que tinha como motivação que a arte "expressasse convicções intimas...de modo sincero e espontâneo." Espontaneidade e sinceridade não faltam em Doidéra!
A história é confessional apesar de narrada em terceira pessoa, me lembrou uma frase polêmica do polêmico Pier Paolo Pasolini: "Não há desejo do carrasco que não seja sugerido pelo olhar da vitima." A simplicidade não tira o valor, na verdade dá valor ao texto, a assumida mentira de Pedralhão não diminui em nada o sadismo da flor-da-paixão e nem o olhar de quem quer uma bifa redimi a violência da Flor. Bom, chega de bla bla bla segue o Link de Doidéra para vocês:

http://www.quantaacademia.com/quantoon/doidera.cfm

Essa obra de arte dos quadrinhos foi criada por Pedro Cirne (roteiro) e Nelson Cosentino (arte). Segue uma pequena amostra para dar vontade de visitar o sitio de Doidéra.



E aqui o link da obra toda:

pedralhao.jpg


Entardecer de Emil Nolde
O Grito de Munch

Pode ser viagem minha a comparação com o expressionismo Europeu, ai acima duas importantes obras expressionistas para que vocês tirem suas próprias conclusões.
autor: Sexto

Comments:

Sábado, Julho 22, 2006

Lá se foram alguns meses de primeira página para o seu Zé Pilintra e ele nem fez tanto sucesso assim. Depois de falar de paz e amor entre santos e anjos voltaremos 20 anos no tempo. Já falei do Skarnio aqui no sbrog que era a banda punk em que eu toquei contrabaixo durante alguns anos no inicio dos 80's. Naquela época havia outras bandas na cena Punk de SP, algumas prosperaram e resistiram ao tempo e ao jabá das rádios que invariavelmente só tocam bosta com raras excelentes exceções. Dessas bandas havia uma que eu gostava muito e que tive a sorte e o prazer de me apresentar junto com eles por duas ou três vezes uma delas memorável, no Ácido Plástico que era uma igreja pentecostal transformada em bar/espaço para shows ao lado do complexo do Carandiru. No Lambe-Lambe de chamada para o grande concerto estavam LOBOTOMIA, SKARNIO e nossos ídolos maiores OLHO SECO!!!!! Essas bandas e mais o RATOS DE PORÃO compuseram músicas que eu escuto até hoje e que apesar de sua suprema simplicidade de acordes e arranjos ainda me causam alguma emoção. Todo esse bla bla bla é para chegar a uma música do lobotomia gravada em seu primeiro disco em 1986 e que impressionantemente é atualíssima neste exato momento, exatos, exatos mesmo 20 anos depois, pois o disco foi gravado entre março e julho de 86. A música denuncia uma guerra estúpida que se perpetua e se retroalimenta sem que muitos de nós compreenda porque. O Líbano será destruído novamente. Segue a letra, gostaria muito que vocês pudessem escutá-la, estou com o LP na vitrola tocando! A música chama-se POLÍTICA SIONISTA.

Sob um pretexto pacifista
Exterminam civis a sangue frio
São as vidas humanas sempre pagando
Pelos lucros de uma guerra sionista

Política sionista de uma guerra racista
Guerra sionista de políticos fascistas

Assassinos de bandeira defensiva
Escolhem suas vitimas palestinas
Bombardeando Beirute
Recobrindo o Líbano de sangue

Política sionista de uma guerra racista
Guerra sionista de políticos fascistas

Ostentando um fanatismo religioso
São utilizados como instrumento
Para manter interesses econômicos
E servir como uma base militar

Política sionista de uma guerra racista
Guerra sionista de políticos fascistas


Tudo isso me faz lembrar de um livro do Marx chamado O 18 brumário que tem a celebre frase: A HISTÓRIA SE REPETE DA PRIMEIRA VEZ É UMA TRAGÉDIA DA SEGUNDA UMA FARÇA. Aqui me parece que a história repete-se fielmente como tragédia nas duas oportunidades.

Apesar de não acreditar nisso, espero que não haja guerra visto que o Líbano não tem como se defender.


Alguem acha que essa pessoas querem saber de guerra, essa mesquita é no cambuci, bairro onde eu moro.

Essa destruição desnecessária foi ontem no Líbano.

Fala sério, que soldado iria querer saber de guerra com ela.

P.S. Recomendo a leitura do Le Monde Diplomatique em geral e especificamente de dois textos sobre a situação dos Palestinos no Libano. Segue o link: http://diplo.uol.com.br/_Marina-da-Silva_
autor: Sexto

Comments:

Sábado, Abril 15, 2006

O encontro entre Zé Pilintra e a Anja.

Visto que anjo não tem sexo ou tem os dois conforme a preferência do freguês, Pilintra já determinou que esse aqui é fêmea e das boas. Tudo começou com uma mudança, parece-me que tudo começa ou recomeça ou transinicia-se com algum tipo de mudança. Nascimento, morte e outras coisas mais mundanas: Viagem, novo amor, novo endereço ou seja lá o que for.
O que sabemos é que o que será narrado a seguir aconteceu mesmo.

Seu Pilintra estava lá de terno branco, sapato bicolor vermelho e branco, chapéu panamá com um a tira vermelha de cetim, seu cigarro e ainda com um sarro de cachaça no paladar devido ao samba de ontem que foi até a madrugada. Nunca deixava de guardar pela segurança daquela casa e daquela família, mas naquele dia percebeu uma presença inquietante logo ali em frente, uma fêmea madura com ar angelical e cara de criança e pensou, essa dona quer festa, é do tipo que se faz de difícil, mas lá no fundo tem uma pomba gira vibrante e sensual e eu vou bota ela pra fora, ah se vou.
Esse vestido acabrunhado e essa harpa tão querendo se torná minissaia e viola de samba, se tão!(a cacofonia é boa)

- Ô dona, saindo daqui não quer ir lá para as bandas da lapa come uma farofa feita na gordura de porco e escuta música da boa?

- Seu moço o senhor não está querendo me levar para o mau caminho não né? Porque eu tenho que cuidar dessa casa dia e noite, minha sina, digo minha missão é proteger essa família.

- Mas ora, a minha também é proteger essa outra aqui do outro lado, mas isso não impede de tomá uma branquinha e sacudir os esqueleto dona.

Pilintra mantinha seu olhar penetrante e sacana direto no olho da tal anjinha, ela já dava sinais de curiosidade pelo lado bom da vida.

- Mas como é o nome do Sr. mesmo.

- Zé Pilintra. Tem gente que me chama de Pelintra, mas eu memo prefiro Pilintra!

Responde seu Pilintra com sua voz quase rouca e fazendo cortesia com o chapéu!

- Mas não tem perigo lá não?

- Perigo, mas que perigo, além de ser bom demais, divertido demais a Srta estará em companhia de seu Zé Pilintra protetor das almas, das entradas e da noite, Exu de alma Iluminada que só faz o bem!

- Mas já me disseram que o senhor pode fazer mal para as moças. Disse a anja com ar dissimulado de quem quer esconder sua curiosidade.

- Quem te disse coisas assim está querendo causar intriga, Pilintra é do bem, só ensina as coisas boas e prazerosas da vida. Vamo lá que hoje na Lapa vai rolar um sambão ajeitado.

- Então tá, assim que dormirem nós partimos, mas tenho que voltar logo. Disse a anja entre a excitação da curiosidade e o tremor do receio.

- Não te preocupe que deixarei a Maria Bonita cuidando das duas portas, aqui coisa ruim não entra porque ela derruba.

Partiram no inicio da madrugada, a anja ao escutar o batuque jogou sua harpa de lado, arregaçou aquela saia incomoda e entrou para a roda, Pilintra tomou uminha, serviu uminha para a anja assim que ela parou de sambar e a cena se repetiu toda à noite, samba cachaça logo estavam aos beijos.

No dia seguinte ao amanhecer levantara-se do monte de capim onde dormiram e seguiram juntos para cuidar de suas responsabilidades ao chegarem a porta das casas ouviram Maria Bonita dizer:

- Serei madrinha dos gêmeos que irão nascer, o anjo e o orixá.




Cada um na sua após noite de prazeres!

Valeu Doug pela idéia e que os exus e anjos continuem amantes e se eles existem que nos protejam!
autor: Sexto

Comments:

Terça-feira, Janeiro 31, 2006

Um dia eu prometi a um amigo escrever sobre o Hassidismo aqui no meu sbrog e pesquisei muitas coisas, mas quase todas tinham um aspecto cientifico que não me agradavam, pois todos os textos que eu li partiam do principio ou que você era judeu ou um iniciado no assunto e eu particularmente não sou um nem outro, portanto os textos eram um tanto quando herméticos e necessitaram de muita pesquisa paralela para serem compreendidos. Não quero dizer que só trato de superficialidades aqui neste espaço, mas de uma forma ou de outra o texto aqui no sbrog tem que ser cativante, portanto inteligente (pretensão da porra!!!), rápido, porque os malucos que vem aqui estão sempre com pressa e didático, quando for necessário.

Seguem algumas informações que julgo importantes. (pelo menos para mim).

1-Hassidismo: Movimento que, baseado na cabala, popularizou e humanizou o Judaísmo, o transformando em uma religião multicultural.

2- Sou ateu e grande admirador de Jean Paul Sartre e Sartre não disse que os outros são o inferno, mas sim que o inferno são os outros num sentido psicanalítico que quando fora de contexto não significa exatamente o que ele quis dizer.

3- Podemos discordar de um bom texto e concordar com algo pessimamente escrito, ou nenhuma das anteriores.

4- Se eu fosse inteligente, sábio e religioso o suficiente escreveria esse texto para presentear um amigo inteligente, sábio e nem tão religioso assim.

5- O Nazismo, odioso, não é nem nunca foi uma religião, mas sim um momento político aproveitado por um facínora maluco. Os homens fazem coisas inimagináveis pelo poder. Cito Schopenhauer novamente: "O homem está pronto a sacrificar tudo quanto não é ele mesmo, a aniquilar o mundo inteiro, ainda que não seja senão para conservar um instante a mais o seu ego, essa gota no oceano".


Bom divertimento!!!

O HASSIDISMO COMO VISÃO DE MUNDO

Davi Bogomoletz

Todo mundo conhece a história de Adão e Eva. Estavam os dois no Paraíso, estava tudo bem, chegou a serpente, convenceu Eva de que o fruto da Árvore do Saber não matava ninguém, Deus é que tinha ciúme de quem o comesse, pois se tornaria igual a Ele, e Eva comeu e deu um para Adão também, que não viu por que não comer, se Eva estava comendo e continuava inteira. Abriram-se os olhos de ambos, e viram que estavam nus, envergonharam-se e correram para se esconder atrás da moita, pois Deus vinha vindo, passeando que estava à brisa do entardecer. Chegando ao local onde o casal costumava ficar, e não os encontrando, Deus perguntou: "Adão, onde estás?"
O comandante da prisão onde Rabi Shneur Zalman de Liady, fundador do Chabad, estava encarcerado por calúnia das autoridades judaicas, era um homem culto e bastante sensível. Ficou impressionado com o ar majestoso de seu prisioneiro, e um dia, bom cristão que era, entrou em sua cela para fazer-lhe uma pergunta."Como se explica que Deus, sendo onisciente e onipresente, precisasse perguntar a Adão 'onde ele está'? Será que Deus realmente não sabia? Gostaria muito de entender isto, mas não consigo.
"Disse-lhe o velho rabino: "Deus perguntou a Adão 'Onde estás?' não porque não o soubesse. Deus não queria saber onde Adão estava. Deus queria que Adão tomasse consciência de onde ele estava, agora, depois de ter cometido a transgressão. E essa pergunta não vale só para Adão - ela vale para cada um de nós, ao longo de toda a nossa vida, e ao longo de todas as gerações."Assim, logo de saída, o tzadík nos explica há duzentos anos atrás por que a Toráh, entregue ao povo judeu há precisamente 3312 anos (segundo anúncio publicado ontem em O Globo pela filial carioca do movimento por ele fundado na Polônia), continua sendo esse livro fundamental para a nossa vida cotidiana aqui (no Rio de Janeiro) e agora (3312 anos depois).PORQUE O QUE ESTÁ ESCRITO NÃO É O QUE ESTÁ ESCRITO.O QUE ESTÁ ESCRITO É O QUE NÓS ENTENDEMOS DO QUE ESTÁ ESCRITO.O texto é infinito, porque o homem que o lê é infinito, assim como o Deus que o escreveu. Por isso é preciso tomar consciência: Porque se fôssemos finitos saberíamos sempre 'onde estamos', e não seria necessário perguntar nada. A ninguém.Para o Judaísmo não hassídico tudo isto é óbvio. Não é exatamente ignorado, simplesmente é deixado de lado. Pois para o Judaísmo não hassídico ao homem não cabe fazer perguntas. Um rabino não-hassídico não teria respondido ao funcionário russo da mesma forma. Ele teria dito algo como: "Deus sabe o que faz, e não nos cabe questionar os Seus métodos".Do ponto de vista hassídico, embora não nos caiba questionar os métodos de Deus, nos é dada a liberdade de tentar entendê-los tanto quanto possível. O Judaísmo não hassídico também considera que o homem é infinito, mas não perde muito tempo com isso. Já para o Judaísmo hassídico, esta é uma dimensão essencial e de importância sempre presente do ser humano. Pois somos infinitos. Cada um de nós. Cada um de nós que habitamos o planeta Terra.A beleza do Hassidismo está nesta percepção da infinitude. Foi daí que Buber extraiu a idéia do Tu - um tu infinito, que não pode ser conhecido inteiramente. Segundo Buber, as coisas concretas podem ser conhecidas a ponto de não precisarmos ficar perplexos com elas. Os seres humanos, não.Quando nos relacionamos com um outro ser humano sem essa dimensão de perplexidade, sem esse sentimento de estranheza, sem nos darmos conta de que estamos diante de algo grande demais para conhecermos inteiramente, nesse momento estamos nos relacionamento com uma 'coisa', não com um 'ser'. Quando queremos que esse outro seja como nós o concebemos, esquecemo-nos de levar em conta que ele é como é (mesmo que ele próprio nunca saiba como é), e o transformamos em coisa. Quando alguém evita pensar e formular as próprias opiniões, adotando as de outro, transforma a si mesmo em coisa.A religião é um paradoxo: ao mesmo tempo é preciso ouvir, aceitar a tradição, e pensar, inovar a tradição. Os que apenas seguem a tradição colocam-se na condição de 'coisas', não de 'seres'. Os que apenas formulam as próprias idéias e evitam ouvir a tradição saem fora do contexto da religião. Os que ouvem o que diz a tradição e com base nisso criam novas possibilidades estão exercendo a sua dimensão infinita.Se Deus existe e criou o homem, mas não desejava um homem infinito, teria criado 'coisas' e não homens capazes de transgredir. Ao criar um Adão capaz de transgredir Deus não estava cometendo um equívoco. Estava deixando claro que só assim teria algum valor o gesto de aceitação, o gesto que não é uma transgressão. Se a transgressão não existisse como possibilidade, o ato reverente não teria qualquer valor. Se não existisse o Nazismo, o Judaísmo não teria valor algum. O Judaísmo é a prova de que, se a Humanidade pode produzir algo como o Nazismo, não produz apenas Nazismo.A Toráh deixa isto claro logo no início, quando Abrahão coloca-se em pé, acima dos três viajantes que ele convidou para se alimentarem e descansarem em seu acampamento. Os rabinos entenderam muito bem a indireta: Se os três viajantes eram anjos, Abrahão mostrou-se mais valioso que eles: Colocou-se acima deles. E como? Sendo generoso. Sendo generoso com estranhos. Servindo-lhes uma refeição, e servindo-os com as próprias mãos. É assim que nos tornamos superiores, até superiores aos anjos, diz a Toráh: quando ficamos em pé e deixamos os que estão cansados sentarem. Quando damos a quem tem fome uma parte do nosso alimento. Quando não perguntamos primeiro aos viajantes "Quem sois vós", para só então, dependendo da resposta, lhes oferecermos descanso e comida. Tornamo-nos superiores aos anjos quando as necessidades dos estranhos são satisfeitas em primeiro lugar.ESTRANHOS. DESCONHECIDOS. PESSOAS QUE NÃO CONHECEMOS.TUEHEYÉH ASHER EHEYÉH,diz Deus, quando Moisés Lhe pergunta por seu nome. "SEREI AQUELE QUE SEREI", diz Deus. Ou, numa tradução menos literal, e a meu ver mais precisa, "SEJA EU QUEM FOR". A dimensão infinita de Deus está dada aí, nessa resposta aparentemente "malcriada", em que Ele praticamente diz a Moisés: "Deixa de fazer perguntas idiotas. Meu nome não importa, importa apenas a minha existência." Deus diz: "Sou um estranho, e jamais me conhecerás."Essa mesma resposta já está implícita num momento bem anterior, quando Abrahão recebe desse Deus a ordem de ir até um lugar desconhecido ("que Eu te mostrarei"...), e ali sacrificar o seu filho. O seu filho único. O seu filho amado. Isaac. Sim, porque Abrahão tinha dois filhos, cada um "único" para a sua mãe, e cada qual amado. Mas era através de Isaac que a mensagem de Deus seria levada adiante, não através do outro filho, e eis que agora esse Deus tão esquisito lhe pede que sacritique justamente a ESTE, a este do qual depende justamente a divulgação para a Humanidade de que esse Deus EXISTE. Abrahão ouve e nada diz, e trata-se de um dos silêncios mais retumbantes de toda a literatura universal. A mudez de Abrahão ao longo de todo o percurso só é quebrada quando seu filho, a caminho do sacritício, lhe pergunta: "Pai, aqui estão a faca e o fogo, mas onde está o cordeiro?" E nesse momento Abrahão dá uma resposta que é um exemplo magnífico de como fé, dúvida, aceitação, revolta, indignação, humildade, amor, ódio e indiferença podem estar rugindo ao mesmo tempo numa única alma humana: "Deus verá para si um cordeiro, meu filho." E continuam a andar ambos juntos.Nesse episódio do quase sacrifício de Isaac, Abrahão defronta-se com o infinito de Deus, impossível de ser compreendido. Com o infinito de Isaac, dono de um destino próprio, impossível de ser evitado pelo pai. E com o infinito de si próprio, pois vê-se prestes a realizar um ato que ele jamais imaginaria fazendo parte das suas próprias possibilidades. Um pai que vai conscientemente matar um filho não é um ser compreensível. Um filho que vai ser morto pelo pai em vez de dar continuidade à sua estirpe não é um ser compreensível. Um Deus que ordena ao pai que mate o filho POR AMOR não é um Deus compreensível.A situação é traumática. Tão traumática para esses indivíduos, confrontados com a perda inexorável, quanto o episódio do Monte Sinai, o confronto com a presença inexorável, o será depois para todo o povo. Nesses dois momentos o infinito se abate com toda a sua violência sobre os nossos antepassados, e os ecos desses cataclismas nos sacodem até hoje.TU o infinito da dimensão humana é o que dá ao indivíduo humano toda a sua criatividade. O infinito da dimensão humana é o que dá a cada indivíduo a sua singularidade, transformando-o num caso único e irrepetível dentro da história da Humanidade.E a Toráh nos ensina essas lições desde o início. As idéias de infinito, de singularidade e de individualidade estão lá desde o início.Dizem que a Toráh é um livro de leis. E que as leis servem para comprimir o indivíduo dentro de um código que o submete ao coletivo.Não: As leis servem para que os seres humanos, individuais, singulares e infinitos consigam minimamente se entender e viver próximos uns dos outros. A intenção das leis não é oprimir a singularidade do indivíduo, é libertar o indivíduo abrindo sua consciência para a singularidade do outro. Pois, como diz Buber, é muito mais fácil - mas ao mesmo tempo muito mais pobre - relacionar-se com coisas em vez de com seres humanos. O Nazismo é a religião que ensina a relacionar-se com coisas. Cada um é uma coisa, acabada, conhecida, sem perplexidades nem idéias novas. "1984" é o livro que conta como seria o mundo caso o Nazismo houvesse prevalecido. Uma linda fábula.Nós, judeus, recebemos de herança essa outra visão de mundo, que o Nazismo queria exterminar: Na nossa visão de mundo cada ser humano é infinitamente valioso e importante. Do ponto de vista judaico Sartre estava errado: Os outros não são o inferno, como disse ele. Os outros são a nossa possibilidade de viver uma vida realmente humana.Foi esta Toráh que recebemos no Sinai, há 3312 anos atrás, e é nessa Toráh que ainda hoje encontramos idéias novas, capazes de nos fazer entender de modo sempre novo a profundidade da existência humana. Buber, quando escreveu seu trabalho sobre o Eu e o Tu, não estava realmente inovando, estava dando nome a algo que na Toráh já estava implícito há muitos séculos: O homem não é uma 'coisa', o homem é um 'fenômeno' - algo que vemos mas que não vemos por inteiro.A assim chamada 'percepção do outro' depende inteiramente disto. Não podemos perceber o outro se imaginarmos que somos capazes de conhecê-lo. Pois nesse caso ele não será 'outro', ele será 'isto' - uma 'coisa'. Hoje em dia fala-se muito da necessidade de 'perceber o outro', da importância da 'alteridade', da fundamental necessidade de aceitarmos o 'não saber'. Todas as três expressões são centrais nisso que se chama o 'pós moderno'. Pois a Toráh já é 'pós moderna' há muitos e muitos séculos. Nela a aceitação do não saber e a percepção do outro são fundações, não conclusões. Abrahão era um peregrino, que veio do outro lado do rio. Moisés era um homem gago, impaciente, fugitivo. O primeiro "templo" judaico é um pé de sarsa, um arbusto espinhento que nem as cabras apreciam.Claro, o 'establishment' judaico afastou-se dessa simplicidade primordial. E foi a essa simplicidade primeva e a essa complexidade infinita que o Hassidismo paradoxalmente acabou voltando, ao surgir. O próprio 'establishment' hassídico afastou-se tanto de uma quanto da outra. Mas aí está a imperfeição humana - filha da infinitude e da singularidade - que tornam a História uma eterna sucessão, um eterno crescimento. Como na história do indivíduo: se você é hoje igual a quem era ontem - significa que não aprendeu nada.

autor: Sexto

Comments:

Segunda-feira, Janeiro 30, 2006

A violenta história dos pequenos cravos vermelhos:

Rodrigo era um cara trabalhador, pacato, curtia sua família e era um pai e marido muito protetor. Tinha duas filhas e também gostava de jardinagem e capoeira, esporte-dança-luta que praticava a mais de 20 anos e, portanto, era literalmente um mestre, conhecia truques e artimanhas e principalmente a filosofia de paz e compreensão. Cultivava cravos vermelhos!
Sua filha mais velha acabava de completar 16 anos e ele andava um tanto enciumado com seus namoros, mas quando pensava serenamente concluía que está era ordem natural das coisas e como conservador que era pedia a esposa que desse uns conselhos a menina, mas era ao mesmo tempo um homem de seu tempo e pedia para a mulher falar sobre prevenção de DSTs, gravidez e etc...
As coisas caminhavam pelos trilhos até o dia que Raquel, sua filha mais velha, chegou em casa tremula e disse que um homem a seguiu na rua, lhe disse obscenidades e tentou agarrá-la a força o que a deixou muito assustada.

Seu pai ficou puto, queria sair de casa na hora e ir atrás do filho da puta sem nem mesmo perguntar como o desgraçado era, como estava vestido ou qualquer coisa que o permitisse identificar o animal.
A partir dessa data o pai começou a acompanhar a filha por todos os lugares, mas ele sentia que ela havia perdido algo importante, sua liberdade, sua chance de ser independente e depois de algum tempo afrouxou e deixou ela sair sozinha, dois dias depois o maluco atacou novamente e por obra do acaso não estuprou a menina num terreno abandonado.
Quanto o homem já havia tirado a blusa da moça e mordia seus ombros e orelhas um cão apareceu no terreno e começou a rosnar para os dois o homem amedrontou-se e resolveu correr, porém sua vitima o reconheceu.
Raquel voltou para casa em estado de choque, seu pai desesperado a levou a um hospital, registrou queixa na policia, fez exame de corpo de delito e todas aquelas babaquices que não levam a nada, mas prometeu que ele mesmo ia falar de perto com o FDP.
O agressor era um homem "honrado" todos o conheciam no bairro por ser um empresário de renome e muitos preferiram duvidar da história da menina, mas não Rodrigo, ele conhecia sua filha e não deixaria que isso acontecesse novamente.
O facínora desapareceu por um bom tempo.
A vida voltou quase a normalidade para todos. A partir de então a menina só andava acompanhada e de vez em quando tinha que ir a delegacia prestar depoimentos. O agressor, também tinha contato sua história, que lhe eximia de quase toda a culpa a não ser o fato de ter uma relação consentida com uma menor, pelo menos era isso que ele afirmava e esta a linha de defesa adotada por seu advogado.
O tempo passou, mas Rodrigo havia prometido que isso não ocorreria novamente e foi destilando um ódio pelo agressor de sua filhinha que o levou a fazer o pior, mas se fosse verdade o que a menina dizia e ele acreditava que era, era o melhor a fazer, nenhum FDP que havia deixado marcas de dentadas na sua filha teria a chance de faze-lo novamente.
Foram três chutes certeiros na têmpora direita que levaram o agressor de sua filha para um coma prolongado e a morte.
Rodrigo apresentou-se a policia confessou o homicídio e hoje aguarda seu julgamento em liberdade certo de que fez o que era correto.
Dois pequenos cravos vermelho florescem sobre o tumulo.



Os Cravos, o Túmulo (túmulo de rico é ridículo) e Miró, só porque é chocante, no sentido literal da palavra.
autor: Sexto

Comments:

Quinta-feira, Novembro 24, 2005

Mais desarmamento!!!!!!!!!!!!!!!

Faz muito tempo que não tenho tempo ou assunto para passar por aqui, já tive muita vontade de escrever sobre a vitória do NÃO no referendo, mas tenho certeza que ia ficar dizendo a mim mesmo: Isso é grito de dor da derrota. Agora que o assunto não está mais em voga e muito fora de moda, resolvi retornar a ele, pois o momento que eu mais esperava chegou, a prestação de contas das campanhas.
Qualquer primeiro-anista de marketing sabe quanto é preciso para se eleger um candidato, o valor varia de acordo com o cargo que ele pleiteia, a fama que ele já detêm, o tempo de exposição espontânea que ele tem na mídia e alguns outros detalhes, mas eleger um candidato tem um preço, calculável com alguma precisão pela ciência do marketing. Daí a corrida de candidatos atrás do dinheiro, seja lá qual for a fonte. Como será ressarcido nós sabemos.
Bom no caso do referendo, agora saberemos claramente de onde o dinheiro dos vitoriosos veio. Como ele será ressarcido? Com o nosso bem mais valioso, nossa vida. Triste, mas verdade.

Segue um artigo do jornalista Josias de Souza, até onde sei, homem digno e jornalista isento de vínculos com qualquer das partes, nesse artigo publicado em seu blog ele só declara fatos, em breve a prestação de contas das campanhas deverá estar disponível no sitio do TSE.
Mais um alerta, a proporcionalidade entre a quantidade de dinheiro investido em cada campanha e a diferença de votos não é mera coincidência é motivo de estudo do marketing também. O fato de uma das fábricas ter sede no RS também influenciou a votação neste estado e etc...
No mais, é muito fácil alguém nos convencer a achar bom algo que vai nos prejudicar! Tipo cigarro, drogas, armas e etc... Mas cigarro e drogas dão algum prazer e as armas?
Daqui pra frente é o artigo:
"Indústria de armas bancou campanha do Não
Vitoriosa no referendo do último dia 23 de outubro, a campanha do "Não", que se opôs à proibição do comércio de armas no país, foi financiada por dois gigantes do comércio nacional de armamentos e munições: Taurus e a CBC (Cia Brasileira de Cartuchos). Juntas, as duas empresas doaram à "Frente do Não mais de R$ 5 milhões.

Segundo o deputado Alberto Fraga (PFL-DF), presidente da "Frente do Não", a CBC foi a campeão de doações, com cerca de R$ 2,6 milhões. A Taurus, segunda maior doadora, contribuiu com cerca de R$ 2,4 milhões. O custo total da campanha do "Não" foi de cerca R$ 5,6 milhões. Terminou no azul. Não sobrou um tostão de dívida.

A contabilidade da "Frente do Sim" exibe realidade bem diferente. Derrotada nas urnas, perdeu também no front da coleta de verbas. Angariou cerca de R$ 2,4 milhões, menos da metade do que foi arrecadado pela frente adversária. Terminou a campanha no vermelho. Amarga uma dívida de cerca de R$ 320 mil. Seus integrantes não sabem de onde vão tirar esse dinheiro.

Terminou nesta quarta-feira o prazo para a entrega da prestação de contas das duas frentes ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral). A deficitária "Frente do Sim" cumpriu o prazo. A superavitária "Frente do Não" pediu tempo ao tribunal. Pretende fechar a sua escrituração na próxima semana.

Ouvidos pelo blog, parlamentares que integraram as fileiras do "Não" declararam-se constrangidos ao saber que a campanha foi bancada por indústrias de armamentos. O próprio presidente da Frente, deputado Alberto Fraga (PFL-DF), disse: "Não queríamos isso. Mas o volume de dinheiro era grande e não tivemos como cobrir essas despesas com outras doações".

Fraga acha, porém, que não se poderia esperar coisa diferente: "Quem iria pagar essa conta? Não poderia ser nem a Águas de Lindóia nem a Cervejaria Antárctica. Nossa contabilidade é transparente. Não temos caixa dois. É tudo por dentro. Graças a Deus não ficamos com dívidas."

Secretário-geral e tesoureiro da ¿Frente do Sim¿, o deputado Raul Jungmann (PPS-PE), pensa de outro modo: "Fica comprovado que os que foram favoráveis ao comércio de armas, a pretexto de defender um direito do cidadão, estavam defendendo na verdade o lucro das empresas de armamentos. A máscara caiu."

As doações à campanha do "Sim" foram mais diversificadas. Alguns exemplos de doadores: Ambev, com cerca de R$ 400 mil; CBF (Confederação Brasileira de Futebol), R$ 100 mil; e Prestadora de Serviços Estruturar, R$ 400 mil.

A vitoriosa "Frente do Não", integrada por 142 parlamentares, tem reunião marcada para a próxima terça-feira no Congresso. Acompanhado do contador da campanha, Alberto Fraga apresentará os números aos colegas antes de entregar a prestação de contas ao TSE. Segundo ele, 95% do dinheiro arrecadado financiou a produção do programa televisivo da frente, comandado pelo publicitário Chico Santa Rita.

A Taurus é uma das maiores fabricantes de armas do país, com sede no Rio Grande do Sul. Está no mercado há 65 anos. Exporta para 80 países. Possui filial em Miami (EUA). Inaugurada em 1926, a CBC tem sua principal fábrica instalada em Ribeirão Pires (SP). É a maior produtora de munições da América Latina.
Escrito por Josias de Souza às 23h21 http://josiasdesouza.folha.blog.uol.com.br/"

Tentei postar um desenho do Crumb novamente, era o BOBO BOLINSKY! Ele resume quem nós somos, quem quiser ver vá lá pra baixo nesse blog e encontrará o cara mais otário do mundo depois de todos nós.

Valeu!



autor: Sexto

Comments:

Sábado, Outubro 15, 2005

Armas


Todo mundo sabe que vou votar SIM, ou seja, sou contra a venda de armas. Porém, e como já repeti mais de mil vezes, sempre há um porém, sei que esta não é a solução final para o problema da violência no Brasil.
Poderia fazer uma lista interminável de argumentos a favor da proibição da venda de armas, assim como conheço pessoas de bem que fariam uma lista interminável a favor da não proibição, portanto seria obrigado a suspender o meu juízo. Para tentar por alguma luz nesse caminho cheio de pedras e não com uma única como no caminho Drumondiano, recorrerei a um centro de pesquisas de reputação inquestionável que é o NEV, núcleo de estudos sobre a violência da USP. "Violência por Armas de Fogo no Brasil". Essa pesquisa é um material cientifico de primeira linha e deve ser lido, como já disse é um trabalho científico, portanto a leitura pode não ser prazerosa, mas garanto, será esclarecedora. O trabalho possui muitos gráficos sobre a distribuição da violência por faixa etária, região geográfica, condição social, sexo e etc...

Quem não tiver paciência para ler tudo, pode ir diretamente a página 156/157 onde os pesquisadores fazem suas recomendações sobre o assunto. Por tratar-se de um texto em PDF, podemos navegar por ele com facilidade, ir aos pontos que nos interessam mais, retornar, verificar os gráficos mais relevantes. Tem um que mostra qual a motivação das pessoas em comprarem uma arma, um percentual importante compraria uma arma para poder intimidar outras pessoas ou para sentir-se mais poderoso, PERIGOSO ISSO!

Bom chega de conversa mole e vamos ao endereço do sitio: http://www.nev.prp.usp.br/
No lado direito da página há um link para a pesquisa.

Quem ainda não viu poderia assistir ao premiadíssimo "Tiros em Columbine" (Michael Moore) que trata do assunto armas e violência a partir de um acontecimento realmente chocante.
Segue mais um desenho imprescindível do Leo Martins!


autor: Sexto

Comments:

Sexta-feira, Setembro 23, 2005

"Posso afirmar, sem medo de errar, que se conhece uma pessoa sob efeito de bebida, durante um jogo e na sala de espera de uma UTI."

Quem fez esta afirmação foi o DR. Elias Knobel, diretor da UTI do Albert Eistein em uma entrevista concedida ao NOMINIMO e que eu recomendo enormemente a leitura, tanto da entrevista como de todo jornal. Para quem quiser ler, e todos os minguados amigos que acessam esse sitio devem querer porque é muito bom , segue o endereço: http://nominimo.ibest.com.br.

Talvez eu tenha gostado tanto da entrevista porque concordo com quase tudo que ele afirmou, freqüentemente acordo de madrugada pensando no meu trabalho e não consigo me desligar e etc... (GUARDEM AS DEVIDAS PROPORÇÕES ENTRE O QUE EU FAÇO E O QUE O DR. KNOBEL FAZ E AS RESPONSABILIDADES DE CADA UM).
Outra coisa que achei interessante é que sempre digo em tom de brincadeira (minha avó já me dizia:-toda brincaeira tem um fundo de verdade): "Não se pode confiar num homem que não bebe" e para subsidiar minha afirmação ele diz que a bebida da transparência à pessoa. E vejam quem está dizendo.

Faz alguns dias que estou para escrever a respeito do NOMINIMO, mas ando tão puto com o jornalismo em geral e principalmente com o jornal que sou assinante que fui adiando, mas hoje eles me convenceram que são bons. Claro não dá para acreditar em tudo, os caras fazem propaganda de carro importado, tem que ganhar uma grana né, e ai a independência jornalística vai meio que por água abaixo (como no caso da honestidade feminina, não adianta ser independente tem que parecer independente). Mas em geral os textos são ótimos, os jornalistas estão entre os melhores que conheço (como se minha opinião tivesse alguma importância) e em conseqüência disso temos algo bacana para nos entreter e nos animar nos momentos de desespero.

E mais tem ótimas dicas de artes plásitcas, fotografia, música, cinema e uns desenhos muito bacanas do Leo Martins, como vocês podem constatar abaixo:




Valeu?!
autor: Sexto

Comments:

Sexta-feira, Setembro 09, 2005

Bronx, as you asked!

Lembro bem de um desenho animado onde o super-herói emitia uns raios a partir de seus olhos e ao final destes raios formava-se uma imagem, eu imaginava que esta imagem era fruto do encontro dos raios emitidos pelos olhos do super-herói com os emitidos pelo objeto que ele mirava. A esta imagem vou batizar fenômeno, pois era mais ou menos assim que os pensadores anteriores a Kleper e Descartes imaginavam que as imagens eram formadas e eu tinha certeza disso até uns 13 ou 14 anos quando vim descobrir via Kepler e Descartes que a coisa não era bem assim, ou melhor, que haviam criado um modelo cientifico que melhor representava a apreensão das imagens pelo nosso sistema sensorial, mas, este objeto visto por nós continuará chamando-se fenômeno. Isso porque o que vemos na verdade não é o objeto em si, mas uma imagem dele, formada seja pelo encontro dos raios de luzes pré-cartesianos ou por qualquer outra idéia científica.
"Quando interpretamos filosoficamente uma física da visão desse tipo, somos levados a considerar que a realidade empírica do objeto não poderia constituir um dado absoluto e que o conhecimento efetua-se relativamente ao sujeito que participa de sua constituição".

Além disso, podemos ser enganados pelas nossas sensações, pois o que de perto pode parecer enorme se observado a uma certa distância pode nos dar a certeza de tratar-se de uma coisa de dimensões ínfimas.

"Se acreditarmos em Tímon, conforme o que indica Eusébio, o fato de constatar que as coisas não manifestam visivelmente ou fenomenicamente qualquer diferença absoluta entre elas e escapam igualmente à certeza e ao juízo que pretende conhece-las absolutamente, permite-nos permanecer sem opinião e sem inclinação, de escapar a todo abalo ou dúvida da alma, de limitar-nos a dizer de cada coisa que ela não é mais isto que aquilo, o que conduz à afasia e à ataraxia" (Eusébio).

Bom até aqui nos referimos a idéias originárias da Grécia antiga, Tímon foi discípulo de Pirro (pai do ceticismo) e viveram em 279 aC.

Para dar continuidade ao "árduo" trabalho de explicar o que é ataraxia avançaremos no tempo e passaremos ao século I aC com os tropos de Enesidemo: O primeiro tropo ressalta a diversidade dos animais e dos órgãos dos sentidos. Ele conclui que as sensações são inerentes ao sujeito que as experimenta. No segundo ele constata que um mesmo homem pode, segundo as circunstâncias, ser diferentemente afetado por um mesmo objeto. O terceiro tropo denuncia a relatividade das circunstâncias, como saúde e doença, sonho e vigília, idade, movimento e repouso e etc... O quarto tropo destaca a relatividade dada pelas posições, distâncias e lugares, como a história das distâncias a que me referi anteriormente.

Existem outros tropos quem quiser saber mais vai ter que correr atrás, mas onde queremos chegar é que não é difícil constatarmos a relatividade dos fenômenos, opondo entre eles as representações presentes e passadas e tirando de seu conflito argumentos que nos levam a suspensão do juízo("É o relativismo filosófico de Enesidemo que melhor contribui para definir a suspensão do juízo como regra não dogmática da vida cética".) e para uma vida tranqüila e silenciosa. Diria uma vida ataraxica.

Mencionarei mais um filósofo que dedicou-se ao ceticismo séculos depois destes que já citei e que está no rol dos meus preferidos: Montaigne. Século XV dC.

"Montaigne reata com a tradição grega(pirrônica): sua convicção é a de um relativismo universal. Ele está intimamente persuadido que o sujeito singular é incapaz de ultrapassar a singularidade de suas impressões e de sua imaginação para alcançar um conhecimento válido universalmente. Considerou que a honestidade o forçava a falar da maneira singular com a qual ele via o mundo através dele mesmo, ao invés de adotar sobre o mundo um ponto de vista universal, decidido e dogmático. É por isso que este autor, que cita tão abundantemente os antigos, declara preliminarmente ser ele mesmo "a matéria de seu livro"; entendamos que, para ele, todo dado é relativo à um sujeito, isto é, aos sentidos e à imaginação particular."Portanto uma verdade universal não existe.
Para finalizar citarei a primeira das Meditações metafísicas de René Descartes, que não era cético, mas bebeu nessas águas e radicalizou a dúvida, duvidando de todas suas próprias convicções para desenvolver sua metafísica.
"Suporei, então, que há, não um verdadeiro Deus, que é a soberana fonte da verdade, mas certo gênio maligno, não menos ardiloso e enganador do que poderoso, que empregou toda sua indústria em enganar-me. Pensarei que o céu, o ar, a terra, as cores, as figuras, os sons, e todas as coisas exteriores que vemos não passam de ilusões e enganos de que ele se serve para surpreender minha credulidade. Considerar-me-ei a mim mesmo como não tendo mãos, nem olhos, nem carne, nem sangue, como não tendo nenhum dos sentidos, mas acreditando falsamente possuir todas essas coisas. Permanecerei obstinadamente apegado a esse pensamento; e, se por esse medo, não estiver em meu poder atingir o conhecimento, de nenhuma verdade, pelo menos estará em meu poder fazer a suspensão de meu juízo. Eis por que cuidarei zelosamente de não receber em minha crença nenhuma falsidade, e prepararei tão bem meu espírito em face de todos os ardis desse grande enganador que, por mais poderoso e astucioso que seja, nunca poderá impor-me coisa alguma.
Mas esse desígnio é árduo e trabalhoso, e certa preguiça arrasta-me insensivelmente para o ritmo de minha vida comum. E, exatamente como o escravo que se comprazia no sonho de uma liberdade imaginaria e que, quando começa a suspeitar que essa liberdade é apenas um sonho, teme ser despertado e conspira com essas agradáveis ilusões para ser mais longamente enganado, assim eu, por mim mesmo, retorno invisivelmente às minhas antigas opiniões e receio despertar dessa sonolência, temendo que as vigílias laboriosas que se sucederiam à tranqüilidade de tal repouso, ao invés de propiciarem alguma luz ou alguma clareza no conhecimento da verdade, não fossem suficientes para aclarar as trevas das dificuldades que acabam de ser tratadas".

Ufa, acho que deu!

Parece ter ficado claro que duvidar de tudo nos leva a algum conhecimento, a conclusão de que é impossível haver uma verdade universal que transcenda as relações entre sujeito e objeto e que isso nos leva a suspensão do juízo, já que não podemos ter certeza de nada e esse estado de tranqüilidade que a dúvida total nos remete é a ataraxia!
"A glória a que aspiro é a de ter vivido tranqüilo [...] em sendo a filosofia incapaz de mostrar o caminho que conduz ao repouso da alma que a todos convém, que cada qual por seu lado o procure." - M. de Montaige - Ensaios
Certo mano!

Quem quiser saber mais visite:

http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/dumont.htm
http://www.mundodosfilosofos.com.br/descartes2.htm
http://educaterra.terra.com.br/voltaire/artigos/montaigne.htm




O cara do desenho! Os outros já tem foto neste sbrogsss! Ou nunca terão!
autor: Sexto

Comments:

Quarta-feira, Agosto 24, 2005

Mea Culpa

O negócio é o seguinte, ser taxado de analfabeto é realmente muito ruim, principalmente quando você tem consciência de sua condição cultural e intelectual. Gostaria de iniciar dizendo que sou absolutamente normal, longe de mim ser mais qualificado intelectualmente que a média da população, mas por alguma deficiência cognitiva tenho problemas muito sérios quanto à grafia das palavras e minha escrita (a mão) é tortuosa e invariavelmente omito silabas ou letras das palavras que escrevo. Nem por isso deixo de expressar minhas idéias com certo nível de clareza quando estou redigindo algum texto, se não tenho métodos de consulta (dicionários ou editor de textos) disponíveis, inevitavelmente cometerei erros crassos de ortografia. Confesso que não sei se a palavra "jeito" se grafa com "g" ou com "j" e muitas vezes escrevo com "g" e o mesmo acontece com "s", "ss", "ç", "x", "z" e etc. Já escrevi muitas vezes a palavra "peço" com dois esses e fui desmoralizado por isso. Porém, como tenho plena consciência deste problema, me cubro de cuidados para minimizar os erros e suas conseqüências. Como na vida sempre há um porém, muitas vezes quando estou sendo testado, participando de uma prova onde não tenho acesso a estes métodos de consulta, cometo esses erros e sou julgado inapto para determinadas tarefas ou até taxado de analfabeto. Hoje em dia não chega a ser frustrante, mas também não deixa de ser chato. Não estou aqui dando desculpas para meus fracassos, só estou me dizendo que não dá para vencer todas. É isso!
Quem tiver saco leia o texto a seguir, como conhecimento é bem interessante.


O que é Dislexia?

Entender como aprendemos e o porquê de muitas pessoas inteligentes e, até, geniais experimentarem dificuldades paralelas em seu caminho diferencial do aprendizado, é desafio que a Ciência vem deslindando paulatinamente, em130 anos de pesquisas. E com o avanço tecnológico de nossos dias, com destaque ao apoio da técnica de ressonância magnética funcional, as conquistas dos últimos dez anos têm trazido respostas significativas sobre o que é Dislexia.
A complexidade do entendimento do que é Dislexia, está diretamente vinculada ao entendimento do ser humano: de quem somos; do que é Memória e Pensamento - Pensamento e Linguagem; de como aprendemos e do por quê podemos encontrar facilidades até geniais, mescladas de dificuldades até básicas em nosso processo individual de aprendizado. O maior problema para assimilarmos esta realidade está no conceito arcaico de que: "quem é bom, é bom em tudo"; isto é, a pessoa, porque inteligente, tem que saber tudo e ser habilidosa em tudo o que faz. Posição equivocada que Howard Gardner aprofundou com excepcional mestria, em suas pesquisas e estudos registrados, especialmente, em sua obra Inteligências Múltiplas. Insight que ele transformou em pesquisa cientificamente comprovada, que o alçou à posição de um dos maiores educadores de todos os tempos.
A evolução progressiva de entendimento do que é Dislexia, resultante do trabalho cooperativo de mentes brilhantes que têm se doado em persistentes estudos, tem marcadores claros do progresso que vem sendo conquistado. Durante esse longo período de pesquisas que transcende gerações, o desencontro de opiniões sobre o que é Dislexia redundou em mais de cem nomes para designar essas específicas dificuldades de aprendizado, e em cerca de 40 definições, sem que nenhuma delas tenha sido universalmente aceita. Recentemente, porém, no entrelaçamento de descobertas realizadas por diferentes áreas relacionadas aos campos da Educação e da Saúde, foram surgindo respostas importantes e conclusivas, como:
Que Dislexia tem base neurológica, e que existe uma incidência expressiva de fator genético em suas causas, transmitido por um gene de uma pequena ramificação do cromossomo # 6 que, por ser dominante, torna Dislexia altamente hereditária, o que justifica que se repita nas mesmas famílias;
que o disléxico tem mais desenvolvida área específica de seu hemisfério cerebral lateral-direito do que leitores normais. Condição que, segundo estudiosos, justificaria seus "dons" como expressão significativa desse potencial, que está relacionado à sensibilidade, artes, atletismo, mecânica, visualização em 3 dimensões, criatividade na solução de problemas e habilidades intuitivas;
que, embora existindo disléxicos ganhadores de medalha olímpica em esportes, a maioria deles apresenta imaturidade psicomotora ou conflito em sua dominância e colaboração hemisférica cerebral direita-esquerda. Dentre estes, há um grande exemplo brasileiro que, embora somente com sua autorização pessoal poderíamos declinar o seu nome, ele que é uma de nossas mentes mais brilhantes e criativas no campo da mídia, declarou: "Não sei por que, mas quem me conhece também sabe que não tenho domínio motor que me dê a capacidade de, por exemplo, apertar um simples parafuso";
que, com a conquista científica de uma avaliação mais clara da dinâmica de comando cerebral em Dislexia, pesquisadores da equipe da Dra. Sally Shaywitz, da Yale University, anunciaram, recentemente, uma significativa descoberta neurofisiológica, que justifica ser a falta de consciência fonológica do disléxico, a determinante mais forte da probabilidade de sua falência no aprendizado da leitura;
que o Dr. Breitmeyer descobriu que há dois mecanismos inter-relacionados no ato de ler: o mecanismo de fixação visual e o mecanismo de transição ocular que, mais tarde, foram estudados pelo Dr. William Lovegrove e seus colaboradores, e demonstraram que crianças disléxicas e não-disléxicas não apresentaram diferença na fixação visual ao ler; mas que os disléxicos, porém, encontraram dificuldades significativas em seu mecanismo de transição no correr dos olhos, em seu ato de mudança de foco de uma sílaba à seguinte, fazendo com que a palavra passasse a ser percebida, visualmente, como se estivesse borrada, com traçado carregado e sobreposto. Sensação que dificultava a discriminação visual das letras que formavam a palavra escrita. Como bem figura uma educadora e especialista alemã, "... É como se as palavras dançassem e pulassem diante dos olhos do disléxico".

A dificuldade de conhecimento e de definição do que é Dislexia, faz com que se tenha criado um mundo tão diversificado de informações, que confunde e desinforma. Além do que a mídia, no Brasil, as poucas vezes em que aborda esse grave problema, somente o faz de maneira parcial, quando não de forma inadequada e, mesmo, fora do contexto global das descobertas atuais da Ciência.
Dislexia é causa ainda ignorada de evasão escolar em nosso país, e uma das causas do chamado "analfabetismo funcional" que, por permanecer envolta no desconhecimento, na desinformação ou na informação imprecisa, não é considerada como desencadeante de insucessos no aprendizado.
Hoje, os mais abrangentes e sérios estudos a respeito desse assunto, registram 20% da população americana como disléxica, com a observação adicional: "existem muitos disléxicos não diagnosticados em nosso país". Para sublinhar, de cada 10 alunos em sala de aula, dois são disléxicos, com algum grau significativo de dificuldades. Graus leves, embora importantes, não costumam sequer ser considerados.
Também para realçar a grande importância da posição do disléxico em sala de aula cabe, além de considerar o seríssimo problema da violência infanto-juvenil, citar o lamentável fenômeno do suicídio de crianças que, nos USA, traz o gravíssimo registro de que 40 (quarenta) crianças se suicidam todos os dias, naquele país. E que dificuldades na escola e decepção que eles não gostariam de dar a seus pais estão citadas entre as causas determinantes dessa tragédia.
Ainda é de extrema relevância considerar estudos americanos, que provam ser de 70% a 80% o número de jovens delinqüentes nos USA, que apresentam algum tipo de dificuldades de aprendizado. E que também é comum que crimes violentos sejam praticados por pessoas que têm dificuldades para ler. E quando, na prisão, eles aprendem a ler, seu nível de agressividade diminui consideravelmente.
O Dr. Norman Geschwind, M.D., professor de Neurologia da Harvard Medical School; professor de Psicologia do MIT - Massachussets Institute of Tecnology; diretor da Unidade de Neurologia do Beth Israel Hospital, em Boston, MA, pesquisador lúcido e perseverante que assumiu a direção da pesquisa neurológica em Dislexia, após a morte do pesquisador pioneiro, o Dr. Samuel Orton, afirma que a falta de consenso no entendimento do que é Dislexia, começou a partir da decodificação do termo criado para nomear essas específicas dificuldades de aprendizado; que foi elegido o significado latino dys, como dificuldade; e lexia, como palavra. Mas que é na decodificação do sentido da derivação grega de Dislexia, que está a significação intrínsica do termo: dys, significando imperfeito como disfunção, isto é, uma função anormal ou prejudicada; e lexia que, do grego, dá significação mais ampla ao termo palavra, isto é, como Linguagem em seu sentido abrangente.
Por toda complexidade do que, realmente, é Dislexia; por muita contradição derivada de diferentes focos e ângulos pessoais e profissionais de visão; porque os caminhos de descobertas científicas que trazem respostas sobre essas específicas dificuldades de aprendizado têm sido longos e extremamente laboriosos, necessitando, sempre, de consenso, é imprescindível um olhar humano, lógico e lúcido para o entendimento maior do que é Dislexia.
Dislexia é uma específica dificuldade de aprendizado da Linguagem: em Leitura, Soletração, Escrita, em Linguagem Expressiva ou Receptiva, em Razão e Cálculo Matemáticos, como na Linguagem Corporal e Social. Não tem como causa falta de interesse, de motivação, de esforço ou de vontade, como nada tem a ver com acuidade visual ou auditiva como causa primária. Dificuldades no aprendizado da leitura, em diferentes graus, é característica evidenciada em cerca de 80% dos disléxicos.
Dislexia, antes de qualquer definição, é um jeito de ser e de aprender; reflete a expressão individual de uma mente, muitas vezes arguta e até genial, mas que aprende de maneira diferente...

Disgrafia é uma inabilidade ou atraso no desenvolvimento da Linguagem Escrita, especialmente da escrita cursiva. Escrever com máquina datilográfica ou com o computador pode ser muito mais fácil para o disléxico. Na escrita manual, as letras podem ser mal grafadas, borradas ou incompletas, com tendência à escrita em letra de forma. Os erros ortográficos, inversões de letras, sílabas e números e a falta ou troca de letras e números ficam caracterizados com muita frequência...

http://www.dislexia.com.br/dislex_disgrafia.html

Tem mais coisas interessantes a respeito deste assunto quem quiser dar uma olhada é só visitar o link acima. Para nosso consolo os caras aí abaixo eram completamente disléxicos, que pena, não é o meu caso.



Einstein, da Vinci

e Pablito.
autor: Sexto

Comments:

Domingo, Agosto 14, 2005

http://jech.bmjjournals.com/cgi/content/abstract/59/9/749



Um estudo recente e muito sério feito por pesquisadores britânicos demonstra que, em média, uma em cada 25 pessoas não é filha da pessoa que acredita ser seu pai. Não tive acesso a toda a pesquisa pois é necessário ser assinante do Journal of Epidemiology and Community Health para ter acesso a todo o texto, porém aquele link lá em cima permite que se tenha uma idéia do assunto, caso você não acredite no sexto(de lixo) e queira saber mais.

Feliz dia dos pais!

Sr. Smith era um operário daqueles que cumpre todas suas obrigações, toma um único pint de cerveja na sexta feira após o trabalho no pub da sua vila e volta para casa para ficar com a esposa e as duas filhas. O casamento já havia perdido o calor dos primeiros anos, mas Mr. Smith ainda sonhava em ter um filho varão e umas duas vezes por semana ainda, digamos, se divertia com Margie, sua esposa, até que inacreditavelmente, pois ambos se consideravam velhos demais para serem pais novamente, Margie engravidou. Na verdade, de velho eles não tinham nada e se descuidaram por ter essa idéia fixa na cabeça. A gravidez transcorria tranqüila e Mr. Smith suspendeu até sua ida ao pub nas sextas feiras, porém nesta sexta feira ele resolveu ir ao pub celebrar a vitória do seu time na terceira divisão da liga inglesa. Sentou-se num canto e ficou degustando lentamente seu pint de new castle (excelente cerveja), os outros convivas não perceberam sua presença e Joseph, parceiro de fábrica há tantos anos fez um comentário que marcou para sempre a vida de Mr. Smith.

- "Sal, sabe de uma coisa, temo que o filho que a mulher do Smith está esperando não é dele, pobre homem, depois de tanta dedicação àquela mulher, ela andou deitando-se com John o farmacêutico e ele mesmo desconfia ser pai da criança, mas quem teria coragem de falar algo, nem sei qual seria a reação do Smith".

Smith escutou tudo e continuou acabrunhado em seu canto, Joseph e Sal se foram sem perceber a presença do amigo e o estrago que poderiam ter feito. Mr. Smith terminou sua cerveja e se foi. Na Inglaterra paga-se a cerveja na hora que se pede e não quando se termina de beber, isso significa que se você quiser tomar três terá que pagar três vezes, pode um negócio desses?
Desculpem-me pela interrupção. Enquanto Mr. Smith caminhava para casa encontrou com John o farmacêutico e o cumprimentou como sempre fez e como se nada houvesse escutado, tratou o assunto como deveria ser tratado, gossip. Onde já se viu levantar tamanha calúnia contara minha querida e dedicada Margie.
Os anos entre o nascimento de Brandon e o dia de hoje transcorreram-se tranquilamente, o menino já era quase um homem, 14 de agosto de 1994. Durante esses 14 anos o pai olhara desconfiado para o garoto, mas não deixou que nada transparecesse e não deixaria se não fosse aquele súbito mal estar que Brandon sofreu e teve que ser levado as pressas ao Hospital. Diagnóstico: Crise renal gravíssima. Terapia: Transplante. Mr. Smith não se abalou e com a certeza de que tudo seria resolvido prontificou-se a ser o doador. O médico, antigo conhecido de Smith, pois havia feito o parto de seus três filhos, mencionou que seriam necessários alguns exames para verificar a compatibilidade morfológica, mesmo tratando-se de pai e filho.
Nesta época havia surgido um exame revolucionário que eximia qualquer dúvida quanto à compatibilidade entre doador e receptor. Os exames foram solicitados e uma semana depois Mr. Smith recebe um telefonema do Dr. Brian pedindo que ele comparecesse em seu consultório.
Dr. Brian: - "Smith tenho uma má noticia, você não poderá doar seu rim ao garoto, existe uma incompatibilidade genética que não o permitirá, mas nós ainda temos como salvar o rapaz, pedi mais alguns testes e John o farmacêutico seria o doador perfeito e já se dispôs a fazer a doação".

Mr. Smith:- "Brian, o garoto não é meu filho"?

Dr. Brian:- "Não".

Mr. Smith: "Son of a Bitch"!

Dr. Brian:- "O garoto não tem culpa".

Mr. Smith:- "Você tem razão, vamos fazer o que deve ser feito".

The Red Village Post, 23 de agosto de 1994.

MR. SMITH PRESO POR DUPLO HOMICIDIO QUANDODO BEBIA UM PINT NO PUB LOCAL.


The Red Village Post, 1 de setembro de 1994.

BRANDON O FILHO ILEGITIMO DO ASSASSINO MORRE DE CRISE RENAL POR FALTA DE DOADORES.

Conclusões:

Uma grande descoberta cientifica que salva muitas vidas, pode ser uma tragédia para algumas pessoas.


Pai é quem cria, desde que a cidade toda não saiba.

sexto


O consultório, o Pub, o fofoqueiro e as vitimas
autor: Sexto

Comments:

Quarta-feira, Julho 20, 2005

Dlasfurbio, a verdade, ou coisa que o valha.

Antes de ler essa merda leia o post anterior.

Todo mundo já teve um dejavu na vida, todo mundo já teve a impressão de ter passado pela mesma situação mais de uma vez, às vezes eu acho que a única coisa que não aparece na minha frente em forma de premonição são os números a serem premiados no próximo sorteio da loteca: Eu não preciso de toda aquela grana, tô na boa, mas que não seria mal sonhar com as 6 dezenas isso realmente não seria.
Então, já faz bastante tempo que cismei com esse anagrama (dlasfurbio) e o tornei palavra, com significado e ontologia próprios. Porém, e sempre há um porém, surge essa imundice da nossa política e dois dos bacanas envolvidos remetem-me a minha absurda criação: Daslu e Delubio, dlasfurbio.
Toda minha dialética vem abaixo, como jaca madura, ou seria podre, caindo do galho mais alto, da presidência das jaqueiras.
Foram vinte anos dedicando meu voto a estrela vermelha do partido operário, exatos vinte anos, hoje tenho 38 e emiti meu titulo aos 18, pois naquela época ainda não era possível enganar as crianças com promessas de mudanças.
Não sou filiado ao partido, sempre fui anarquista, mas votava, enganando-me e achando que ainda existiria alguma decência na gestão da coisa pública, nada, até os grandes defensores da decência renderam-se a podridão. O pior de tudo é que eu já sabia desse levantar de mãos submisso e covarde. No primeiro dia de aula eu falei para um professor que defendia um determinado político: "Se a declaração de gastos de campanha dele for inferior a um milhão, ele, ou é pilantra ou é um idiota que não sabe quanto o partido gastou para elege-lo. Qualquer um sabe quanto custa e quanto é declarado e a diferença é uma das grandes pilantragens desse país. Todos, repito, todos eleitos, ou são incompetentes ou são canalhas, pois participam de uma estrutura partidária calhorda e safada. E não tem Suplici nem Jéferson Peres nem Pedro Simon que escape desse fato, ou é canalha ou incompetente, na maioria das vezes ambos.
Quando o dlasfurbio, digo Delubio, falou na CPI, "aqui todo mundo sabe como é feito o caixa de campanha", um monte de incompetentes, ou canalhas, como quiserem, estrilou e ele, bobão, pediu desculpas. Desculpas o cassete, já disse e repito, só tem canalha e incompetente.
Para não nos dar o trabalho de sair na rua para tira-los daí, os senhores tem duas opções, só no Brasil bandido tem opção, ou saem honrosamente como saiu o Getulio, ou façam como fez o Collor, mas, aqui parafraseio um outro canalha: SAIAM DAÍ E LOGO!
A partir do momento que TODOS (não só os do PT) vocês saírem temos duas opções, uma é continuar tocando nossa vida sem essa corja, como fizeram os "brancosos" no ótimo ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ, do Jose Saramargo, ou tentamos reorganizar a política partidária no Brasil, mas sem esses FDPs.
Que Hacer?

Salve a Anarquia!

P.S. Pobre Niemeier que viveu tanto para ver fazerem isso dentro de sua criação!



autor: Sexto

Comments:

Quarta-feira, Julho 06, 2005

Dlasfurbio: Nota explicativa:

Como todos podem ver tenho obsessão por criar algo novo ou inusitado, para não passar a vida desapercebido. Esse é um sonho comum a quase todos os seres humanos, mas quando observamos as vidas das pessoas que conhecemos, mesmo as que seguiram os caminhos mais inusitados, percebemos que não fizeram lá grandes coisas. Podemos tirar dessa imensa lista umas duas ou três exceções, mas são apenas umas ínfimas exceções e incrivelmente, nosso objetivo é ser um deles.

A palavra dlasfurbio é um adjeverbosubstartigo de modo que serve para tudo, e ao mesmo tempo para nada. Ela foi criada desta forma, pois não há nenhuma palavra na língua portuguesa que se inicie com a seqüência de letras DLA, ainda tenho planos para criar outras que iniciem com LRA, mas estas teriam uma pronuncia tão linguidesarticulante que desisti por pura preguiça de verbaliza-las. Esta palavra não é masculina nem feminina e pode ser utilizada em qualquer outra língua que surtirá o mesmo efeito, pode até ser declinada em alemão e embicada em francês, todos a compreenderão e nada mudará.
Incrivelmente existem palavras em nossa língua que se iniciam com DJO, ou DJI, isso porque apesar de nosso egocentrismo, nossa língua é falada em outros países onde ela assume formas, belas por sinal, as quais nós não estamos habituados. Por exemplo: Existem as pessoas do Djibout que são os djibutianos e os djilas que não passam de mascates. Também existe um prato típico a base de hortaliças que se chama Djogó. Típico de onde? São Tomé e Príncipe. Onde se fala predominantemente francês, é preciso ver para crer e a palavra que eu acabei de inventar lá faria amplo sentido e se não fizesse ficariam todos indiferentes.
Onde quero chegar com essa conversa toda ou tola, ao estrelato, quero ser um novo Guimarães Rosa, criador de mundos, histórias e palavras, todos fantásticos em seu realismo. Por isso desenvolverei uma fenomenologia, um sistema epistemológico, uma estética, uma ética e uma moral para tornar o universo dlasfurbico mais profundo e que faça com que grandes pensadores futuros dediquem-se ao dlasfurbinismo, assim como muitos deitaram sua existência sobre a ontologia e metafísica, as monadas Kantianas, ao id e ao ego de Freud e ao existencialismo Sartriano.
A ser continuado!

Segue uma figura que poderá, ou não, vir a constituir o universo fenomenológico dlasfurbico.



Bartek e Maciek e seu Altar feito de LIXO!
autor: Sexto

Comments:

Terça-feira, Junho 21, 2005

O Calendário Inca em homenagem ao meu querido Shainner (Grande Palmeirense)!

Antes de mais nada umas linhas de minha infindável rabugenzice. Apesar de escrever mal e desconhecer as regras gramaticais de minha mátria língua, vamos aos comentários:

Meu querido Shainner deu uma de gaúcho e escreveu em seu comentário "fazem sete dias...."Shainner o correto é "faz sete dias" pode ser um milhão de dias que o verbo permanece no singular porque o sujeito blá blá blá, mas o correto é FAZ!

Minha amada, adorada, desejada e idolatrada Carol escreveu em seu comentário: "É verdade!!! Eu também as vi em um boteco assistindo o jogo... hahahaha..."

Como elas estavam no boteco e estavam, pois eu também as vi, elas não poderiam estar assistindo O jogo, pois para assistirem o jogo teriam que estar NO estádio, sendo arbitras, gandulas ou massagistas, visto que quando o verbo assistir é transitivo direto ele tem o significado de dar assistência, portanto, amada, adorada, desejada e idolatrada mulher o correto seria escrever: "eu as vi assistindo AO jogo. E ai sim elas estariam dando uma olhadela na peleja de ludopédio.

Desculpem-me pela rabugenzice (eu sei que essa palavra não existe, dá para deixarem de ser chatos), mas vamos ao calendário Inca.

Os Incas que na verdade chamavam-se Quichuas, pois Inca era um título concedido apenas a família real, habitavam a região que hoje corresponde ao Peru na América pré-colombiana. E, diferente de nós, apesar de serem um povo tecnologicamente muito desenvolvidos, não tinham escrita e portanto não cometiam erros gramaticais.

Através de um observatório que se localizava na antiga capital, Cuzco, faziam medições astronômicas muito precisas e a partir delas constituíam seus calendários. Esta construção possuia dezesseis torres, oito voltadas para o nascente e outras oito voltadas para o poente. Pelos resultados da observação das sombras de solstício e das sombras equinociais, os Amautas (eruditos conhecedores das ciências da época) efetuavam os cálculos necessários para a construção dos calendários.

Esse povo foi dizimado pelos espanhóis liderados por Pizarro e a partir de então a capital passou a ser Lima.

Como meu tempo está esgotado quem quiser ter a mínima noção de como funcionava o calendário, na rede tem vário sítios que explicam muito melhor que eu. Quem se chocar com o vocábulo epagomeno durante suas pesquisas segue o significado:

-que se acrescenta a um calendário (diz-se de cada um dos dias)
- entre os gregos antigos, diz-se de cada um dos dias ou meses intercalares que igualavam o ano civil ao solar.
- entre os antigos egípcios, diz-se de cada um dos cinco dias adicionados ao ano civil, que compreendia 12 meses de 30 dias.

P.S. Os Incas já entendiam a necessidade de haver anos bissextos!

P.S. 2 já escrevi sobre o tempo aqui antes, e ele está passando cada vez mais rápido: Chamem o Ivo Pitangui e o Viagara.

P.S. 3 Pasquale é a PQP!

Abraços


Um belo modelo de relógio.
autor: Sexto

Comments:

Sexta-feira, Junho 10, 2005

Este texto reproduz infielmente diálogos internéticos entre os nem tão famosos detetives Mordoch (clube) Holms e Hercule Panfilê captados e capturados por hakers alcoolatras. Trata-se de uma peça anteriormente psicografada por Charles Bukowski, reproduzida no Ideário do Delírio Cotidiano e replagiada por Fritz (Doubert). Deleitem-se.

Alerta Geral...

É muito importante ... a cidade de São Paulo está alerta ... "Põe na tela
pra mim o retrato falado delas" !!!... (Tá lá no fim)!

Testemunhas afirmam que viram neste último domingo duas das obras do grande pintor colombiano Fernando Botero transitando tranqüilamente pela Av.
Paulista, acredita-se que elas tenham escapado do MASP em um descuido da
segurança do museu, segundo o delegado da 45º Delegacia de Polícia, Dr.
Amnésio Dantas, que não se lembra direito dos fatos, as duas obras aproveitaram o horário do jogo Brasil e Paraguai e fugiram, "estamos trabalhando com a hipótese de que houve ajuda interna" afirma Dantas, uma vez que não houve registros do sistema de câmeras internas do museu na hora da fuga, as fitas já se encontram em poder da justiça para a perícia, esta semana serão chamados para depor todos os funcionários do museu e principalmente as cinco testemunhas que são peças chave deste mistério, mas também não se lembram bem do ocorrido devido ao consumo excessivo de cervejas. Segundo o que foi apurado até o momento as duas obras estavam sentadas tranquilamente no bar Opção, que fica atrás do MASP, assistindo ao jogo, ao que tudo indica elas torciam para o Paraguai.
"Provavelmente a falta de cultura aliada à concentração no jogo impediu que
as pessoas reconhecem as duas obras" afirma o presidente do MASP, o
arquiteto Julio Neves Derretido, "nossa grande preocupação é que isso de inicio a uma grande insurreição das obras", pois além das Boteranas, como já estão sendo chamadas, "tenhamos agora as Van Gohianas, Monetianas e Tarsilanas ... " diz o presidente inconformado, ainda não se tem informação se as duas obras são pinturas ou esculturas de beleza nada esculturais para os padrões femininos contemporâneos, "o que todos nós, paulistanos queremos é que elas retornem imediatamente ao museu, pois aqui é o lugar delas e não nas ruas" afirma o secretário da Cultura Carlos Augusto Calil Pinto preocupado com a integridade das obras e temendo que algum ensandecido tarado por mulheres gordas as raptem. Uma das testemunhas, que não quer ser identificada, diz que foi seguido pelas obras e que posteriormente as viu comendo uns cachorros quentes enquanto conversavam tranquilamente.

Mordoch Holmes,

Na realidade após devorar 3 ou 4 cachorros quentes com duas salsichas cada pelo módico preço de R$ 0,75, as Boteranas evadiram-se em direção a Rua Direita com o objetivo de degustar um churrasco grego. Mas este desaparecimento não é o pior, pior memso é o Abapuru da Tarsila do Amaral que mudou de cor, ficou vermelho de vergonha após a derrota da canarinho para a celeste e tenta disfarçar sua existência na entrada da Galeria Malba em Buenos Aires, onde todos os transeuntes fazem questão de tirar muito sarro dele, além de afirmar com todas as letras que jamais voltará a fazer parceria com as Boteranas torcendo em favor da vergonhosa canarinho e que vai dar um rolê pela Recoleta, tomar umas Quilmes para refrescar e ver se volta a sua cor original.

O Abapuru manda lembranças as Boteranas e diz que Buenos Aires é o máximo para passear ao ar livre!

Hercule Panfilê



O Abapuru antes de mudar de cor!



Uma das maravilhosas Boteranas perdidas!
autor: Sexto

Comments:

Quinta-feira, Março 17, 2005

O aborto e o B.O.

Uma moça aparentando 23 anos, gostosinha na visão do policial de plantão no 137º D.P., entra na delegacia com uma aparência que misturava receio e medo.

Policial de plantão (Investigador Onofre): - Posso ajudar a senhorita. Que gostosinha, comenta baixinho ( O escrivão Carlos imediatamente cresce os olhos para a bunda da moça).

Moça (Osminda), realmente bem gostosinha, pensou o escrivão Carlos.Com uma voz meiguissima, quase delicada ela diz: - Investigador Onofre, preciso fazer um B.O., mas pode ser em uma sala fechada, estou tÂaaaaaaaaaaaaaaaao envergonhada.

Onofre encaminha a gostosinha, digo a moça, para a sala do escrivão, põe ela estrategicamente sentada para poder apreciar as suas coxas e diz: - Vamos precisar do seu RG. Enquanto Carlos digita os dados da moça num computador XT de primeira geração, tela verde e teclado acoplado, Onofre inicia as perguntas:

- O que houve exatamente que te deixa tão constrangida?

Osminda:- É que eu fui estuprada.

Nesse momento cai uma lágrima dos olhinhos meigos de Osminda.

Carlão (o escrivão): - Qual seu endereço?

Osminda: - Rua braço do trombudo 57, jd maracutaiama, santo amaro.

Onofre: - E quando foi o ocorrido?

Osminda: - Faz 20 dias, foi numa noite de sábado eu já tava quase em casa...

Onofre interrompe a moça abruptamente: - E PORQUE NÃO VEIO AQUI NA HORA?

Osminda: - Fiquei com vergonha!

Onofre:- E porque resolveu vir agora?

Carlão não para de digitar aquelas baboseiras no jargão policial.

Osminda soluçando: - É que faz uma semana que não desce e eu fiz o tes...

Onofre interrompe novamente: - PORRA! DEPOIS QUE INVENTARAM ESSA NOVA LEI, 3 VEZES AO DIA APARECE UMA AQUI COM HISTÓRIA TRISTE...

Osminda, ainda soluçando: - Mas é verdade investigador Onofre.

Ela assoa o nariz na manga do vestidinho de moça simples.

Onofre: - E ele não te bateu, tava armado?

Osminda: - ele me pegou a força, era um negão enorme!

Onofre: - Tá vendo Carlão é sempre Negão enorme, porra não tem um FDP de um branco estuprador?

Onofre era um puta de um negão!

Onofre: - Carlão vai terminando o B.O. que eu vou chamar o investigador Mifume para fazer o retrato falado do tal do Negão. Toca a sociedade pagar mais um aborto.

Onofre tinha um senso de civismo impressionante. Zelava pelo bem público como nenhum outro servidor.

Mifume: - Dona Osminda, que gostosinha ele pensa, diz ai uma característica do rosto dele que te chamou a atenção!

Osminda: - Ele tinha lábios grossos era forte...

Mifume desenhando:- Sei, e mais o que? Que idade a senhorita acha que ele tem?

Osminda: - Acho que tinha uns 50 e poucos mas aparentava menos, era do tipo forte, atlético.

Onofre observa e pensa,:"Acho que já vi essa perversa na Aurora!"

Mifume ainda desenhando: - E mais o que?

Osminda: - Tinha um topete meio esquisito e uma voz estranha, meio fanho.

Mifume:- Já viu por voz em desenho dona? Fala mais alguma coisa pra eu terminar isso aqui!

Osminda: - Não sei, não sei. Osminda se esvai em lágrimas.

Carlão pensa alto: "Lágrimas de crocodilo."

Mifume mostra o esboço para Osminda que esboça um desmaio e grita: - É ele, É ele!

Onofre radiante: - eu disse que conhecia esta perversa!!!!!!!!

Aqui segue o esboço feito por Mifume:



Deixo claro que sou afavor do aborto em qualquer circuntância desde que seja vontade da mulher.
autor: Sexto

Comments:

Quinta-feira, Fevereiro 24, 2005

Morreu há uns dias atrás o escritor Guillermo Cabrera Infante, já falei dele aqui e gostava muito do seu trabalho. Ele vivia na Europa por discordar do Regime do Fidel, apesar de ter apoiado a revolução. Fiquei pensando como podemos gostar de duas pessoas que divergem em suas opiniões. Já havia mencionado minha admiração pelo Cabrera Infante e pelo Che, um que combatia e outro que defendia o castrismo, mas ambos o faziam com qualidade. Vai ver que é esse o motivo, mas isso pouco importa, na verdade nada importa. Leiam:

Uma história do conto, Guillermo Cabrera Infante.

O conto é tão antigo quanto o homem. Talvez até mais, pois podem muito bem ter existido primatas ancestrais que contavam contos feitos inteiramente de grunhidos, que são a origem da linguagem humana: um grunhido, bom; dois grunhidos, melhor; três grunhidos já são uma frase. Assim nasceu a onomatopéia e com ela a epopéia. Mas antes desta, cantada ou escrita, houve contos feitos inteiramente de prosa: um conto em verso não é um conto, mas outra coisa: um poema, uma ode, uma narração com métrica e talvez com rima: uma ocasião cantada, não contada, uma canção.

Antes até que aquele anônimo artista de Altamira pintasse seus minuciosos murais, deve ter existido um autor anônimo na região que contasse contos para seus companheiros de caverna sentados em volta de uma fogueira. O homem, como sabemos, é o único animal que faz fogo. O contista é o único ser humano que faz contos. Esses contos seriam, por exemplo, narrações de um dia de caça perdido no encalço de um cervo branco com um chifre na testa. Os contos não perduraram nas paredes da caverna, mas não se perderam: foram reencontrados, contados, na memória coletiva.

Séculos mais tarde, outro contista pegou o mesmo conto, embelezou o cervo branco e o converteu em mito ao chamá-lo unicórnio. Embora a experiência fosse alheia, tomou e fez seu o tema do unicórnio perdido. Muitos séculos mais tarde, outro contista enfeitou com metáforas (isto é, embelezou poeticamente) esse animal único com seu único chifre. Passados outros tantos séculos, o homem que conta já havia aprendido a escrever (e, é claro, a ler), e outros animais e outros homens que se transformavam em animais povoaram com contos o que chamamos mitologia, mas que para eles era essa transcendência chamada religião.

Em outro século, quando outros homens já não acreditavam nessa religião de deuses tão humanos que se confundiam com os simples mortais, um deles, um poeta chamado Ovídio, escreveu As Metamorfoses. De religião, esses textos não tinham mais do que aqueles primeiros contos contados em volta de uma fogueira numa caverna. Isso fez do conto o gênero literário mais antigo e mais protéico.

Protéico, como se sabe, vem de Proteus, deus grego que estréia na cena olímpica com a "Odisséia", poema feito de contos. Proteus sabia tudo de tudo, mas mudava de forma para não ser interrogado. Isto é, fazia o contrário de um autor atual, que nunca muda de forma, mas procura sempre ser interrogado: pela imprensa, pelo rádio e pela televisão - e, às vezes, pela polícia. Creio desnecessário frisar que Proteus era uma metamorfose feita deus. Proteus está muito perto de prosa, que é o que os contistas cultivam. Protéico, prosaico - dá na mesma.

Os gregos, além de Homero e sua Odisséia, cultivavam o conto, e um romancezinho, que é o que é Dafne e Cloé, publicado no segundo ano da nossa era, foi seu provável precursor.

Mas são contos os fragmentos que fazem do Satyricon, de Petrônio, um romance, e um de seus mais memoráveis é aquele intitulado "A Viúva de Éfeso", um conto perfeito e muitas vezes citado, copiado até. Entre outros por Jean Cocteau, poeta tão teatral que transformou o conto em peça, ganhando-o para o teatro.

O conto, logo protéico, parece desaparecer na Idade Média, mas na verdade se veste com os versos do romance, seja nos "romans courtois", onde aparece como história de aventuras, seja no "Roman de Renart", em que serve a um fabulário, não longe do zoológico de Esopo. Na saga arturiana (que não se deve confundir com a sopa asturiana, conto de favas), o romance adquire um tom mágico, quase místico, que lhe é exclusivo. Mas a história paralela do amor fatal de Tristão pela bela Isolda é, como quer Bédier, um conto de amor, de loucura e de morte cuja aura mágica não fica nada a dever aos modelos gregos e romanos.

Mas o conto, sempre recomeçado, reaparece onde menos esperariam os trovadores medievais: no Oriente.

Os árabes, entre o harém e a areia

As Mil e Uma Noites é a mais monumental compilação de contos do final da Idade Média. Esses contos são a mais traduzida (e conhecida) literatura árabe depois do Corão. Suas histórias ("Ali Babá e os 40 Ladrões", "Aladim e a Lâmpada Maravilhosa" e "Simbá, o Marujo") são hoje tão populares como quando foram traduzidas aos diversos idiomas europeus. Sua influência é perceptível desde Boccaccio e Chaucer. Mas, já antes deles, um extraordinário escritor espanhol, o infante d. Juan Manuel, incluiu em seu "Libro de los Enxiemplos" mais de um conto árabe extraído de "As Mil e Uma Noites", então reconvertidas em tradição oral.

Ao contrário do que acontece com os contos contemporâneos na Europa, As Mil e Uma Noites têm mil e um autores, e a esperta princesa Sherazade é um autor coletivo que conta com voz de mulher. São, em todo caso, contos de encanto, e até seu título em árabe é encantador, encantatório: "Alf Layla wa Layla". Dessa vasta coleção de contos rastreou-se a origem até o século 9º d.C. Sua última forma é do século 16. Isso quer dizer que, com seu feitiço oriental, o livro cobre quase toda a Idade Média cristã - embora diga, no início de cada conto: "... mas Allah é mais poderoso". Em seguida vem uma espécie desconhecida de poesia que as infiéis e cruentas traduções não conseguiram aniquilar. Sherazade é a mais poderosa máquina de matar o tédio e a crueldade do rei que sempre assassinava a consorte de cada noite, à exceção da contista, uma mulher amena, apesar de ameaçada.

Chaucer repetiu o esquema em seus Contos de Canterbury, mas em verso. Quem o conseguiu em prosa foi Boccaccio, em seu imitado, inimitável Decameron. É curioso que Cervantes, um artista supremo, tenha buscado inspiração nos contos italianos e não nos exemplos do infante d. Juan Manuel, que, diga-se de passagem, deu a Shakespeare seu "Relato de Mancebo que Casó con Mujer Brava". Acontece que Boccaccio é um contista natural, tal como a contadora de histórias árabe. Cervantes, que inaugurou o romance moderno, o mais imitado, chamou o Quixote de livro e de "novelas exemplares" seus contos, declarando que "de modo algum poderás fazer", leitor, "mistifório". Mas revelou seu ofício e arte: "Meu intento foi armar (...) uma mesa de carambolas". E acrescentou: "Onde cada qual encontre com o que se entreter".

Um escritor cairota, Naguib Mahfuz, em suas Noites das Mil e Uma Noites, que o editor cataloga como romance (os editores são capazes de chamar de romance a lista telefônica, que pode não ter narração, mas tem uma porção de personagens), esse escritor consciente, demasiado consciente, tenta se tornar uma Sherazade assídua. Mas fracassa em seu intento. O livro quer ser árabe e é apenas egípcio.

Por outro lado, Los Cuentos Negros de Cuba são minhas mil e uma noites negras, contadas por uma Sherazade branca, Lydia Cabrera, para entreter as noites em claro de uma amiga agonizante. No final do livro, a doente já estava morta, mas os contos vivem na imortalidade da literatura. Eu os classifiquei, qualifiquei, como "antropoesia".

A trama tecida noite após noite por Sherazade, Penélope contista com milhares de pretendentes, levou muitos escritores - desde d. Juan Manuel, Boccaccio e Chaucer - a tentar uma imitação em que diversos talentos buscam emular o encantamento árabe. Poucos o conseguiram, mas um escritor nosso contemporâneo, Manuel Puig, em seu O Beijo da Mulher Aranha, é uma Sherazade argentina que a cada noite conta um filme inventado para seu companheiro de cela, seu vizir cruel: completamente surdo às dádivas orais que lhe oferece Puigrazade - assim como é cego a suas investidas sexuais.

Edgar Allan Poe inventou com três contos - "Os Crimes da Rua Morgue", "O Mistério de Marie Roget" e "A Carta Roubada" -, ele sozinho, a literatura policial, que são o conto e o romance de mistério. Todos os cultivadores do gênero recém-criado foram seus epígonos, de Arthur Conan Doyle, criador do insólito Sherlock Holmes, a Dashiell Hammett e Raymond Chandler, romancistas que foram também contistas e, de passagem, renovaram o gênero. Uma epígona (se alguém disse "jóvenas", eu posso muito bem dizer "epígona"), Agatha Christie, disse: "O conto é o domínio natural da literatura de crime e mistério".

Muitos contistas, quase todos anglo-saxões, fizeram do conto seu habitat, que era como uma casa mal-assombrada. Todos seguiram o ditame de Poe, que disse que o conto "é uma narração curta em prosa" e definiu o conto breve como uma peça literária que "requer de meia hora a uma hora e meia ou duas de leitura". Eis aí um importante modo de usar, "com cuidado". Mas há - ah! - leitores descuidados. Para estes, a melhor maneira de ler é no avião - e um best-seller ou livro que se compra porque se vende.

Os herdeiros de Mark Twain são tão numerosos quanto os seguidores de Poe, mas os primeiros, que chamaremos aqui humoristas, atentaram apenas para o lado luminoso da lua de Twain -sem enxergar suas regiões de sombra e de penumbra. O mais bem-sucedido deles foi Damon Runyon, com suas historietas em que o submundo de Nova York aparecia povoado de gângsteres sentimentais, jogadores sementais e uma porção de mulheres de moralidade duvidosa e um (pouco) siso legível como sexo. O cinema e o teatro, onde ninguém lê, criaram um Runyon ilustrado para iletrados. Runyon, que fazia rir, ia ao banco sempre rindo.

Não foram só os contistas com humor que tiveram sucesso popular. A partir do século 19, houve também quem cultivasse - e fosse popular por algum tempo - essa estranha e elusiva planta chamada "conto fantástico". Na Inglaterra, onde se desperdiçara a tradição realista iniciada por Chaucer, houve muitos autores de fantasias cujo objetivo não era induzir o sonho, e sim o pesadelo. Lembro, entre outros, Arthur Machen, Saki e Roald Dahl.

Na Irlanda, terra de luzidas lendas nada lúcidas, Sheridan le Fanu foi um contista de mistério e terror cuja coleção In a Glass Darkly (em Dublin, cidade alcoólica, tomam o espelho, "glass", como copo, e o livro se chama "Em um Copo Escuro") é um dos clássicos do conto de terror como horror. Sua contrapartida foi mais tarde o norte-americano H.P. Lovecraft, um precursor da ficção científica, gênero praticamente inventado por H.G. Wells na Inglaterra. A ficção científica encontrou no conto sua forma perfeita para uma arte imperfeita. Vale registrar que todos os mestres do conto de horror anglo-saxão têm, também eles, em Poe seu antecessor primordial.

É preciso abrir aqui um parágrafo para Rudyard Kipling, talvez o maior contista inglês de todos os tempos. Kipling não fica nada a dever a Poe ou a Mark Twain, e é para a Inglaterra o que Maupassant foi para a França e Tchecov para a Rússia: um contista natural. Começou publicando em jornais indianos e, quando afinal foi a Londres, então o centro do universo literário, tinha apenas 20 anos (Kipling é quase nosso contemporâneo, morreu em 1936). Deixara para trás a Índia, embora fosse justamente seu lado muçulmano, mais do que o hindu, o que mais lhe interessava no subcontinente.

Kipling cultivou todas as modalidades do conto, do monólogo à conversa, sendo alguns de seus contos feitos inteiramente de digressões, como queria Sterne, mas também de invenções memoráveis. E muito antes que Conrad ou Somerset Maugham descobrissem o mundo exótico do Oriente. Com a diferença de que, para Kipling, nascido em Bombaim, aquilo era a vida vivida e vívida.

A França não teve um Chaucer, mas teve um mestre do conto no século 18, tardio, mas nada lerdo em sua arte da ironia, exercida com uma inteligência incomum. Refiro-me a Voltaire, cuja obra-prima, Cândido, não é um romance, e sim uma fábula com uma moral em cada página. Os franceses tiveram de esperar todo o século 19 para que, afinal, surgisse um dos maiores contistas de todos os tempos, Guy de Maupassant, assombroso autor de sucessivas obras-primas do gênero. Maupassant teve Gustave Flaubert como mestre e Émile Zola como mentor. Mas nenhum dos dois, embora tanto Flaubert como Zola tenham escrito contos memoráveis, conseguiu superar o discípulo nascido para o conto. Sua influência foi enorme em toda parte e teve seguidores (se não verdadeiros plagiários) na Inglaterra, nos EUA e na Rússia.

É na Rússia que Maupassant encontrará um rival extraordinário, Anton Tchecov, que começou contando anedotas e piadas na imprensa e acabou transpondo seus principais contos para o teatro, com uma arte inesperada. Tchecov, que podia reivindicar para si Nicolai Gogol (autor de "O Nariz" e "O Capote", entre outros contos), era um admirador de Tolstói, que escreveu contos como relatórios de guerra e foi contemporâneo de outro mestre cultivador da forma breve, Ivan Turgueniev. Mas a influência maior no autor de "A Dama do Cachorrinho" e "A Cigarra" é, evidentemente, Maupassant. De Tchecov derivam Górki e todos os contistas russos do início do século 20, que pareciam brotar da terra russa - até que chegou Stálin e, com seu cultivo forçado do realismo socialista, transformou a fértil literatura russa num deserto com tratores.

Outro seguidor de Tchecov foi, na Inglaterra, Somerset Maugham, mestre do conto inglês e mundial. Foi, ainda é, um autor com uma popularidade que se estendeu aos palcos e às telas: várias obras-primas do cinema, como "A Carta" (do diretor William Wyler, de 1940), se baseiam em seus contos. Maugham, em seus contos exóticos, foi influenciado pelas narrações dos "mares do sul" de Conrad e, por sua vez, teve influência sobre outros contistas, evidente sobretudo nos contos urbanos de John Cheever e John Updike, típicos produtos da revista "The New Yorker".

Se James Joyce tivesse morrido logo depois de publicar Dublinenses, ainda assim seria considerado um escritor notável e um grande contista. Traduzir é reescrever. Traduzindo Dublinenses, tive a oportunidade de encontrar os "tricks" e tiques de Joyce mas também seus magistrais contos originais e sombrios e sua escritura cômica.

"The Dead" (que traduzi como "El Muerto") é uma obra-prima dolorosa e um dos grandes contos escritos em inglês, quase um romance, por seus personagens inesquecíveis e sua extensão. "The Dead" não é um precursor do Ulisses, e sim uma peça acabada em si mesma, de uma prosa milagrosamente extraordinária.

Não se poderia deixar de falar de um dos escritores mais originais do século 20, Franz Kafka, inventor da fábula com moral teológica, ou seja, metafísica. Sua influência se faz sentir em muitos escritores judeus, como Isaac Bashevis Singer, ou genuinamente gentílicos como Milan Kundera, que o reclama para a literatura tcheca, embora Kafka tenha escrito em alemão e pertença à cultura talmúdica. Felizmente para nós, que não somos nem tchecos nem judeus nem alemães, Kafka pode ser lido com verdadeiro deleite literário.

Um epígono de Kafka, judeu como Kafka, apareceu não na Tchecoslováquia, mas na Polônia: Bruno Schulz, contista. Seu "Lojas de Canela" é de uma originalidade delicada: uma visão da vida judia numa cidadezinha da Polônia que oscila entre a magia e um doce realismo. Schulz, não podemos esquecer, foi assassinado por um tenente da SS nazista, castigo tremendo apenas por estar parado numa esquina sem fazer nada. Ao contrário de Kafka, nunca nem sequer sonhou seu final. É que o totalitarismo é sempre inimigo da literatura.

Hemingway e Tarantino

O conto americano do século 20 nada deve a Maupassant, mas sim a Tchecov. Seu renascimento lembra mais Twain do que Poe e começou, como ocorrera com Twain, com uma literatura regional que pulava as fronteiras do Meio-Oeste para chegar a Nova York e daí ao mundo. Seu pioneiro se chamava Sherwood Anderson, patrocinador de William Faulkner e modelo de Ernest Hemingway. Seu livro Winesburg, Ohio (conhecido na América do Sul e em Cuba como Las Novelas de lo Grotesco, embora não sejam romances, e sim contos, e essa história de grotesco seja gratuita, mas não deixa de ser um título com gancho) continha uma nova visão do mundo adolescente num lugarejo de Ohio, e sua linguagem, coisa bem importante, era entre ingênua e sábia.

Faulkner, que graças a Anderson publicou seu primeiro romance, é famoso como romancista, ou melhor, como um poeta falastrão, mas escreveu meia dúzia de contos memoráveis. Hemingway, por sua vez, é mais contista do que romancista: um artista que renovou a prosa moderna americana com seus diálogos sofisticados para conversar com primitivos, que são de uma mestria ainda atual. Seu conto "Os Assassinos", em que apenas com o diálogo se oferece uma amostra do mal sob a forma de uma conversa aparentemente casual, revela uma violência latente que nunca se faz patente.

Desse breve conto partiu a renovação do romance policial com Hammett e Chandler, que escreveram primeiro contos de mentira e de morte. Um filme recente, "Pulp Fiction", de Quentin Tarantino, com seus diálogos recorrentes, intermináveis e perigosos, não teria lugar se antes não tivesse existido "The Killers". Seu título mesmo, direto e brutal, serviu ao cinema desde que este começou a falar: diálogos ditos com o canto da boca, que é como se lêem, sem mexer os lábios, as conversas de Hemingway.

Dos grandes escritores americanos dos anos 20, Scott Fitzgerald é o único que frequentou a universidade, mas nunca chegou a se formar. Todos, portanto, foram autodidatas. Alguns, como John Steinbeck e William Faulkner, exerceram as mais variadas atividades, quase sempre manuais. Ernest Hemingway se dedicou ao jornalismo -que é quase um trabalho manual. O único instrumento que se tem de aprender a utilizar é a máquina de escrever, e Hemingway sempre foi um mau datilógrafo. Todos eles eram contistas respeitáveis, mas, à exceção de Hemingway, o cultivo do romance ocultou essa qualidade.

O exemplo mais evidente é o de Fitzgerald. Todos vocês já leram ou sabem que se deve ler O Grande Gatsby, festejado pela crítica, favorecido pelo cinema em produções coloridas e em preto-e-branco, com Alan Ladd, o perdedor nato, e com Robert Redford, numa versão chocha de Alan Ladd. Alguns conhecem seu conto "O Diamante do Tamanho do Ritz", mas poucos sabem que faz parte de seu livro Contos da Era do Jazz, e ninguém sabe nada de suas coletâneas All the Sad Young Men e Taps at Reveille. Depois de sua morte, foram publicados dois volumes de contos, Afternoon of an Author e The Pat Hobby Stories, uma compilação surpreendentemente leve para um tema dolorosamente autobiográfico: as aventuras e desventuras de um escritor de aluguel em Hollywood, onde o autor morreu.

Faulkner, como Fitzgerald, também foi alcoólatra e, como Fitzgerald, também foi a Hollywood e serviu como tarefeiro de ouro (ou dourado), especialmente para o diretor Howard Hawks. Mais esperto ou mais duro de domar, Faulkner ia a Hollywood, mas, assim que recebia seu dinheiro, voltava correndo para Oxford. Não a universidade inglesa, mas o pobre povoado do Mississippi onde ele nasceu e morreu, no mais profundo e racista Sul. Ao contrário de Fitzgerald e Hemingway, Faulkner era um reacionário público e um liberal privado. Dessas tensões são feitos não apenas seus romances mas os muitos contos que ele escreveu.

Alguns de seus romances, como Palmeiras Selvagens, cujo belo título acaba de ser surrupiado e estropiado pelo diretor Oliver Stone, e Desça, Moisés, são feitos de contos mais ou menos longos, entre os quais algumas obras-primas como "O Urso". Outras de suas narrações breves, como "A Rose for Emily" e "Barn Burning", constam de todas as antologias e integraram a seleção feita pelo próprio Faulkner em suas Selected Stories. William Faulkner chegou a publicar um livro de contos detetivescos. Chama-se Knight's Gambit, e seu fio condutor é uma atividade que ninguém associaria ao narrador de "Enquanto Agonizo" e "O Som e a Fúria": o xadrez.
Continua no próximo post!


autor: Sexto

Comments:

Steinbeck e John Ford

Tão contraditório quanto Faulkner foi John Steinbeck: primeiro, comunista; depois, liberal e, mais tarde, um dos defensores mais ferrenhos do presidente Johnson e da Guerra de Vietnã. Além de seus grandes êxitos novelísticos, como Vinhas da Ira (conhecido na Espanha por um título menos bíblico e mais vitícola, Las Uvas del Rencor), que é, apesar da opinião de certos críticos americanos como Mary McCarthy, uma obra-prima popularizada em todo o mundo por John Ford, Steinbeck escreveu e publicou muitos contos, e seu segundo livro, Pastagens do Céu, é uma coleção de contos. Seu conto "O Cavalinho Vermelho" é uma pequena obra-prima, e seus contos longos, como "Ratos e Homens" e "A Pérola", são obras-primas desse gênero, a novela, que parece ter sido inventado pelos escritores americanos, de Henry James, com A Volta do Parafuso, a Hemingway, com O Velho e o Mar.


Mas vim aqui falar do conto. Toda intromissão de outros gêneros deve ser considerada uma digressão. E a digressão nunca deve ser considerada uma agressão. Como diz Laurence Sterne, é o sol que brilha sobre a conversa. Também, diriam vocês, sobre meu monólogo. Outro escritor contemporâneo desses autores artistas foi um jornalista que era um contista nato: o risonho e frágil Ring Lardner, que influenciou todos os mestres do humor americano que o sucederam. Lardner, embarcado numa missão impossível - criar o conto de humor absurdo -, se autodestruiu com o álcool.

Outro escritor agora esquecido, Erskine Caldwell, que já foi considerado o melhor contista do Sul selvagem, sabia mesclar o drama rural com uma sexualidade que, na época, era franca e atrevida, mas divertida. Agora, perto do que se vê no cinema, seus contos parecem se passar num convento de freiras que fumam.

Lardner, contudo, teve colegas de mérito, como James Thurber, Robert Benchley e Dorothy Parker, que apostavam tudo no humor.

Ao mesmo tempo, outros de seus colegas da revista "New Yorker" fiavam, mas não confiavam no esquivo amor - que muitas vezes se escrevia ódio; outras, tédio. Talvez o maior mestre entre eles tenha sido John O'Hara, que fez dos diálogos aprendidos de Hemingway uma espécie de sábia sarabanda em que tudo se fiava à conversa, para revelar, mas muitas vezes ocultar, os conversantes, conversos de uma religião atéia.

Desde então não houve nenhum contista americano tão influente e tão lido - se excluirmos Raymond Carver. Ambos, O'Hara e Carver, são, à sua maneira, epígonos de Hemingway. Há outro grande contista contemporâneo que não vem da tradição americana, que não é americano, mas cria sua própria tradição na América, embora sua arte singular não tenha seguidores. Além de seus grandes romances, escreveu contos perfeitos que, curiosamente, foram quase todos publicados pela primeira vez na revista "New Yorker". Seu nome, claro, é Vladimir Nabokov. Acabaram de sair seus contos completos, e entre eles há pelo menos meia dúzia de obras-primas do gênero.

Se Os Contos de Canterbury não tiveram continuadores (a não ser, é claro, no uso do inglês: Chaucer tem na literatura inglesa o mesmo papel crucial que Dante na italiana), é talvez porque os ingleses do século 16 e 17 não sabiam ler, embora soubessem, sim, ouvir e apreciar a música das palavras, que vinha de poetas dramáticos como Marlowe e Shakespeare e Ben Jonson. Todos, sobretudo Jonson e Shakespeare, grandes contistas. Algo parecido ocorreu na Espanha, onde se preferiu o romance picaresco e a comédia ao conto.

O conto espanhol da América

Cervantes, ninguém duvida disso, é um grande contista, tanto em suas Novelas Exemplares como em seus entremezes e em muitos dos contos que retardam com passos certos os incertos passos do cavaleiro, ginete louco, e seu demasiadamente sensato escudeiro que segue a seu lado num burro. Todos sabemos que os séculos 18 e 19 fizeram da Espanha uma terra baldia literária e que o grande conto espanhol que percorrerá o mundo em palcos e cinemas foi escrito por um francês. Estou falando de Carmen, cujo autor, Prosper Mérimée, situou a ação na Andaluzia, mas o escreveu em Paris.

Assim como ocorreu nos EUA com o conto escrito em inglês, o conto escrito em espanhol será escrito na América. Um crítico peruano chamou a América (referia-se antes à América hispânica) de "romance sem romancistas". Estava enganado, é claro, mas não teria errado se tivesse chamado as Américas de continente que contém contos. Pelo menos, se o título não é exato, ele poderia ter tirado algum proveito de minha aliteração.

Thomas Colchie, tradutor norte-americano, conseguiu organizar uma antologia intitulada A Hammock Beneath the Mangoes (Uma Rede sob as Mangueiras ou sob as mangas), o que mais parece a descrição do sutiã de, digamos, Sarita Montiel.

Mas é uma excelente coletânea de contos breves sul-americanos. Não poderia, no entanto, ter feito uma antologia similar de contos espanhóis chamada, digamos, Os Dotes de Rocío Jurado.

Por quê? Simplesmente porque haveria peitos a conter, mas não contos a contar. Toda regra tem uma exceção lutando por vir à tona, e deve-se dizer que uma recente coletânea de contos de Javier Marías, Cuando Fui Mortal, que contém contos não imorais, mas sim imortais, poderia continuar a tradição inaugurada por d. Juan Manuel, que foi neto e sobrinho de reis, adiantado do reino de Múrcia quando Múrcia era um reino. Mas não é o escritor da nobreza o que nos interessa, e sim a nobreza do escritor - e sobretudo sua popularidade: em poucos meses, Marías vendeu perto de 50 mil exemplares de seu livro de contos. Mas eu não vim aqui para fazer o elogio de Marías, e sim do conto americano ou hispano-americano, muito embora três dos maiores contistas cubanos (Hernández Catá, Carlos Montenegro e Lino Novás Calvo) tenham nascido na Espanha: em Castela e na Galícia, respectivamente. Lino Novás, outra surpresa, foi o verdadeiro criador dessa coisa curiosa chamada realismo mágico. Aparece pela primeira vez num conto dele, "Aquella Noche Salieron los Muertos", muito antes que Alejo Carpentier formulasse sua teoria estética (tomada emprestada de um surrealista francês) do "real maravilhoso".

Horacio Quiroga é o primeiro contista qua contista (gosto dessa palavra latina, qua, porque lembra água, aqua, e repetida, qua, qua, parece um chamariz para patos, quá, quá, quá) e um louco perseguido pelo infortúnio. Perdeu o pai num acidente de caça (caçava patos na fronteira do Uruguai com a Argentina: os dois países reivindicam sua paternidade) e seu padrasto se suicidou pouco depois. Perder o pai pode ser uma desgraça, mas perder um padrasto me parece um descuido.

Ambos, tomem nota, por favor, morreram de morte violenta. Poucos anos depois, Quiroga matou seu melhor amigo, no que os juízes qualificaram de acidente. Quiroga se casou, e, não muito depois da lua-de-mel (ele obrigou sua jovem mulher a passá-la na mais densa selva brasileira), quase nem preciso dizê-lo, foi a vez de ela se suicidar. Casado mais uma vez, sua nova mulher, como a oitava de Barba Azul, sobreviveu a ele. Doente de câncer da próstata (até nisso ele foi um pioneiro), Quiroga escolheu o suicídio.

Detive-me na vida de Horacio Quiroga porque parece uma violenta telenovela e é mais interessante que sua ficção - que não é menos violenta. Um de seus livros de contos se chama A Galinha Degolada. No conto que dá título e tom ao volume, dois irmãos gêmeos, ambos idiotas, têm uma linda irmãzinha. Mas os dois irmãos vêem - ou melhor, observam - a madre degolar uma galinha para o jantar. Eles provam que a imitação é a mãe da experiência e cortam o pescoço da irmãzinha.

Li os contos de Quiroga, todos, na adolescência e acreditei em todos. Eu era, como vocês já devem ter deduzido, mentalmente são, mas impressionável. Agora, mesmo que me ameaçassem com a expulsão deste encontro, eu não os leria nem amarrado. Vocês já devem ter deduzido também que Horacio Quiroga era dependente não só de morfina mas da literatura de Poe.

Outro escritor de contos nascido na Argentina, mas com a cabeça bem no lugar, é Adolfo Bioy Casares. Muitas vezes é associado a Jorge Luis Borges só porque eram amigos e colaboravam em empresas narrativas. Alguém os chamou, a ambos, Biorges. Mas Bioy continuou escrevendo depois da morte de Borges e foi cada vez mais individual e distinto, não apenas no porte mas na escritura. Bioy escreveu a mais comovente história de amor da literatura em espanhol do século 20. Chama-se A Invenção de Morel e, embora alguns a chamem de romance, é uma novela ou conto longo e, para mim, é perfeita. É a melhor ilustração do conselho francês "cherchez la femme".

Agora uma breve interpolação para falar, brevemente, embora ele mereça ensaios e tratados, desse grande autor: um americano que não escreve em espanhol e que não segue a tradição de sua língua, porque está criando as duas. Refiro-me a Machado de Assis, o único grande romancista sul-americano do século 19, que é também um contista extraordinário: sempre original, sempre na vanguarda de um homem só. Leiam, como aperitivo para o festim de um Trimalcião literário, seu conto "O Alienista".

O uruguaio Felisberto Hernández era o oposto físico do cubano Virgilio Piñera. Não gostava de homens magros, como Virgilio, mas de mulheres, muitas, gordas e caras: casou-se quatro vezes. Ao contrário de Virgilio, que nunca foi musical, Felisberto (podemos chamá-lo Felisberto: ninguém se chama assim) era um músico profissional, que, curiosamente, trabalhava como pianista de teatro, mas não de palco, e sim no fosso, e não para acompanhar sopranos, mas fazendo música de fundo para filmes mudos.

Suas vidas opostas tiveram um final parecido, mas diferente. Virgilio morreu reconhecido como pederasta passivo, com passagens pela prisão, condenado por invertido. Sua morte foi chorada por poetas pederastas, mas seu cadáver desapareceu do velório: as autoridades estavam convencidas de que seu corpo presente recriaria o ausente com fins políticos. Felisberto morreu de leucemia muito mais jovem que Virgilio, mas seu corpo inchou tanto que foi preciso procurar às pressas um caixão adequado, uma coisa tão enorme que não pôde ser tirada pela porta da funerária e saiu para a eternidade por uma janela.

Há um provérbio latino que propõe que se chega ao final da vida conforme se viveu. Os respectivos finais de Virgilio Piñera e Felisberto Hernández foram, se não vidas, mortes paralelas. Acho que não por acaso a editora americana que publicou os Contos Frios de Piñera agora publique os contos completos de Hernández. Mas vale notar e anotar uma diferença notável: Felisberto estava meio louco, Virgilio, ao contrário, sempre teve a cabeça bem assentada na guilhotina. Precisava apenas de uma revolução, e a teve.

Juan Rulfo chamou Guimarães Rosa de "o maior autor surgido nas Américas neste século". Não se deve exagerar, mas Guimarães Rosa, que escreveu o melhor romance do chamado "realismo mágico", é um grande escritor. Para deleite de vocês (já que sua obra-prima, Grande Sertão: Veredas é longa, complexa e metafísica), ele tem um volume de contos, mais zen do que sensacionais, intitulado Primeiras Estórias, que em espanhol ganhou o sugestivo título de um de seus textos, "A Terceira Margem do Rio". Há outros compatriotas de Machado de Assis que vale a pena citar, ainda que rapidamente. Murilo Rubião, com seu conto "O Ex-Mágico da Taberna Minhota", que é "sui generis", como são os contos de João Ubaldo Ribeiro, sobretudo seu "Foi um Dia Diferente o da Matança do Porco" e o elusivo e alusivo Rubem Fonseca, que com seu ¿Corações Solitários" criou um escândalo internacional ao ser proibido pelas autoridades de seu país.

O escândalo chegou aos ouvidos do presidente Carter, mais conhecido como "el manisero", não por causa da saborosa rumba havanesa, mas por ter enriquecido cultivando amendoim. Há outra rumba chamada "Tanta Lipidia por un Medio de Maní" cujo título me leva a explicar aqui meu interesse e até meu afeto pelos cariocas do conto. Não há outro país na América que se pareça tanto com a minúscula Cuba como o gigantesco Brasil: ambos têm sua musicalidade na música e na língua, ambos são uma mistura de brancos ibéricos e negros africanos, ambos criaram uma nova religião, que no Brasil se chama macumba e, em Cuba, "santeria".

Todos acreditamos que o ritmo não está só na música mas na fala, nos movimentos do corpo e nesse balanço que em Havana se chama "el caminao". Este meu ensaio, por exemplo, foi escrito como falam em Havana os "hablaneros".

Penso, ou sinto, não serem muito bons os contos de Rulfo, que me parecem parcos, mas primitivos. Em compensação, acredito que Pedro Páramo é um grande romance em poucas palavras e o melhor romance mexicano já escrito - neste e em outros séculos. O contrário acontece com o defunto Julio Cortázar: seus romances são para mim enfadonhos exercícios de uma vanguarda que o tempo mandou para a retaguarda.

Mas seus contos, sobretudo os contos de família, são extraordinários, e um ou dois - por exemplo, "O Perseguidor"; por exemplo, "A Auto-Estrada do Sul"- são admiráveis. O mesmo acontece com Alejo Carpentier, cujos últimos romances são lamentáveis quando comparados aos romances que escreveu na Venezuela: O Reino deste Mundo, Os Passos Perdidos, O Cerco. Mas seu conto "Viagem à Semente" é uma obra-prima do gênero.

Também o é seu conto longo "Concerto Barroco" - se esquecermos seu final, que eu não quero esquecer. Também Gabriel García Márquez, Carlos Fuentes e Mario Vargas Llosa escreveram e publicaram contos. Mas, apreciados ou desprezados, devem ser considerados romancistas antes de mais nada ou depois de tudo.

Chegamos aqui à grande literatura não apenas regional ou continental mas mundial, universal até. Agora vem, e com tudo, Jorge Luis Borges. Não houve no idioma um escritor maior desde que Calderón de la Barca morreu em Madrid em 1681. Toda pessoa que tenha lido um único conto de Borges (e felizmente Borges só escreveu contos e ensaios à maneira de contos) percebe que está diante de um escritor excepcional. Foi Borges quem disse de Quevedo que não era um escritor, mas uma literatura. Com maior justiça se pode dizer o mesmo de Borges. Ele sozinho, em sua remota Buenos Aires, que depois dele sempre está perto, aqui ao lado, virando a página, Borges sozinho fez do conto toda uma literatura e até mais, uma teoria literária. Não preciso citar nenhum título, pois vocês conhecem todos. Mas são contos não para ler, e sim para reler, recordar, memorizar e sempre nos assombrar. Não só com sua cultura e seu humor, mas também com sua arte narrativa. O oportunismo político o privou do Prêmio Nobel que ele tanto almejou. Pior para o prêmio: não mereceu Borges. Mas todos os seus leitores, todos os dias, lhe oferecemos o prazeroso desagravo da leitura, pois ele é, argentino nobre que era, nosso prêmio.

Não me escapa e, claro, não escapará a vocês, que fui parco em nomes e largo em adjetivos. Não era meu propósito compor aqui um guia de autores, mas oferecer um panorama do conto mais geográfico do que histórico. Depois de passear - como queria Anatole France que fosse a visão, não a missão, do crítico - por entre obras-primas, posso chegar a uma conclusão, se é que chego. Talvez o conto requeira mais arte que verdade. Isto é, uma quantidade maior de ficção.

Anatole France, aliás, deu uma aula sobre memória histórica em seu magistral conto "O Procurador da Judéia". Em Roma, Pôncio Pilatos, que fora procurador da Judéia, vai a uma festa romana, que vocês podem chamar orgia, e seu anfitrião lhe pergunta por "um judeu desordeiro" chamado Jesus. Pilatos, uma taça de vinho na mão, a toga impecável, o penteado à César, pensa por um momento e diz: "Jesus? Não conheci ninguém com esse nome".

Por favor, não me perguntem pelos autores que esqueci.

autor: Sexto

Comments:

Quinta-feira, Fevereiro 17, 2005

L'e Caesar,

Nos meados dos anos 90 tive a oportunidade de trabalhar em um dos hotéis mais chiques de São Paulo e muitas vezes considerado um dos mais chiques do mundo. Diárias caríssimas hóspedes ilustríssimos que nos mais jovens causavam deslumbre e os impúberes passavam a se achar mais importantes que os outros mortais por serem dos VIPs (tudo em hotel chique é falado em língua estrangeira) seus serviçais.
Neste ambiente suntuoso e requintado havia dois restaurantes, um deles chamava-se L'e Caesar (deve ser aplicada uma pronuncia francesa ao dizer esse nome para soar mais chique) e é dele que vou falar pois me fazia rir aos montes quando alguém pedia um prato caríssimo decorado com pó de ouro, isso mesmo pó de ouro. Aqui sou obrigado a perder a compostura e o refinamento e berrar bem alto: Vão se fuder ricos idiotas! Os bacanas comiam ouro pra que? Vai ver que era para evacuar pepitas em vez de bosta como todos nós. Porém e sempre tem um porém, dentro deste mesmo hotel havia um contraponto a este requintado restaurante-joalheria. Era o lugar para onde iam todos os restos não reaproveitaveis deste restaurante e do outro que havia no prédio, para os gestores de recursos humanos o lugar chamava-se refeitório, para nós, 300 (número sugestivo) quebradores de pedras ou para utilizar o tucanês de anos atrás, operadores de picaretas, peões, o lugar trazia o também sugestivo nome de L'e severinos.
Ora, lembrei-me desta história remota, o hotel já nem existe mais, pela eleição do Sr. Severino para a presidência da câmara, terceiro cargo na hierarquia da substituição presidencial. Ele recebeu 300 votos com a promessa de aumentar o salário dos 300 picaretas (já ouviram isso?). Achei ótimo, o Sr. Severino sempre foi governo, já trocou de partido oito vezes, o homem é uma metamorfose ambulante, mas conservador, um incompreendido, pobre senhor. Discípulo de São Francisco, sabe muito bem que é dando que se recebe e o mais importante, tirou essa aura de honestidade e seriedade dos engravatados componentes da casa, só tem Carmem Miranda sem caráter nesse lugar, mostramos nossa verdadeira cara. Nós somos essa festa da banana, do bundalele e da lei de Gerson.
No poder todos se locupletam, não tem salvação. Estou lendo um livro imperdível do Prof. Ariosto Augusto de Oliveira, O Vau da Vida, fala de um "articulador" que afirma: Não tem santo no poder, todas as obras são superfaturadas e as "sobras" vão para as ilhas Jersey e Grande Caymã, apesar desta nem de longe ser a melhor parte do livro, pois o que importa são as falas de Fé Ascensão, que somos nós, os verdadeiros severinos. É isso ai, ainda bem que o Sr. Severino foi eleito, ele sim representa a elite brasileira, o poder que janta ouro no L'e Caesar, e com isso nos impõe a verdadeira morte severina. Anarquia ampla total e irrestrita!



Esse é o singelo Severino que mica a declaração de renda e muda de partido mais que de cueca! Mas viva ele tres vezes, nossa cara!
autor: Sexto

Comments:

Quarta-feira, Fevereiro 02, 2005

O Virundum do Herói cobrado! Entre o trasmil és tu Brasil!

Quem cresceu na época da ditadura (empregada sem nenhuma grana, arggh que preconceito) era obrigado a cantar diariamente uns três ou quatro hinos, portanto semanalmente uns 20 e lógico que esses hinos ufanistas escritos por poetas parnasianos, muitas vezes incautos, eram incompreensíveis para um moleque de sete anos, essa cacofonia do heróico brado me persegue até hoje. Para mim as margens plácidas do Ipiranga ouviam o grito do povo e do herói cobrado, nem adiantava me perguntar porque cobraram o herói, mas a letra do hino da pátria dizia isso. E tenho certeza que se um dia elegeremos um herói que necessite ser cobrado, digo que não pague essa divida estúpida que temos com os bacanas como fez a Rússia e está fazendo a Argentina esse país vai ser bem melhor, isso é se não mandarem a grana para uma conta particular na Suíça, mas isso é outra história.
Voltando aos hinos, tinha aquele do japonês tem cinco filhos, nem sei para que serve, deve ser da independência, falava que do universo, isso mesmo do universo entre as nações resplandece a do Brasil, como seria bom se realmente resplandecêssemos no universo, ai um amigo meu que limpava o banheiro numa empresa que eu trabalhei diria, mas no futebol agente respRandesse, ou não respRandece? (esse cara merece um post a parte). E eu gostava também do da bandeira, aquele do ruído estrondoso que saia das nádegas (tucanês para peidão). Salve lindo pendão da esperança, salve símbolo augusto da paz, tua nobre...Nessa parte eu viajava, achava que o Sr. Augusto dono da quitanda da esquina era casado com a da Paz faxineira do predinho e que eles peidavam tanto que fizeram um hino para eles, (boa essa).
Agora o mais estranho era o do exército, que eu saiba exército é pra fazer guerra, ai o refrão do hino é assim: A paz queremos com fervor (tavam cobiçando a muié do Sr. Augusto da quitanda) a guerra só nos causa a dor (dói mesmo, agente fazia umas guerras de mamona com estilingue de tripa de mico que doía uma semana cada pelotaço e tinha uns covardes que punham pedra mesmo, foda-se guerra é guerra, menos pro nosso exército que queria a paz com fervor e desancava a molecada que era contra a ditadura na porrada e na bala, não tinha moleza) E ainda tinha aquele trecho apoteótico: Porém se a macacada for um dia ultrajada puta merda que cagada. Quem não lembra disso?
Tinha também o da proclamação da república (que já falei aqui que começou muito mal, a república não hino), aquele que falava de um pássaro gigante que abria as asas, de um jeguinho empacador chamado brasileiros e do Sr. Augusto de novo e ainda confundiram a posição do velho na camisa verde, ele não era porta estandarte era mestre sala, era assim: Liberdade, Liderdade abra as asas sobre nós e etc... Depois vinha: eia pois brasileiros avante, eu só ouvia usar a palavra eia pra jegue empacador e cavalo manco, mas no hino tinha o "eia brasileiros" e para finalizar com o Sr. Augusto: Nosso Augusto estandarte, que puro, brilha avante. De puro o Sr. Augusto não tinnha nada, pois além da da Paz ele traçava mais umas três, o cutruco era fogo. Esse hino era o pior de todos, já reli umas 100 vezes e não entendi nada.
Não pensem que não gosto do meu Brasil varonil, gosto e muito e jamais o trocaria por outro lugar neste universo e para provar isso vai o hino do expedicionário sem nenhuma versão infanto-juvenil, segura:

Você sabe de onde eu venho?
Venho do morro, do Engenho,
Das selvas, dos cafezais,
Da boa terra do coco,
Da choupana onde um é pouco,
Dois é bom, três é demais.
...
Por mais terras que eu percorra,
Não permita Deus que eu morra,
Sem que volte para lá;
Sem que leve por divisa
Esse "V" que simboliza
A vitória que virá!


Nossa vitória final, ...

E por ai vai, mas pode ver que esse foi feito por um cara que curtia a vida a dois, as praias os engenhos de cana e lógico que queria sair da porra da guerra e voltar pra casa cantando vitória!

Para finalizar essa faze de grupo escolar que era ótima, apesar dos caras da ditadura que faziam agente cantar essas bostas e fazer ordem unida vamos a mais duas pérolas:
Meu irmão mais novo tinha uns seis anos de idade e caiu uma pergunta na prova de história: Quem é o governador de São Paulo?
O moleque era foda, culto, inteligente e anarquista mandou em letras garrafais:
VICENTE MATEUS!!!!!!!!!!!!!!!!!URRRRUUUUUUU. Chamaram meu pai na escola e o veio teve que provar que era palmeirense se não o FDP do Maluf, que era o governador biônico (nomeado pelos ditadores) punha o moleque pra fora da escola. Isso aqui é verdade!!!!!!!!!!
Para fechar com chave de ouro, ou de merda como preferirem segue o grito de guerra do colégio naval! Afffffff!

Ao Colégio Naval tudo ou nada!
Tudo!!!
Então como é que é como é que é!
É É É....!!!!!
Quericomba, Zepelim
Cangerê, com Gingelim,
Areguá, Guá, Guá
Bambuê, Caxinguelê
Embaúba, Berimbau
Naval, Naval, Naval!!



Para quem gosta de saber das coisas mais uma inutilidade bacana, as estrelas, são estrelas mesmo!

Abraços!
autor: Sexto

Comments:

Quarta-feira, Janeiro 05, 2005

" Certa vez o Brunoc reclamou que nós publicávamos textos dos outros e ficavamos rasgando elogios a eles em vez de por nossas idéias na mesa, bom esse aqui não fui eu que escrevi, mas tô puto por não ter sido eu, portando publico! Imendiatamente após ler esse texto, me recorreu que ele terria que ser ilustrado com as MOCRÉIAS do Marcatti que são simplesmente maravilhosas, ou horríveis, tudo depende do ponto de vista, mas não consegui localizar as mocréias então vamos de pin-ups. Bom divertimento."


A mocréia

Hélder Santana


Quando entrou naquele ônibus lotado e percebeu que todos a olhavam, Gisele teve contato com um prazer maior que o sexual por alguns instantes. A cada olhada, discreta ou escancarada, cada comentário cochichado no ouvido ao lado, ela sentia um prazer indescritível, e até mesmo alívio por saber que sua qualidade mais marcante e mais querida estava lá,firme e forte: ela era feia. Incomparavelmente feia. E cada dia mais feia. Isso era seu orgulho, seu ponto de honra, sua filosofia de vida e sua glória.

Quando nasceu, era uma criança bonita, como outra qualquer. A medida que foi crescendo,foi se tornando terrivelmente feia. Seu rosto era a demonstração da crueldade e do mau gosto que a natureza pode exprimir em alguns casos. Um
infortúnio, um verdadeiro castigo estético.

Certo dia voltou para casa chorando. Desesperada e aos prantos, gritou para a mãe:

- Nunca mais volto àquele lugar.

- Mas por quê?

- Não cansam de me chamar de mocréia, horrorosa. Ninguém gosta de ficar ao meu lado, porque eu sou feia.

A mãe não sabia mesmo como reagir. Se acostumara com o desastre que era o rosto da filha, passara a achar aquilo tão normal que nem pensara que na escola, sob os olhos cruéis dos inocentes, a história seria outra. Mas se Gisele era realmente tão horrorosa, por que então...? Foi direto ao ponto:

- E daí? Você deveria se orgulhar disto. Ser feia é um diferencial. Todo mundo quer ser bonito. Você não precisa ser escrava deste padrão. Quando alguém te chamar de mocréia, reaja com um sorriso. Mostre toda a sua feiúra e diga obrigado. Ser feia não é pecado. Se existe feiúra no mundo, ela tem o seu lugar. Imponha-se. Seja feia e seja feliz.

A partir desse dia ela mudou. Passou a olhar sua falta de beleza como um ponto forte. Toda vez que alguém a chamava de feia, Gisele recebia como um elogio. A feiúra era seu ponto de honra, seu toque original, sua marca registrada.

Nada a deixava mais irritada e deprimida que a idéia de receber cantadas.

Detestava que notassem qualquer traço de beleza em seu corpo. E cresceu feliz assim, já que ninguém a elogiava mesmo, muito menos recebia cantada de homem algum.

Os anos transcorriam tranqüilos. Gisele, trancada no seu mundo, estava satisfeita com sua feiúra, seu orgulho. Até que...

- Oi, a gatinha está sozinha?

Pânico! - Gatinha? Quem é esse animal? De onde saiu essa criatura grotesca e com quem ele pensa que está falando? Gatinha é a mãe!¿

- Sim, estou sozinha e vou continuar assim.

- Mas por quê? Que desperdício. Uma mulher tão bonita assim, sozinha!

-Eu vou dar na cara desse animal. Pensa que está falando com quem? Mulher bonita é a puta que pariu.¿

-Porque eu quero. Escuta, tem tanta mulher nesta festa e você cismou justamente comigo. Vai procurar outra pra cantar, vai.

Não adiantou. O cara cismou com Gisele. Descobriu seu celular, mandava cartões por correio eletrônico. E sempre com elogios: linda, gata. Não adiantava responder mal, ignorar, dizer desaforos.

Um dia ligou o computador e deparou com uma mensagem que a deixou emocionada, mais tocada que nunca. Mudou tudo em relação aquele homem. O texto de e-mail era curto mais contundente:

-Você é realmente uma estúpida. Grossa, insensível e além de tudo um canhão.
Não sei se alguém já te disse isso com todas as letras, mas você é uma
mocréia.

Não. Ninguém jamais havia dito isso antes, pelo menos desta forma. Não! Como alguém tão insosso e inoportuno poderia ter mudado tanto a ponto de dizer coisas tão maravilhosas?

Ligou imediatamente para ele:

- Ricardo? Sou eu, Gisele.

- Desculpe, pela mensagem, eu estava nervoso e...

- Não, eu adorei.Adorei mesmo.

- Adorou...?

- É. Ninguém jamais tinha falado assim comigo antes!

Ele, desconfiando que tinha acertado no alvo:

- É... você é mesmo uma mocréia, mas eu gosto de você assim mesmo. Gosto desde a primeira vez que vi você.

- Jura?

- Juro!

- Eu quero te ver.

- Também quero te ver meu canhãozinho. Minha mocreinha!

O romance tomou pé. Os dois estavam cada vez mais apaixonados. Se viam todos os dias, sem falta. Toda vez que saia para encontrar o namorado, Gisele fazia questão de ir de ônibus. Tinha mais gente para reparar sua feiúra. Ela se sentia bem e chegava feliz da vida pra encontrar Ricardo. Principalmente naquele dia. Ela sabia que seria pedida em casamento.

Por isso, quando entrou naquele ônibus e percebeu o espanto de algumas pessoas, os olhares de estranhamento de outras. Ficou especialmente animada. Uma onda de euforia tomou-a de surpresa. Levantou-se do seu assento, foi para a frente do ônibus e gritou com toda força que pôde:

- Sou feia, mas sou feliz!


autor: Sexto

Comments:

Quarta-feira, Dezembro 01, 2004

Sujeira de Primeira!

"EU TAMBÉM TENHO ALGO A DIZER" Talvez esse seja o grito que o Di Menor queria dar, não só ele como tantos outros que alguém saiu por ai a fotografar. Essa foto me chamou a atenção primeiro pelo pano de fundo que é um típico bairro da periferia de são paulo, provavelmente na ZL e depois o moleque sentado na beira do viaduto com um OVNI querendo abduzi-lo. Os extra terrestres estão querendo levar a força criativa e anárquica do nosso planeta. Estas obras de arte, ou seria puro vandalismo, ou apenas uma atitude desesperada de uma juventude que não vislumbra nenhum futuro nem nenhuma possibilidade de desenvolver seu potencial criativo e que sai por ai deixando suas marcas para demarcar o território que também lhes pertence mas não lhes é reconhecido o direito de posse e na contra mão de uma de uma política social que não existe eles pavimentam suas vias criativas com tinta e rebeldia.

Essa aqui também é excelente, junto a uma placa de imobiliária mesclada com escritório de advocacia que atende qualquer causa e sabe-se lá que efeito causará o atendimento (92% dos "advogados" que prestaram exame da ordem foram reprovados) e de quebra faz declaração de imposto. Vai ver que o número do telefone é mera sugestão: 69....! O AMOR E VISITANTES foram fazer uma visita para este renomado escritório advocatício-imobiliário, vai ver que o amor acabou e este é o motivo da visita! O pior é o apóstrofe "S" dos visitant's até no mais anárquico dos momentos somos reféns do império!


Esse aqui da um CUSP no banho e tosa, pode cachorro de favela ir em PET-SHOP (mais uma vez o império). Cachorro de favela come resto de comida quando sobra, fuça lixo de boteco a cata de um pé de frango ou resto de torresmo. Por isso que o tal "Pet-Shop" está com essa cara de falência, mas pelo menos tem algo em comum com o advogado o fone começa com 69! Sempre tem algo de bom na vida! 69 é da ZL!



Será que só a rua está sem saída? As pixações são ótimas valeu a foto!



essa foto deveria chamar "Abandono" ou simplesmente "Periferia" O caos se manifesta na parede! DANADOS!


Olha o Di Menor ai novamente, agora junto com uns camaradas. Vocês já viram foto de prédio de rico com uma porrada de fios de mau aspecto na frente? Parecendo gambiarra? De jeito nenhum, eles tem Photo-Shop (o império se manifesta em todos os níveis sociais)

Li um artigo sobre os "Rachas" em São Paulo, tem uns malucos que chegam a 200 km/h num passatão velho e reclamam dos radares. Um maluco do Rio de Janeiro deu um conselho pros rachadores de SP: "Saiam de madruagada e estourem os radares na bala" ANARQUIA TOTAL!

ASSISTAM O FILME CONTRA TODOS, São Paulo ao vivo e a cores, só que predomiha o vermelho, de sangue!

Valeu!
autor: Sexto

Comments:

Segunda-feira, Outubro 04, 2004

Faz muito tempo que eu não dou as caras aqui no Ataraxia, para falar bem a verdade não tenho nada e interessante para contar. Estou bem feliz que a Carol chegou para ficar 15 dias direto aqui, depois no fim do mês ela vem para ficar de vez, ótimo! O trabalho continua a mesma coisa, voltar para SP foi legal, reencontrar a camaradagem e encarar os problemas que um novo emprego nos traz. Não é fácil, principalmente porque eu fiquei muito tempo em uma mesma empresa e agora ter que me adaptar a novos processos, mas no fim é tudo a lesma lerda.
Vou prestar vestibular de novo, Sistemas de Informação, não tenho a menor idéia do que possa ser, mas o nome é interessante. Se eu passar de novo esses cursinhos tem que fechar. Faz 20 anos que eu acabei o colégio e nunca mais estudei biologia, física e aquelas outras inutilidades que agente aprende na escola. Se não fosse as aulas de literatura onde nós tivemos a oportunidade de ler os autores que são realmente importantes, aqueles anos que eu passei no colegial não serviriam pra nada, claro noves fora os amigos e as gatinhas. Alguém lembra da prova dos 9 e o MUV (movimento uniformemente variado) e a cosecante do angulo reto, importantíssimo, não viveria sem eles de forma alguma.
Vocês devem estar perguntando porque eu vou fazer um curso que eu nem sei direito do que se trata, pelo seguinte: Não agüento mais trabalhar no hotel, só não mando tudo a merda já porque a escola do Gui custa muitos dinheiros e tem o aluguel, comida, umas viagenzinhas de fim de semana e etc... Mas pode escrever que eu não fico mais um ano nessa vida do cassete. Chega de reclamações e se alguém souber de duas vaguinhas moleza que pague bem, abrace uma e avisem-me da outra!

autor: Sexto

Comments:

Segunda-feira, Agosto 23, 2004


Esse Crop-Circle chama-se Triple Julia e se não me engano este surgiu na Inglaterra, o lugar onde elas mais "aparecem".
Esses desenhos são frutos de uma polêmica muito grande. Eles surgem do nada em meio a plantações de diversos tipos de cereais e em lugares distintos, EUA, Australia e Europa, sua maior incidência é no sul da Inglaterra(Wiltshire mais especificamente).
É fato que tem uns malucos que fazem estes desenhos nas plantações por simples prazer estético e diga-se de passagem são realmente muito bonitos, mas também o fazem para aumentar a polêmica em torno dessas figuras, pois há um número grande de pessoas que acredita piamente que elas são feitas por ETs ou por forças sobre humanas e existem até estudos científicos em torno delas. Posso dizer duas coisas, fazer uma figura como a "Triple Julia" que tem 305 metros de diâmetro é um trampo FDP, principalmente porque as figuras são feitas em uma única noite no verão, as noites de verão na Inglaterra são muito curtas. A outra é que se um ET fez uma dessas um dia ele está sendo profundamente sacaneado por esses malucos que as fazem por prazer, pois a partir do momento que uns humanos malucos fizeram uma dessas, qual o motivo para acreditar em um ET. Tudo que o homem faz perde a divindade, o estranhamento, o inexplicável deixa de existir e passa a ser ordinário. Acho que deveríamos juntar um bando de malucos e fazer um CROP-CIRCLE (é assim que se chamam estes "fenomenos" ) só pelo prazer estético e para causar alguma polêmica já que nunca apareceu um no Brasil.
Aposto que vão falar que é coisa de ET, de alguma divindade do Candomblé, ou algum santo Católico. Se fizermos na vespera da eleição o Maluf diz que foi ele que fez!
Mais uns "fenomenos" para vocês apreciarem, abraços.


P.S. Ao fazerem as figuras os ramos das plantas não são cortados e sim amassados, dizem que quem chega perto desses fenomenos sente-se mal, tem ânsia de vómito e outros "sintomas". Os próprios artistas que os fazem seguem uma determinada ritualistica, ou recomendam segui-la. Eu sou contra!
P.S.2 O Triple Julia é considerado obra de ETs esses outros são humanos. Vai entender!
autor: Sexto

Comments:

Segunda-feira, Agosto 16, 2004

"Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não se deixar guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da história for útil; se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na política for útil; se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para serem conscientes de si e de suas ações numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a Filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes".
(Marilena Chaui)
"O homem está pronto a sacrificar tudo quanto não é ele mesmo, a aniquilar o mundo inteiro, ainda que não seja senão para conservar um instante a mais o seu ego, essa gota no oceano".
(Schopenhauer)
Sábado não pude ir ao casamento de um grande amigo porque tive que trabalhar, também deixei de ficar com a Caca que eu amo tanto. Porra ela veio lá de Caxias e eu trancado naquela sala... Depois querem que eu não diga que o trabalho é completamente estúpido. O que isso tem haver com os textos acima, é que eu estava lendo alguns textos soltos da época da faculdade e apareceram esses e mais uns outros e acabei encontrando um texto escrito por um médico em 1880 que desancava o trabalho, O Direito a Preguiça, Paul Lafargue. Esse senhor nasceu em Cuba estudou Medicina na França e casou-se com a filha caçula do Karl Marx. E ai fiquei pensando para que serve a filosofia e lembrei que serve para nos mostrar o quanto ainda precisamos pensar para deixarmos de ser egoístas, violentos, covardes e submissos à escravidão do trabalho. Segue um parágrafo do livro: "A burguesia, quando lutava contra a nobreza, apoiada pelo clero, arvorou o livre exame e o ateísmo; mas, triunfante, mudou de tom e de comportamento e hoje conta apoiar na religião a sua supremacia econômica e política. Nos séculos XV e XVI, tinha alegremente retomado a tradição pagã e glorificava a carne e as suas paixões, que eram reprovadas pelo cristianismo; atualmente, cumulada de bens e de prazeres, renega os ensinamentos dos seus pensadores, os Rabelais, os Diderot, e prega a abstinência aos assalariados. A moral capitalista, lamentável paródia da moral cristã, fulmina com o anátema o corpo trabalhador; toma como ideal reduzir o produtor ao mínimo mais restrito de necessidades, suprimir as suas alegrias e as suas paixões e condená-lo ao papel de máquina entregando trabalho sem tréguas nem piedade".
Quanto a frase do Schopenhauer, faz lembrar-me de um sitio na internet que mostra crianças vitimadas por esta Guerra sórdida, egoista e estúpida contra o Afeganistão e Iraque, quem tiver estomago forte: www.babykiller.com.
Quando os Nazistas viram o Guernica perguntaram para Picasso: - Foi você que fez esta porcaria? E ele respondeu:- Não foram vocês!


autor: Sexto

Comments:

Sexta-feira, Julho 23, 2004

Caçada

O cara não era um caçador comum, ele utilizava-se de todas as técnicas e artimanhas que aprendeu caçando pombas, pacas, capivaras e gatos do mato, animais astutos que conheciam perfeitamente seu ambiente, tinham faro aguçado eram esquivos, rápidos e dominavam todas as rotas de fuga do bosque, córregos e rios, para perpetuar seu ato de sobrevivência. Abate-los demandava de tanta arte como eles tinham para fugir e era necessário para sua própria sobrevivência, para sua sanidade física e mental. Fazia tempo que ele não saía atrás de suas presas e tinha um motivo para isso, se você sair todos os dias atrás da presa, ela se afugenta de tal forma que você nunca mais a encontrará. Ela simplesmente muda de sua zona de caça, sim a vítima também é um predador e também muda seus métodos e estratégias para iludir suas vitimas e predadores.
Ainda não tinha escurecido quando ele começou a arrumar a arma e colocar no embornal que sua esposa tinha feito de tal forma que não demonstrasse o que realmente continha, um rifle italiano de alta precisão, num dia em que estivesse bem era capaz de acertar a pupila de um falcão a oitocentos metros de distância, implacável como a vida, "armadilha que nunca falha" * Somente dois projéteis no carregador automático e um na câmara em frente à agulha, é impossível disparar mais que três tiros sem que alguém chame a polícia, caçar ainda é ilegal.
Estava muito frio naquele final de tarde de julho, vestiu o casaco de couro surrado e saiu de casa com o queixo enfiado no peito para proteger-se do vento, nesses dias as presas ficam mais vulneráveis, não acreditam que o predador sairá a caça naquelas condições, caí uma garoa fina. Desce a Borges Lagoa meio tenso, para no bar do Careca, toma um conhaque para esquentar as tripas e acalmar o espírito. Um conhaque dá uma tranqüilidade que aguça a paciência e precisão naquele segundo em que o dedo aperta o gatilho que destrava o cão que espatifa a espoleta que explode a pólvora e faz o projétil ir até seu destino.
Quando parou sobre o viaduto que cruza a 23 de maio era pouco mais de 18:30, o trânsito totalmente parado, atirar nos motoristas já não lhe dava mais prazer pela facilidade de colocar a bala entre os olhos do desgraçado e muitas vezes a presa não era tão boa, agora seu alvo era outro. Lá em baixo vinha em sua direção um rapaz alto, magro e branco como cera, deve ser um daqueles que rouba para comprar drogas, o rapaz espreita suas vitimas, ele prefere as fêmeas, são mais vulneráveis, chega ao lado da janela do motorista, arromba o vidro, toma a bolsa, relógio, celular, a mulher esperneia e ele da um soco na sua boca para ela parar, entra com quase metade do corpo dentro do carro para pegar o computador que está no banco do passageiro, o caçador prepara o rifle, e aponta para a escadaria da esquerda, exatamente por onde sua presa vai passar. O rapaz sai do carro a mil passa entre os carros da fila da direita que se movem lentamente a mulher com o lábio sangrando grita ainda mais, ele sobe o primeiro, segundo, terceiro degrau, pau, o tiro é certeiro, dentro do ouvido esquerdo, o corpo no chão nem treme. O matador desmonta sua arma põe no embornal, caminha lentamente em direção a sua presa ensangüentada, pega o lap top e o relógio, o resto dá muito trabalho para vender. A alimentação para a família até a semana que vem está garantida. Só não sabe se o desejo por sangue o permitirá esperar todo esse tempo.

* (não sei quem definiu a vida desta forma, não fui eu, mas utilizo esta definição por sua concisão e verdade).

Pode comprar este ou escolher outro modelo que melhor se adapte ao seu estilo no sitio da bereta! Boa Sorte!



Il nuovo SO10 calibro 20 Magnum è il prodotto di un progetto innovativo e curato nei minimi dettagli: il risultato è un fucile estremamente elegante, leggero e perfettamente bilanciato, funzionalmente superiore e in grado di offrire prestazioni impeccabili per generazioni.

autor: Sexto

Comments:

Quinta-feira, Julho 01, 2004

Simplicidade ou a anti-metáfora

Certa vez quando ainda estava em Caxias a mudar de hotel para hotel escrevi que me sentia como um Escargot , com a casa nas costas e os bacanas querendo me comer. E dois amigos meus disseram que era uma boa metáfora.
Num sábado solitário desses que passaram, andando pelo Ibira, fiquei olhando para um caracol que atravessava o asfalto, o bicho não tinha a nobreza de um Escargot ( o primo francês da família), mas eu também não sou nobre e nem tenho parentes na França. Continuei me comparando ao inseto. As diferencias que encontrei davam mais nobreza ao molusco que a mim! O bicho parecia não ter ambição, angustias, temores, obrigações, nem nenhuma característica ou sentimento que o fizessem sentir-se um inseto, que fizessem outros insetos sentirem repulsa por ele. Sabe que o bicho era tão melhor que eu decidi me metamorfosear em um deles. Ao melhor estilo Gregor Samsa!

autor: Sexto

Comments:

Quinta-feira, Junho 17, 2004

Não tenho mais a menor vontade de continuar a história da mala do mala na mala da Meca que foi pro paraguas, mas como minha pretensão é grande e vocês devem estar loucos de vontade de saber o que aconteceu depois, vamos lá: Atravessamos a ponte da amizade lá pelas três da tarde, paramos em um posto, enchemos o tanque, perguntamos qual era a estrada correta e partimos, dessa vez quem dirigia era o bruxo (termo utilizado no RS para brodaço). Dormi umas duas horas e assim que começou a escurecer o Denis entregou os pontos e passei a dirigir novamente, comecei a pensar como se estivesse a bordo de um barco em uma longa viagem, não tava nem ai para o destino final, mas só pensava que a próxima cidade estava perto e assim acelerava com fé. A estrada era uma merda, cheia de buracos e só carretas nos dois sentidos, cada ultrapassagem era uma ressurreição e eu tinha certeza que mais cedo ou mais tarde ia cair em um buraco e furar o pneu. BUUM, dito e feito, digo pensado e feito, caí em um buraco entortou a roda e esvaziou o pneu, num puta frio e num puta breu trocamos o pneu e fomos em frente. O borracheiro (cidade) mais próximo estava a uns 25 km, reduzi para não correr nenhum risco. Arrumamos o pneu compramos mais guaraná e batata frita, acho que era o vigésimo pacote. Segui no volante, pois tinha prometido que só entregaria numa determinada cidade que realmente não lembro o nome, voltei a pisar forte e mandar os quilômetros que faltavam para puta que pariu, BUUM outro buraco e outro pneu, essa foi foda a roda ficou parecendo um oito. Trocamos de novo, frio e breu e as raras carretas passando a mil do nosso lado, continuei, chegamos na cidade onde eu disse que ia parar de dirigir "arrumamos" o pneu (teve que por câmara de tão torta que ficou a roda) puzemos o estepe para rodar e daí para frente o Denis dirigiu e eu morri. Quando ele me acordou faltavam 130 km e eram duas da manhã. Mandei do jeito que deu a estrada era muito ruim e estava uma neblina fdp, chegamos no hotel ás quatro, deixamos a mala com o Fabio e fomos para casa, fiz questão de tomar um banho fazer a barba e entregar a mala pessoalmente para o dono.
E eu todo empolgado falo: - Sr. Fulano de tal, aqui está sua mala o senhor pode conferir se está tudo ai?
E o cara diz: - Ta tudo sim, só que eu fiquei dois dias sem tirar nenhuma foto, chama um táxi que eu tenho que ir para o aeroporto.

FIM

P.S. Todos os funcionários falaram: - Que filho da puta nem para dizer obrigado. E eu disse: - Não fui buscar essa merda pelos agradecimentos mas para não ter aborrecimentos.



autor: Sexto

Comments:

Quinta-feira, Maio 27, 2004

Yo quiero Paraguay!

Terça feira, 21 de maio de 2004, Caxias do Sul, Back office do hotel.

Relato 1:

A mala de um hóspede foi posta por engano no porta malas de uma Mercedes Benz branca com placa del Paraguay. Rapidamente localizamos o celular do hóspede que desavisadamente levava a mala de outro hóspede. Celular fora de área.
Dono da pasta avisado que 'já' sabemos onde ela está.

Relato 2:

Hóspede que teve a mala extraviada com todos seus documentos, passagem aérea, câmara fotográfica importada e outros bens de valor inenarrável diz que necessita da mala até sexta pela manhã, pois tem viajem importantíssima marcada para esta data.

Relato 3:

O cliente da mala extraviada é convidado de uma empresa que havia feito reclamações a respeito de um de nossos hotéis, reclamações tão veementes que levaram a nossa presidente a ligar para o presidente desta empresa para dar as devidas explicações.

Relato 4:

O cicerone do hóspede da mala extraviada começa a dar show de horror e dizer que vai processar todo mundo, a mala passa a valer o inenarrável ao cubo!

Fim da primeira sessão de relatórios.

Quarta feira, 22 de maio de 2004. Caxias do Sul, Back office do Hotel.

Conseguimos contato via celular (agradecemos a Embratel pelos serviços magníficos que nos prestaram, é sério) com o Hóspede que desavisadamente leva a mala do convidado do mala na mala de sua Mercedes Benz. Ele confirma que a mala do convidado do mala está na mala e que a enviará via DHL. Nós avisamos que a mala do convidado do mala tem que estar em Caxias do Sul até quinta à noite impreterivelmente. IMPOSSÍVEL! A aduana leva 48hs.
Decisão, vamos buscar a mala do amigo do mala. IMPOSSÍVEL ir de avião, todas opções checadas, nenhuma delas nos traria de volta com a mala do amigo do mala antes de sexta à tarde. Ônibus: IMPOSSÍVEL, não tem ônibus que vá e volte antes de sexta a tempo do hóspede partir.
Decisão: VAMOS BUSCAR A PORRA DA MALA DE CARRO! 1300KM IDA E 1300 KM VOLTA. Agora são 15:00 temos que estar de volta daqui quarenta horas, vinte horas para ir, vinte para voltar. Em dois com um pouco de sorte agente faz.

Aqui faço um aparate sobre a amizade.

Existem pessoas pelas quais tenho um apreço imensurável, meus maravilhosos pais e irmãos, alguns outros (poucos) familiares e alguns amigos: Shin, nem a distância de metade da circunferência da terra nem todos esses anos sem nos vermos arrefece essa amizade. Gabriel Mobras, brodasso. André, cabeça de taxa, IRMÃO! Brunoc muleque du caralho. Suemi, japa maravilhosa que eu amo profundamente. E meu camarada de viagem ao paraguay, Denis, que eu conheço faz tão pouco tempo e tenho uma estima inversamente proporcional à este tempo. Jorgito meu filho você não é amigo é filho!

Amigo é aquele cara que agente confia plenamente e mesmo quando estamos na mais profunda merda nos ajuda e se nós mesmos não queremos nos ajudar ele dá um murro na nossa cara e faz agente se aprumar.

Relato de uma viagem indispensável!

Saímos do hotel com uns sandubas, uma garrafa de café e a certeza de que iríamos trazer a porra da mala de volta a tempo. Seu Edson que já havia feito este percurso nos deu dicas milimétricas, emprestou um mapa imprescindível e deu alguns contatos em Assunção para utilizarmos caso desse tudo errado. A ida foi mole, chegamos na fronteira às duas da manhã e fomos muito bem recebidos e bem tratados pelos fiscais e policiais do Paraguai, A ida de Ciudad del Leste até Assuncion foi mole também e tudo estava melhor que o planejado. Por engano parei em San Lorenzo pensando que estava em Assunção, mas a distância era pequena e rapidamente chegamos à metade do caminho, ainda teríamos que voltar tudo foi aí que a cuíca começou a roncar.

Assuncion, 23 de maio

Ao Ronco da cuíca:

Todo mundo nos falou que em El Paraguay era uma hora a mais que aqui e eu sem pensar muito entrei nessa conversa de burro, era uma a menos, chegamos 05:30 a.m. hora do Brasil, portanto 04:30 horário local. Não dá para ligar para o cliente neste horário, achamos um hotel onde todo mundo achava que éramos algum tipo de criminoso e provavelmente parecíamos e ficamos esperando pelo raiar do dia no lobby, o Denão dormiu na poltrona e se babou todo, até as mulheres de serviços gerais estavam nos policiando. Liguei para o cliente que estava com a mala às 05:30 ele disse que só apareceria as 07:00. Resolvi tomar um café da manhã no hotel para ver se queimava menos o filme, ficamos no salão do café das 06:15 às 07:00 e os rechauds de pratos quentes permaneceram vazios. Pagamos e descemos para o lobby, todo mundo de olho na gente, o cara apareceu com a mala as 08:00, foi muito educado, agradecemos e saímos a milhão, demoramos uma hora para acharmos a estrada de volta. Puta transito imbecil e ainda nos perdemos umas 10 vezes.
Na estrada o Denão deitou o banco e dormiu, o transito ainda era pesado o cansaço batia e eu fui passando todo mundo pela direita, praxe no Paraguas, passando o primeiro pedágio já a uns 100 Km de San Lorenzo um filho da puta de um policial nos para e pede o caralho, documentos, extintor, dois triângulos o caralho a 4, tínhamos tudo. O FDP diz que o Denis estava com o banco abaixado e que isso é proibido e bla bla bla e que se eu não desse uma grana ele faria eu voltar a San Lorenzo para pagar a multa, corrupto filho da puta. Dei cinquentão pro veado e caí no mundo. 3 km a frente outro posto policial e o cara pediu as mesmas coisas, nós tínhamos tudo e o banco estava de pé, se eu não tivesse horário estaria lá até agora. Outro policial filho da puta! (será que todos são?) Eu sei que não, mas nessa viagem descobrimos que a maioria é! O cara pediu para ver o estojo de primeiro socorros, a principio não achamos a porra do estojo o chefão da quadrilha, digo dos policiais, pediu R$ 200,00. Com toda educação do mundo mandei tomar no cú e falei que já tinha dado toda a grana pro corrupto anterior. O Denis achou o estojo, o cara disse que faltava Gaze, ou algo que o valha. Fiquei plantado no meio da pista e falei que não pagaria porra nenhuma, depois de muita pressão dei trintinha e saímos fora prometendo não pagar mais nenhuma propina, foi foda, 300 km de apurrinhações e minutos preciosos sendo perdidos em cada negociação estúpida com idiotas, filhos da puta que não tiravam a mão do trabuco. Gasolina no bafo guaranis contados para pagar o peaje, pusemos o últimos 30.000 guaranis de gasolina, 30.000 gruaranis é algo do tipo R$ 15,00.
Chegamos à ponte da Amizade, nome estúpido para um lugar onde tudo é feito à base do crime e da propina, corrupção lá é regra, o gás tava no bafo, mas foi interessante ver o movimento da malandragem e exasperante a espera de duas horas para atravessar e ser tratado como contrabandista, sabendo que não podíamos perder nem mais um minuto. Já estávamos com 5 horas de atraso e teríamos mais uma vez que fazer 90% da viajem a noite. Merda! Merda!

Continua quando der!

autor: Sexto

Comments:

Quinta-feira, Fevereiro 26, 2004

Mais solilóquios suspeitos:

"O ceticismo é, portanto, uma noção de duplo sentido. Historicamente, para os gregos que o fundaram, é um fenomenismo. Mas ao lado deste relativismo expressou-se com mais ou menos força, conforme diversos contextos, uma tendência do espírito humano em reivindicar o poder infinito da negatividade. Os problemas filosóficos que dela resultam são de vários tipos. Em primeiro lugar: é verdade que estamos totalmente condenados ao relativismo? é legítimo formular, fora da prática das ciências positivas, a exigência de um conhecimento racional absoluto apoiado na fé na razão ou na crença num Deus "medida de todas as coisas" como o de Platão, ou garantidor das 'verdades eternas" como o de Descartes? Em segundo lugar: de onde vem esta vertigem, esta aspiração ao nada, este apetite pela negação, esta tendência a radicalizar a dúvida que leva o homem, contra toda evidência, a proclamar o nada de seus conhecimentos e a vaidade da ciência? Por que Pascal se assusta com o "pirrônico Arcesilau", como com o silêncio dos espaços infinitos?, por que o pensamento dialético quer que a filosofia trabalhe para se negar a si mesma? Em terceiro lugar: podemos esperar hoje do ceticismo que ele cumpra sua dupla função grega, ou seja, reduzir o entendimento ao silencio, ao mostrar as contradições dos dogmáticos e a vaidade das explicações metafísicas e religiosas que pretendem dar ao homem uma explicação total e definitiva; restituir ao homem a tranqüilidade e a felicidade, fazendo com que ele não confie senão na vida, e remetendo ao domínio das ilusões as questões dogmáticas, fontes de sua inquietação, de sua intransigência, de sua fantasia, numa palavra, de sua infelicidade?"
Obviamente que não fui eu que escrevi este texto, de qualquer forma eu gosto muito dele e acredito gostar tanto do ceticismo como uma forma de se encarar os problemas, vendo o ponto mais negativo, mais inatingível da questão para articular saídas, sempre questionáveis, se não, não seríamos céticos, mas quase nunca a pior, já que a mais negativa de todas nós descartamos no principio e depois a penúltima e assim por diante de modo que criamos um sistema em que nunca acertamos porque o certo e verdadeiro não existe, mas tentamos nos aproximar e ao nos aproximarmos percebemos que o descartado antes poderia ser certo e reformulamos nossas certezas infinitamente. A certeza de que é possível saber algo é a fonte de toda infelicidade o inatingível é a plenitude da alma. Suspendo meu juízo mais uma vez!

Daqui para frente é Montaigne:


"Ora, pensei freqüentemente de onde provém que nas guerras a imagem da morte, tanto ao vê-la em nós como nos outros, nos parece sem comparação menos terrível do que em nossas casas; de outra forma, veríamos um exército de médicos e de carpideiras; e pensei que, sendo ela sempre uma só, há sempre mais força de ânimo nas pessoas de aldeias e de baixa condição do que na outra. Na verdade, creio que existam as imagens e aparências terríveis, com as quais circundamos a morte e que nos dão mais medo do que ela própria: um modo completamente diferente de se comportar, os gritos das mães, das mulheres e dos filhos, as visitas de pessoas espantadas e abatidas, a assistência de uma multidão de servos pálidos e lacrimosos, um quarto sem luz, círios acesos, médicos e padres apinhados à nossa cabeceira; em suma, todo horror e espanto ao nosso redor. Ei-nos já sepultados e soterrados. As crianças têm medo até de seus amigos, quando os vêem com aquela máscara, e assim a temos nós. É preciso tirar a máscara das coisas, e também das pessoas: quando for tirada, encontraremos sob ela apenas aquela mesma morte que um servo ou uma simples camareira assistiram sem nenhum medo. Feliz a morte que acontece sem os enfeites de tal aparato."



Montaigne, um gênio pouco conhecido, contemporâneo das grandes navegações, seculo XVI, pensava com simplicidade sobre as coisas realmente importantes.
autor: Sexto

Comments:

Segunda-feira, Fevereiro 09, 2004

Mais umita do Angeli, essa é boa também. Somos todos fortes candidatos a samambaia!



Essa aqui eu já quis publicar umas 100 vezes, mas por algum motivo nunca dei conta de fazê-lo, Tirei uma tarde para mim e acabei tropeçando nessa charge.
Agente literalmente dedica nossa existência a um emprego e no final da vida quando somos demitidos vemos que uma samambaia nos substituirá com perfeição, porque além de não servir para nada, assim como nós não servimos, se bem tratada, ela pode embelezar o ambiente.
Eu conheço muitos, realmente muitos pais de família que dedicaram vinte, vinte e cinco anos de sua vida a um único emprego, sabiam tudo a respeito daquele trabalho e tinham uma vida confortável baseada nesse trabalho, seus filhos estudavam em boas universidades, tinha mais de um automóvel na garagem, uma bela casa para viver e outra bela casa na praia e como eram homens precavidos, uma reserva financeira, foram demitidos! Estavam próximos dos 50 anos de idade, perceberam que a reserva duraria 2 ou três anos, mantendo o mesmo padrão de vida, sabiam que eram inteligentes cultos e depois de decorridos os 3 anos, inúteis.
Nunca mais conseguiram um emprego que lhes desse o mesmo padrão de vida, dilapidaram o patrimônio da família para manter o mesmo padrão, a mesma universidade o mesmo carro, a casa da praia? Essa dançou assim que a grana encurtou, e manteve-se o padrão por mais sete meses, os filhos foram trabalhar, mas a grana mal dava para pagar a mensalidade da faculdade e a gasolina do carro. A patroa, que não trabalhava a mais de vinte anos, foi à luta, arranjou um trampo na loja da amiga que pagava uma comissão pelas vendas, sem traquejo desistiu logo, o velho se debatia de um canto para outro mostrando seus conhecimentos e sendo declinado, pois estava desatualizado segundo os entrevistadores, sua experiência não servia para nada. Foi vender seguros, depois foi corretor de imóveis, vendedor de assinatura de jornal, divorciou-se, deixou tudo (o que restou) para a mulher e ¿crianças¿, alojou-se na casa dos pais velhinhos e compartilhou a pensão mirrada deles até que não agüentou mais e morreu.
Viva o emprego, orgulhemo-nos dele.

autor: Sexto

Comments:



Democracia, a jovem e estuprada democracia.

Mais uma vez publico uma charge do Angeli no Ataraxia, simplesmente porque mais uma vez a charge tem o poder de em apenas um quadro resumir exatamente o que eu penso a respeito de determinada situação.
Certa vez eu li um livro de um jornalista chileno que foi exilado pela ditadura, ele vivia na Europa, escrevia artigos desancando o Pinochet e sua ditadura sórdida. Com a ajuda de amigos ele conseguiu passaporte falso, fez uma cirurgia plástica e voltou ao Chile para fazer uma reportagem como se fosse parte de uma equipe de TV holandesa. Ao chegar ao seu país visitou a mãe e nem a pobre velhinha pode reconhecê-lo, depois fez a reportagem, visitou o La Moneda, sede do governo chileno e local onde Allende resistiu até a morte, falou com o Pinochet, que obviamente também não o reconheceu. Escreveu esse livro a respeito da viagem, não lembro o nome do livro nem do jornalista, mas lembro de ter presenteado uma amiga chilena com o livro e ela disse que havia gostado do livro e teceu alguns comentários dos quais eu discordava e naquela época eu argüi rispidamente com ela, pois ela parecia endossar o que o Pinochet vinha fazendo.
Nós todos sabemos dos problemas de nosso país, mas quando um estrangeiro fala alguma coisa contra nossa terra natal agente acaba ficando bravo e falando coisas contra terra natal dele também, já me vi nessa situação inúmeras vezes. E foi o que aconteceu com essa amiga, eu disse para ela: - Seu país ainda é uma ditadura podre enquanto aqui no Brasil nós "já" votamos pra deputado (eu achava que isso era o primeiro passo para a democracia, ingenuidade de adolescente) e blá blá blá, ufanismo sem sentido da minha parte. E ela imediatamente retrucou: - Que porra de democracia é essa do seu querido Brasil onde 50% da população é analfabeta, não come, não tem acesso à água potável e nem ao mais básico serviço de saúde.
Calei minha boca, pus minha viola no saco e pensei muito a respeito disso, até hoje penso. Que liberdade é essa que nos leva à miséria? Que democracia é essa que só beneficia 10 ou 20% da população? A ditadura não é poder votar ou não, mas poder viver ou não e o Brasil continua sobrevivendo sob o mais nefasto sistema ditatorial do planeta, é a ditadura escamoteada, aquela que permite o trabalho escravo, a miséria, o analfabetismo, os altíssimos índices de mortalidade infantil e todas as outras coisas que acontecem no nosso país e nos envergonham.
Qual a saída? Quem me dera ter a saída, mas um bom caminho seria acabar com o subsidio agrícola nos países do mundo rico, assim poderíamos fazer uma reforma agrária de sucesso, fazer com que quem trabalha receba o suficiente, duzentos e oitenta realitos é ridículo. Na base da pirâmide há miséria e no topo falta de escrúpulos, sendo que uma é descendente direta da outra. Vamos à luta filhos da pátria. Avante pópuli que atrás vem brócoli


autor: Sexto

Comments:

Sábado, Dezembro 20, 2003

Meus dois meses e alguns dias no sul trouxeram-me algumas surpresas, muitas delas dizem respeito ao jeito simples, e cauteloso das gentes daqui. Muitas vezes sinto-me um estrangeiro em terra de minha própria língua, apesar da forma interessante que eles fazem uso dela, nada que não possa ser compreendido, até agora eu conhecia o português paulistano e também o nordestino, que muito me apraz. Todo mundo sabe que eu me trato como nordestino, filho de trabalhador que saiu a luta na hora que foi necessário. Mas agora depois desses meses convivendo com todo vocabulário gauchesco, com o modo de ser gaúcho, apreciando um bom chimarrão com os amigos, vejo que não conhecia boa parte da cultura do meu querido Brasil.
Ganhei dois livros magníficos, provavelmente os melhores presentes que ganhei nessa minha vinda ao sul. Bota de Garrão não é uma simples compilação de prosas e poemas gaúchos, mas sim uma coleção de modos de viver que unem as três pátrias gaúchas.
Eu sou homem viajado e sempre apreciei diferentes culturas, talvez pela solidão me apaixonei pelo modo sulista de ser, talvez simplesmente pela simplicidade com que as gentes daqui vivem. Por isso vou copiar uns velhos changadores, gaudérios e teatinos, que originaram o modo de ser gaúcho, e saibam, gaúcho, pode ser brasileiro, uruguaio ou argentino, gaúcho é um modo de ser e não um rio-grandense qualquer!
Aqui tem cultura de primeira, culinária de finíssima estirpe, as vezes exagerada nas porções, uma musicalidade inacreditável e muita arte, aqui tem $$$. Quem tem $$% gosta de boa arte comida e cultura.
Chega de bláblaáblá e vamos ao que interessa:

Peão de Tropa

Nasci num rancho - cresci num rancho,
porém o rancho não é mais meu,
não tenho rancho - sou peão de tropa
cumprindo a sina que Deus me deu.

E assim vai a conversa e tropeando vamos!

Payador, Pampa e Guitarra (essa é pura música)

Payador - Pampa e Guitarra
Guitarra- Payador - Pampa
três legendas de uma estampa
onde a retina se amarra;
Payador,Pampa e Guitarra
flecos de Pátria e poesia,
alma - terra e melodia,
sangue de um no corpo do outro,
botas de garrão de potro
da lonca da Geografia.

Payador - alma e garganta,
emoção e sentimento,
melodioso chamamento
que da terra se levanta
parecendo, quando canta,
com entonação baguala
que as aves perdem a fala
e o vento apaga os rumores
pois pra escutar payadores,
até o silêncio se cala.


um belo chima e um bom cavalo fazem parte da alma gaúcha!

Mas prenda é prenda! Ô lugar de mulher bonita!
autor: Sexto

Comments:

Sábado, Dezembro 13, 2003

Hoje eu me perguntei: - Porque na véspera já se celebra? Na véspera a vespa não morre, ela ainda ferroa o intruso. Modelo convexo de um existir obtuso. Depois do sexto uísque as idéias já estavam confusas, a verdade fluía sólida como os vidros da catedral milenar, não dava mais para ser forte, nem bonito, nem inteligente! Até o terceiro ainda dava, mas iniciando o sétimo era impossível. A realidade voltava à tona, clara como o gelo que o garçom punha no copo automaticamente.
As atividades feitas repetidas vezes nos tornam estúpidos. Até o ato sublime de por uma pedra de gelo no copo deixa de ser uma arte após a sétima repetição.
O cinema deixou de ser a sétima arte depois da nona sessão (é essa a forma correta de se grafar esse fonema?). Queria continuar, mas o sono me perturba, amanhã acordarei exatamente 6 melhor se fosse 13, sairei da cama sem vontade, abrir o chuveiro e controlar as duas torneiras até que a água fique na temperatura certa será uma segunda morte (aí velho Quincas num és só tu). Tirarei a cueca que troquei a última vez a uns três dias atrás, a água vai jorrar forte, na temperatura certa (fui eu que escolhi), de vez em quando podemos escolher alguma coisa e nessas horas temos que aproveitar. Banho + ou - demorado, poderia ser mais, xampu fedido de hotel, gilete ruim de hotel, companhia ruim de hotel. Saio do chuveiro seco! O que é que eu faço aqui?
Só quero que Deus me ajude a fazer o impossível, o possível deixa que eu faço! O táxi sai a toda, o banho foi muito longo.

O Intervalo, Magrite- tudo que eu queria era um intervalo nese teatro non sense da existência.
autor: Sexto

Comments:

Terça-feira, Dezembro 09, 2003

Esse é em homenagem a suvakenta!

Sou profundamente contra a idolatria, mas existem certas pessoas que superam o nosso entendimento medíocre, consumista, capitalista, individualista e que tomam posições e assumem posturas invejáveis. Posso citar umas três ou quatro e os poria na lista dos grandes humanistas, idealistas e muitas vezes donos de posições utópicas e posturas invejáveis, o anarquista Kropotikin, talvez o mais radical lutador pela liberdade do ser humano, o multi-famoso CHÊ, tremendo guerreiro e humanista, o bem conhecido entre nós e não menos guerreiro, que deveria ser conhecido no universo, Luis Carlos Prestes, O Velho (militar e libertário) e o menos conhecido e provavelmente o mais combativo e combatido APOLONIO DE CARVALHO (militar e libertário). Repito aqui o "militar e libertário" para não acharmos que todo militar brasileiro seja um facínora, apesar de termos muitos em nossa história, mas temos muito civis facínoras também. Esse homem lutou contra todas as ditaduras que surgiram à sua frente, guerreou contra o generalíssimo Franco na guerra civil espanhola só por achar que era certo lutar, fez parte da resistência francesa contra o nazismo, achava o nazismo odioso, voltou ao Brasil e desceu o coro na ditadura militar foi expropriado de sua carreira militar (era coronel) por ser contra os "princípios morais e a nação" (?), foi exilado, continuou com a metranca na mão, sem ser anistiado voltou ao Brasil, fundou o Partido dos Trabalhadores (PT) e está vivo até hoje.
Foi anistiado na semana passada, como já deveria ter sido há muito tempo se não fosse a hipocrisia sórdida da nossa elite, incluindo aí o Fernandinho Burguesinho Cardoso (filhodegeneralditador) e recebeu a patente de general, para poder agora aos seus 92 anos de idade terminar a vida sabendo que lutou pelo que era certo, humano e honesto, independente do julgamento de uma meia dúzia de covardes que nunca tiveram a coragem de pegar no rifle e defender o que é certo, simplesmente porque o que é correto e humano tem que ser defendido, sem fronteiras e sem lucro, às vezes é preciso o rifle pra defender a verdade. O Sr. Apolônio de Carvalho é um exemplo que se fosse seguido e divulgado não haveria mais favelas no Brasil nem miséria no mundo, pois o primeiro que ousasse explorar alguém ia comer honestidade e se necessário porrada e chumbo.

Quem quiser ler mais tem um texto no sitio da fundação Perceu Abramo: http://www.fpa.org.br/especiais/apolonio/apolonio.htm

Tem uma biografia também, eu li faz tempo, acho que ainda da para achar nas livrarias.

Valeu!


Essa foto foi feita em uma festa do PT, ele só tinha 90 anos nesta data!
autor: Sexto

Comments:

Quarta-feira, Novembro 12, 2003

Manhã paulistana, garoa fina, saí da cama na mesma hora de todos os outros dias dos últimos anos, peguei a marmita, beijei a mãe e fui para o ponto de ônibus, mesmo ônibus mesmos passageiros mesmo motorista a rotina de toda segunda-feira se repetiria se eu não botasse a mão no bolso e encontrasse aquela bolinha. Sempre quis deixá-la quicar no marco zero de São Paulo para ver seu salto, seu duplipulo, duploquique! Desci no mesmo ponto da praça da república, lembrei do nome do nosso primeiro presidente, lembrei também que ele não foi eleito e que era militar, nosso destino republicano começou torto. Olhei para o prédio onde deveria bater o cartão de ponto e enfiar a cara em um arquivo estúpido de onde tirávamos fichas em que constavam dados das propriedades e posses dos clientes que pediam empréstimos para depois colocar todas elas novamente dentro do mesmo arquivo, no mesmo lugar, se não estivéssemos de saco cheio, logo após o Sr. Piegas analisá-las e dizer para quem daria dinheiro cobrando juros estratosféricos e fazendo piadinhas sobre pessoas famosas que constavam nos cadastros. Falei para minha marmita: Foda-se esta merda, hoje nós vamos para a Sé fazer a bolinha duplipular.
Andei pela 24 de maio em direção ao municipal, os camelôs estavam agitados com a chegada dos fiscais da prefeitura, lojas baixavam as portas recém erguidas, corre-corre e gritaria, um dia como todos os outros no centro, os repentistas falavam trezentas palavras por segundo, mas por alguma razão eu só entendia os palavrões que se intercalavam a outras palavras incompreensíveis e compunham um cordel escatológico: "Seu juiz......filho da puta, sua mãe..... da gamela frouxa... .......o ...nas ...........suas .coxas...gozou .......corno.........chifrudo ......perobo.........veado...lá pra puta que o pariu... " Passei rápido, os cavalariços estavam descendo a borracha até na sombra dos cavalos. Vi o Municipal e cruzei o viaduto do chá bem devagar, as luzes dos carros no vale do Anhangabaú pareciam uma cobra coral de um lado e uma mangueira de bombeiros fluorescente do outro. Aqueles dois malucos que adivinham o número de série das notas de dez e o RG dos desavisados estavam lá dando seu show, juro que nunca entendi como eles fazem aquela sacanagem, mas não tenho a menor dúvida de que é sacanagem, em centro, igreja e templo só tem sacana e o Chá é o centro, templo e igreja dos sacanas. Passei em frente ao Othon e lembrei que o pai do Cabeção era cozinheiro lá, fazia quitutes para bacanas e morava no buracão, mas nada se comparava ao seu arroz com feijão, se os bacanas pudessem comer um feijãozinho caseiro num sábado de sol jamais voltariam ao filé à chaca fria que eles comiam no Patriarca. Rua Direita, bolsa de valores, prédio do banco do Brasil, lojas de jeans baratos, os malucos gritando na porta: é jeans é cone é Levis, calça Lee, calça Levis e de Lave, sotaque de favelado misturado com Saint Paul e Soul Train. Virei à direita olhando a Catedral, esteta tem que ser frio e meticuloso como o Peter Greenway, pode falar o que quiser, mas a Catedral da Sé é perfeita, linda e inusitada, como uma mulher nua na avenida Paulista, atravessei a rua na frente do elétrico com o suspensório solto, xinguei o motoboy folgado que explodia o escapamento, cheguei, ou melhor, chegamos, minha marmita, a bolinha duplipulante e eu, entre a infância e a adolescência no marco zero. Catei a bolinha do bolso, beijei e soltei de cinqüenta centímetros de altura, como esperado ela dupliquicou e subiu a um metro, desceu novamente e subiu a dois, alguns bêbados que matavam o último gole da garrafa de velho se chegaram e ficaram olhando a bolinha baixar, quicar e subir, exatamente ao dobro da altura de onde começou a descer, um deles fez o sinal da cruz e saiu de rolê resmungando: só pode ser coisa do coisa ruim. A bolinha insistia em demorar o dobro do tempo para voltar, no inicio ficamos lá eu e os bêbados, minha marmita eu dividi com um mengalvo que parecia estar na merda mesmo. Amanhã se a ressaca deixar vou ver se consigo chegar até o telhado do Fórum para ver a volta da bolinha, pois uma multidão de crentes, idiotas e desvalidos, assim como alguns repórteres de TV, que são o resumo de Ana, fazem plantão de até uma semana para ver a bolinha quicar.
O Piegas deve estar puto, eu e o negão da cidade Tiradentes não aparecemos na repartição, e ele não tirou a bunda da cadeira um minuto, não concedeu nenhum empréstimo, já que não havia pirralho para coletar fichas, pelo menos foi isso que gostosa da Margô me contou no hotelzinho do Careca onde nos encontramos tantas vezes depois de um dia de merda, mas aquele dia foi diferente.

O Chá, primeiro viaduto de SP e a Catedral

autor: Sexto

Comments:

Quinta-feira, Setembro 04, 2003

Quando eu era moleque, mas bem moleque mesmo, talvez eu tivesse uns sete ou oito anos, como todos moleques desta idade, eu costumava sonhar com as coisas mais absurdas e impossíveis. Hoje eu me lembro de algumas delas e vejo que apesar de quiméricas, essas idéias tinham algum sentido. Na sala de aula da escola onde fiz o curso primário havia na parede uma foto do ditador de plantão com a faixa presidencial e um relógio. Até hoje quando vejo uma pessoa com a faixa presidencial cruzando o peito do paletó, associo esta imagem aos ditadores. Quanto ao relógio, era um relógio redondo de fundo branco com ponteiros e números grandes que espetacularmente marcavam a hora certa, era um por classe, todos meticulosamente ajustados entre si e com o relógio que disparava a sirene ao término das aulas.
Só descobri que era a dona Nena que tocava o sinal para nos avisar do início ou do fim das aulas quanto já estava quase terminando o curso primário num dia que eu saí para ir ao banheiro e ao retornar para sala pelo corredor imenso vi a dona Nena levantar-se ir até o botão e apertá-lo fazendo zumbir a sirene para o recreio, contei para todo mundo euforicamente e percebi que eu era o único que acreditava que o sinal era disparado por algum dispositivo ligado aos relógios e não pela dona Nena. Nesta época meu pai me deu um relógio de pulso, fundo azul, orgulhosamente fabricado na USSR (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), fato que eu também fazia questão de dizer aos meus amigos e eles não davam a importância que o relógio e sua origem mereciam. Você imagina o que é ter um relógio comunista em plena ditadura militar? Era o cúmulo da rebeldia e eu ainda não tinha nem 10 anos.
Eu desgostava tanto das minhas aulas que este fato levou-me a criar a teoria dos relógios sincronizados, onde o meu relógio azul, mas comunista, imaginem se fosse vermelho, ao ser adiantado ou atrasado faria com que todos os outros relógios do planeta obedecessem a meus comandos e se adiantassem ou atrasassem conforme meus desejos eram transmitidos ao relógio azul-revolucionário. E como na época da elaboração da teoria eu ainda achava que a sirene era ligada ao relógio e não a mão da dona Nena, eu sonhava em ANARQUISAR a escola adiantando e atrasando os relógios de modo que a sirene ficasse doida e enfurecida. Hoje vejo que desde de sempre os homens quiseram dominar o tempo, criaram teorias, tecnologias, cirurgias, mas o tempo continua vencendo a batalha, ainda bem. O relógio azul, naquela época era invencível e de quantas aulas idiotas ele não me ajudou a me desligar enquanto eu sonhava com as maiores trapalhadas que eu poderia fazer alterando os relógios do mundo.


Os relógios e o Ditador (pensei muito antes de por a foto desse Sr. aqui, mas ele já é parte da história, tristes tempos. Médici!)
autor: Sexto

Comments:

Sexta-feira, Agosto 08, 2003

Não conseguia entender o que estava acontecendo, tudo que ele havia construído até aquele momento estava implodido, todos os pilares transformados em pó instantaneamente, cada milímetro do edifício de sua existência eram demolidos com competência pela própria existência o problema era que o processo ininterrupto de desmanche não cessava, cíclico e doloroso, moto perpétuo, sentia a necessidade de reconstruir o alicerce e os pilares novamente e cada vez mais fraco, produzia estruturas menos vigorosas que implodiam-se com mais facilidade, mas tudo continuava, como uma conta de dividir feita por uma máquina de infinitos algarismos onde se dividia sua vida pela metade e ele ficava com uma parte apenas e em pouco tempo essa parte era dividida novamente em outras duas e só uma lhe pertencia e a cada divisão sentia-se inferior, fraco e desnecessário, ainda assim lutava e punha uns tijolos sobre outros para tentar reconstruir o que jamais seria a mesma estrutura que foi um dia.
Buscava forças em alguma coisa que ainda o deixasse feliz, amigos, trabalho, a mulher que amava, nada parava a máquina de dividir sua vida, a única coisa que aumentava era seu desespero e angustia, decidiu por fim aquele processo, só ele poderia mudar aquela situação.
Sexta feira, saiu mais cedo do serviço, passou na pensão, pegou a bicicleta um casaco e o espelho, amarrou cuidadosamente o espelho na garupa, despediu-se do senhorio, dos gatos vira-latas que tomavam sol na grama, do galo que cantava todas as manhãs lembrando a todos que era hora de ir ao trabalho, pedalou durante horas sem destino, pensou em cada episódio de sua vida e recriminou-se pelas decisões e atitudes que havia tomado no passado, eram elas que o perturbavam e não havia nada que o permitisse mudá-las, antigamente sentia vontade de chorar quando se lembrava de certas passagens, agora, já calejado pelas pancadas repetitivas que insistentemente acertavam o mesmo ponto, não sentia mais vontade de chorar, mas apesar disso, lágrimas corriam de seu rosto e enganando-se mais uma vez atribuía as lágrimas ao vento que soprava forte na direção contrária à que seguia, até o vento está contra.
Anoiteceu e ele continuou pedalando, não sentia nenhum cansaço, nenhuma dor a não ser aquela que trazia consigo a tanto tempo, inseparável, na sua frente surgiu uma subida íngreme, desceu e empurrou a bicicleta ladeira acima, a cada passo sentia-se mais longe, menos seguro, sentiu necessidade de voltar a sua terra natal, talvez lá estivesse sua salvação, a redenção de seus remorsos a purificação de rancores de si mesmo, os únicos rancores que tinha eram de si mesmo. Não carregava raiva de nada nem de ninguém a não ser de si mesmo e como era inevitável, aquelas dores andariam por todo o caminho ao seu lado, lembrete infalível de suas feridas, mercúrio às avessas de suas chagas, até quando dormia essas memórias o atormentavam em forma de pesadelo, parecia um comercial de cerveja que a cada intervalo do filme era repetido. Deitou na beira da estrada e tentou acreditar que naquela noite seria deixado em paz pelos pesadelos. Os carros passavam velozes ao seu lado, será que onde eles iam seria melhor?


Solitude, Chagal 1933
autor: Sexto

Comments:

Segunda-feira, Julho 28, 2003

Havia chegado a grande hora de testar sua desculpa com a Lurdes, mas com a desculpa da bicicleta nova, que lhe custou quatro fins de semanas sem gastar nada, resolveu não ir até a praça. Já não estava tão frio o que lhe deu um certo animo para dar umas pedaladas, pensava consigo, só um idiota como eu para comprar uma bicicleta! Na quinta feira seu corpo já não quer fazer nenhum movimento e até que termine de pagar a bicicleta seu único laser será movimentar-se, tremenda falta de planejamento diria seu inspetor, como sempre diz quando ele atrasa cinco minutos na descarga de uma carreta que leva cinco horas.
Já fazia duas semanas que morava no mesmo lugar e a pensão passava a ser seu lar, tinha alguns colegas com quem conversava antes de deitar-se, todos eles com suas histórias, todas histórias com algo em comum, violência, abandono, necessidade extrema.
Pedalar como nadar são esportes excelentes para se divagar, viajar a outros tempos e lugares, imaginar as mais impossíveis quimeras construir os mais espetaculares e complexos planos. E foi com essas idéias que pegou a rodovia em direção aquela cidadezinha que já fazia quase vinte anos que não visitava, igreja de colunas e vãos imponentes, doces caseiros, leite quentinho de manhã, com café coado em coador de pano, sabão de banha e cinza, carro de boi barulhento cantando como cigarra no cio. Será que após tanto tempo ainda encontraria alguém que conhecesse, na pior das hipóteses faria uma visita ao cemitério, pelo menos nas lápides poderia encontrar um tio ou um primo.
Na mochila levava um sanduíche de mortadela, uma garrafa de água e umas bananas, alguém lhe disse que eram boas em caso de câimbra e ele resolveu experimentar.
Lembrou de sua infância, vagamente, falta de comida enfraquece a memória, deteriora a percepção, aguça a capacidade de não se desesperar.
A viagem de caminhão levou dias rasgando deserto e gerais, cruzando alguns rios em pontes frágeis como suas pernas finas de garoto subnutrido do sertão, não acreditava que resistiriam ao peso do caminhão carregado de retirantes assim como ninguém acreditava que suas pernas resistiriam ao peso de uma existência tão miserável. - Agora são elas que me levam nessa viagem desnecessária!
Lembrou-se da parada, onde um homem da estação lhe deu um doce, se a bicicleta agüentar no final do ano jurou que vai pedalar de volta até a estação para comer aquele doce novamente, única lembrança que lhe agrada de sua mudança. A casa de pau a pique nunca foi tão boa quanto naqueles dias de sacolejo e melhor ainda nas noites frias sob a ponte que cruzava o rio podre com a barriga vazia, ao vir até a estrada preferiu não cruzar o rio pela ponte onde foi inquilino durante tanto tempo.
Podia avistar a torre da igreja, seu coração começou a sofrer mais que suas pernas. Parou, tomou um gole de água, comeu o sanduíche, duas bananas e decidiu não descer até o vale onde ficava a cidadezinha, com sua igreja, seu cemitério e suas lembranças, pedalou de volta para a pensão enquanto o dia ainda o protegia. Amanhã vai visitar a Lurdes.


Fachada e mural da Igreja Matriz
autor: Sexto

Comments:

Sexta-feira, Julho 11, 2003

Parede de Pensão

Julho, sábado, muito frio! Ele estava naquele estado em que não se dorme nem se está alerta, enrolado nas cobertas não queria que as horas passassem assim poderia desfrutar daquele conforto quente que só a própria cama proporciona. Mesmo contra sua vontade, algumas horas inevitavelmente se passaram e o rapaz ficou mais alerta do que desejava, nem as horas nem seus sentidos o respeitavam. Decidiu levantar-se para provar que era senhor dos seus desejos e vontades. O corpo, insubordinado, insistia em desfrutar o calor da coberta, mas prevaleceu, pelo menos desta vez sua decisão, caminhou até o banheiro minúsculo conjugado ao seu quarto. Estes dois cômodos eram seu império. Abriu o chuveiro, a água corria pouca e na temperatura perfeita, fervendo. O vapor espalhou-se pelos dois ambientes, embaçou os vidros e o espelho velho que ele julgava inquebrável. Já havia mudado de um quarto para outro por toda a cidade e o único objeto que resistira a todos seus infortúnios era aquele espelho, testemunha ocular de suas agruras. Muitas vezes ele olhava para o espelho e não sabia distinguir o objeto de si mesmo, acreditava que só um ser vivo com a força e o desejo irracional de manter-se vivo, resistiria tanto tempo a tantas intempéries e sadismos a que ambos haviam sido submetidos nos últimos anos.
Despiu-se, abriu a cortina encardida e deleitou-se com a água quente que acariciava seu corpo dolorido de chapa, na sexta havia descarregado um caminhão de televisores e aparelhos de DVDs importados e outro de refrigeradores, sem ajuda e com a obrigação de terminar o serviço no prazo, trabalhava por empreitada e qualquer atraso representaria diminuição do seu pagamento minguado e uma nova mudança de endereço. A diária da pensão era cobrada inexoravelmente antes de se subir ao quarto e o não pagamento tinha um único reflexo. Despejo!
Nunca teve a oportunidade de sentar-se em frente a um daqueles aparelhos com uma cerveja gelada em suas mãos, mas não o desejava também. Lembrou-se de um filme japonês antigo que ele assistiu numa exibição pública, um samurai, depois de uma batalha longa e sangrenta volta aos seus domínios e é banhado em água quente e massageado por uma serviçal solicita. Aqui na pensão a água fervendo do chuveiro velho tem dupla função é sua purificadora e gueixa!
Depois de terminar o banho demorado vestiu-se com quase tudo que possuía, pois o inverno havia chegado impiedoso. Foi até a padaria da esquina, tomou um pingado e comeu um pão com manteiga na chapa, olhou rapidamente o caderno cultural do jornal, apesar de não ser homem de gosto refinado, sabia que podia encontrar diversão gratuita para matar as horas e distrair-se. Sempre procurava pelos espetáculos do teatro S.P., prédio que ele admira desde a primeira vez que teve o privilégio de visitá-lo, muitas vezes ia até lá nem tanto para apreciar o espetáculo que estava sendo exibido, mas principalmente para admirar as tábuas longas do piso do anfiteatro.Sempre jurou para si mesmo que um dia teria uma casa com um piso de tábuas extamente como aquelas. Além disso, era perto da pensão e não precisava humilhar-se pedindo para passar por baixo da catraca do ônibus e depois ter que rastejar no chão com sua roupa de passeio.
Nesse dia estava sendo exibido um espetáculo de balé com orquestra tocando ao vivo, porém não era gratuito e a mocinha do caixa, feia que ela só, mas que ele paquerava somente para conseguir entradas nesses dias em que elas eram cobradas, estava de férias.
Nem todo dia é dia de sorte e não queria gastar dinheiro com a entrada do teatro, já havia planejado ir a um forró e tomar uma cerveja o que comprometia todo seu orçamento do final de semana.
Seguiu caminhando, parou na praça onde as mulatas vestidas de branco levam os branquinhos vestidos de ricos para tomar um pouco de ar fresco nos finais de semana e onde com freqüência ele arranja companhia para o forró. Desta vez não foi diferente, com o encontro marcado seguiu caminhando ladeira acima. Admirou a casa antiga que deveria ser museu mas é banco, a construção moderna da escola de arte onde nenhum artista estuda, pelo menos nenhum que ele goste, já que artista sempre nasceu artista, nunca viu artista aprender na escola. Sempre soube que o leproso-escultor de sua cidade era analfabeto, pelo menos foi o que disseram no internato!
Continuou caminhando sem prestar atenção em mais nada, passou na porta de um museu patrocinado por instituição financeira atrás de isenção fiscal e ficou admirado com a foto na entrada. Decidiu dar uma olhada, pelo menos não precisava pagar e dava para matar uma horinha caso as fotos dentro não fossem tão boas como a que estava no cartaz da porta. Parou em frente a uma das fotos e levou alguns segundos para entender o que era, admirou embasbacado aquela fileira de homens enlameados subindo um morro, atrás do que, ele se perguntou. Continuou admirando cada detalhe de cada película, a cada passo um susto, jamais havia visto o mundo daquele ponto de vista, jamais havia vislumbrado a possibilidade de existir beleza na miséria, na sua miséria. Saiu da sala de exposições e comprou uma cópia das fotos que mais gostou com o dinheiro do forró. O que diria para Lurdes? Teve a semana inteira para inventar uma desculpa convincente, porém durante toda a semana não conseguiu descobrir o porque daquela montanha de homens sujos e daquela bicicleta lhe serem tão atraentes. Decidiu comprar uma bicicleta para ir mais longe no próximo final de semana.


autor: Sexto

Comments:

Terça-feira, Junho 17, 2003

O fim de Iran Iliodoro.

Iran Iliodoro nasceu no Rio de Janeiro na segunda metade do século XX, foi uma criança sossegada e sem muitos problemas. Filho de família de classe média cuja única ambição era ser uma família tranqüila de classe média, o pai, burocrata dedicado de médio escalão, a mãe, dona de casa também dedicada. Concluiu os estudos fundamentais em escola pública e nunca ambicionou sucesso nenhum, seguia os passos do Pai.
Porém, por ter um agudo senso de responsabilidade acabou destacando-se no trabalho e progredindo profissionalmente, mesmo sem que isso lhe trouxesse nenhum prazer extra a não ser uns mirrados aumentos no salário e volumosos aumentos nas responsabilidades e cobranças, talvez, algumas vezes se sentisse orgulhoso por ter alcançado esse progresso, mas assim que raciocinava a respeito do assunto frustrava-se e culpava-se por não ter dado outro rumo à sua vida.
Iran Iliodoro casou-se, como haveria de ser, e teve um filho.
Nesse momento de dor e sofrimento recordava-se de sua vida. Lembrava-se dos colegas de ginásio no Meier, das poucas namoradinhas do colegial e de seus fracassos esportivos, pois era franzino e de poucas virtudes atléticas.
Engessado dos pés ao pescoço, após aquele acidente absurdo, naquela cama no hospital, imóvel ia buscando nos mais obscuros refúgios de seu cérebro algo que fizesse sua vida até aquele momento ter tido algum significado, as lágrimas desciam pelo seu rosto e nariz devido à impossibilidade de encontrar resposta às suas perguntas mais simples.
Resolveu rever sua vida dia a dia, segundo a segundo para tentar encontrar algo que fizesse valer a pena ter chegado até aquele momento que parecia ser a véspera do último. Pensou no colo quente da mãe, nas professoras primárias, nas brincadeiras com os amigos e de vez em quando sorria, um sorriso simples de criança que sugeria um segundo de felicidade, foi seguindo firme em minuciosa análise, lembrou dos melhores amigos do tempo de adolescência, o que restou deles? Lembranças diáfanas que não lhe remetiam a nenhum outro sentimento a não ser a indiferença, não pelos amigos, mas pelas marcas que eles deixaram em sua existência, marcas tão imperceptíveis como uma minúscula gota de leite no avental branco da escola. Lembrou dos dissabores de antigos amores que agora não tinham a menor importância, o amargor e a angustia a que se submetia fazia aqueles dissabores terem o mesmo gosto bom do doce de leite com goiabada que ele comia nos dias de festa de aniversário. Mesmo essas recordações não faziam em nada suas dores sucumbirem, nem mesmo por um instante.
Chegou rapidamente ao primeiro emprego, arquivando documentos desnecessários em gavetas de lata intermináveis para no outro dia retirá-los e no seguinte recolocá-los exatamente na mesma posição que estavam no dia anterior. A má colocação de um desses papéis gerava telefonemas, memorandos e muitas vezes uma visita nada cordial do chefe do departamento que lia o jornal na sala do andar superior. Desse emprego foi a outro onde progrediu muito e passou para a sala superior sem que isso lhe fizesse sentir nem um pouco melhor, pois percebia a desnecessidade dessa posição e de outras que veio a assumir no decorrer dos outros vinte anos que se passaram. Pensou no seu casamento regado a pouco sexo e muitas brigas. Os poucos momentos que tinha disponíveis para ficar com a família periferia bebericar alguma coisa no bar da esquina e ler algum livro que também não significava o mesmo agora como havia significado quando fora lido. Voltaire, Dante, Cervantes, Machado e tantos outros que pareciam ser o supra-sumo da alma humana agora estavam reduzidos a nada, um indiscernível nada. Durante dezeseis anos acordou, dormiu, bebeu e comeu quase sempre no mesmo horário e quando não, foi porque precisou estender sua jornada de trabalho, não por mais dinheiro, mas por aquele inabalável senso de responsabilidade. Agora todo engessado, com um cabo de vassoura atando seu braço ao abdômen e outro mantendo suas pernas separadas. Os pedaços de cabo de vassoura tinham uma função específica, principalmente tinham a função de impedi-lo de fazer o que já deveria ter feito há muito tempo.
Numa segunda feira de manhã, no meio do verão a vinte anos atrás deveria ter saído de casa a pé e sem camisa e caminhado pela praia e não ter parado nunca mais, assim aquele ônibus desgovernado às vinte horas não o haveria deixado nesta situação, sua vida não haveria.


Um dia nós a conheceremos, mesmo que o ônibus não venha.

autor: Sexto

Comments:

Segunda-feira, Junho 02, 2003


I- "O pintor, ligeiramente afastado do quadro, contempla o modelo; talvez se trate de dar um último toque mas também é possível que ainda não tenha dado a primeira pincelada. O braço com que segura o pincel está voltado para a esquerda, na direção da paleta, e detém-se, um instante, entre a tela e as cores. A mão hábil está suspensa do olhar; e o olhar, por sua vez, repousa no gesto imobilizado. Entre a fina ponta do pincel e o gume do olhar o espetáculo vai liberar seu volume".
II- "Não, porém, sem um sutil sistema de rodeios. Distanciando-se um pouco, o pintor colocou-se ao lado da obra a que se aplica. Quer dizer que, para o espectador que o contempla agora, ele se acha à direita do quadro em que trabalha, o qual ocupa a extremidade esquerda da tela".
III- "Para o mesmo espectador o quadro fica de costas: apenas se pode distinguir a parte de trás, com o imenso caixilho que o suporta. O pintor em compensação é perfeitamente visível em toda sua estrutura...".
IV- "O pintor olha, com o rosto ligeiramente voltado e a cabeça inclinada para o ombro. Fixa um ponto invisível, mas que nós espectadores podemos determinar facilmente, pois esse ponto somos nós mesmos: o nosso corpo, o nosso rosto, os nossos olhos. O espetáculo que ele observa é, portanto, duas vezes invisível, pois não está representado no espaço do quadro e se situa precisamente nesse ponto cego nesse esconderijo essencial em que nosso olhar se subtrai a nós mesmos no momento em que olhamos".
V- "Mas, inversamente, o olhar do pintor, dirigido para um ponto vazio, fora do quadro, aceita tantos modelos quantos os espectadores que lhe apareçam; nesse lugar preciso, mas indiferente, o contemplador e o contemplado permutam-se intensamente. Nenhum olhar é estável, ou antes, no sulco neutro do olhar que trespassa a tela perpendicularmente, o sujeito e o objeto, o espectador e o modelo invertem os seus papeis permanentemente."
VI- "Em cada par de personagens um olha para frente, a outra para a direita ou para a esquerda. Estes dois grupos correspondem-se e formam pares tanto pela posição como pela estrutura: atrás os cortesãos (a mulher à esquerda olha para direita); à frente, os anões (o rapaz que está na direita dirige o olhar para o interior do quadro)..."



"Talvez seja melhor determinar, de uma vez para sempre, a identidade das personagens presentes ou indicadas, para não nos enredarmos constantemente nessas designações flutuantes, um pouco abstratas sempre suscetíveis de equívocos e de desdobramentos: "o pintor", "os modelos", "os espectadores", "as imagens". Em vez de persistir incessantemente numa linguagem fatalmente inadequada ao visível, bastaria dizer que Velázquez compôs um quadro; que nesse quadro ele se representou a si próprio, no seu atelier ou numa sala do Estoril, a pintar duas personagens que a infanta Margarida vem contemplar, rodeada de dueñas, de damas de companhia, de cortesãos, de anões; que todas as figuras se podem atribuir os seus nomes... Mas a relação da linguagem com a pintura é uma relação infinita. Não que a palavra seja imperfeita, nem que, em face do visível, ela acuse um déficit que se esforçaria em vão para superar. Trata-se de duas coisas irredutíveis uma à outra: por mais que se tente dizer o que se vê, o que se vê jamais reside no que se diz , o lugar em que estas resplandecem não é aquele que os olhos projetam, mas sim aqueles que as seqüências sintáticas definem..."

Este texto é do livro "A Palavra e as Coisas", de Michel Foucalt. Dei um jeito na grafia das palavras pois é uma edição portuguesa de 1966, tentei não mudar a ordem das coisas ou das palavras.

Publiquei a mesma foto duas vezes pois acho imprescindível que se leia o texto e olhe-se para o quadro, espero ter facilitado as coisas.
Como a própria análise indica, é impossível descrever o que vemos e até o que pensamos e sentimos através das palavras, pois são categorias de estruturas distintas. Mediante esta impossibilidade, encerro o Ataraxia hoje e só voltarei aqui um dia se surgir algum fato que realmente tenha alguma relevância para mim ou se minha vaidade obrigar-me.
Abraços e enquanto der manterei o mesa.


autor: Sexto

Comments:

Sábado, Maio 24, 2003

Faz bastante tempo que eu não apareço aqui na bloggera, o trabalho realmente tem me consumido, mas hoje não reclamarei do trabalho, mas sim do barulho. Por isso vou discorrer sobre um assunto que vem me incomodando cada vez mais.

BUZINA E BOM SENSO, FALTA DELE! (Delírio coletivo)

Ontem eu estava voltando para casa e como sempre o trânsito estava horrível, chovia muito e obviamente eu e os vinte milhões de lunáticos que vivem nesta cidade estávamos impacientes, irritados e morrendo de vontade de chegar em casa, saborear o beijo de nossas mulheres, o descanso de um banho demorado, o relaxamento de uma cerveja gelada e o conforto de uma janta quentinha. Mas entre nós e esses prazeres estavam as ruas atulhadas de carros, os semáforos quebrados e a impossibilidade de fazer qualquer coisa para nos livrarmos desta situação. Preso no carro, fumando um cigarro e querendo ter a capacidade de me tele-transportar, penso que a calma é a única virtude a que posso recorrer neste momento e procuro mantê-la até que um carro começa a buzinar, nós estamos em frente a um hospital e claramente eu vejo o sinal, aquele da corneta cortada por uma facha vermelha, o barulho me incomoda de tal forma que eu tenho vontade de descer do carro e ir conversar com o senhor de uns cinqüenta anos que não tira a mão da buzina, mas se este senhor está irritado a este ponto provavelmente se eu for lá explicar que estamos em frente a um hospital, que existem pessoas que estão sofrendo mais que nós todos e que sua buzina é como um alfinete que vai penetrando nossa carne já ferida por outras agruras e que se ele não parar eu vou sapatear no capô do seu carro importado, provavelmente ele vai querer brigar e eu agüento firme dentro do meu carro e os pacientes dentro do hospital. Um segundo carro buzina e eu penso que quem buzina realmente é o veículo, sem o consentimento do seu condutor que imediatamente passa a ser conduzido por aquele rio de carros como um barco à deriva, todos os carros revoltam-se e buzinam ensurdecedoramente, os carros são surdos e não se preocupam com nossos sentidos, para eles esse caos não faz sentido. Quando foram fabricados sonhavam com viagens longas através de paisagens paradisíacas e o que nós oferecemos a eles é transito e caos e eles nos recompensam com buzina e mais caos. O farol abre vagarosamente vou virando a direita passo o posto e a sinagoga as pessoas com aquelas roupas peculiares caminham felizes já passa das sete viro à esquerda e desço a Gabriel, mais duas quadras e vou me livrar desses dissabores e saborear o beijo, o banho, a breja e o rango. Amanhã é sábado, pelo menos não tem trânsito nem buzinas.
Este texto foi escrito ao som de John Coltrane, mais especificamente do CD the best of Coltrane que é de primeira.
Abraços.

Se você é incapaz de fazer um som como Coltrane, por favor não faça nenhum outro.
autor: Sexto

Comments:

Quinta-feira, Maio 08, 2003

Opúsculo sobre o trabalho ou Um elogio ao ócio.

As opiniões que aqui seguem são pessoais e não são frutos de nenhuma pesquisa histórico sociológica sobre o que é o trabalho.
Fiquei durante algum tempo analisando como e porque os outros animais da natureza trabalham, em geral, eles trabalham para sobreviver, caçando de alguma forma seu alimento, mesmo os animais herbívoros promovem imensas caminhadas a caça de relva verde que trará seu sustento. Alguns, além de trabalharem pelo alimento, trabalham para construir suas casas usualmente na época de reproduzirem-se, afora essas duas tarefas jamais buscam o acumulo de bens que não seja a comida necessária na estiagem. Alguém já viu um pássaro construir dois ninhos para alugar um deles?
Nos seus primórdios o ser humano parecia seguir o mesmo rumo, alimentar-se, proteger-se e, além disso, manter-se vivo também não era tarefa fácil e dava um certo trabalho.
Os homens mudaram, "evoluíram", o restante dos animais não. Existem inúmeras teorias que ponderam onde e quando passou a surgir o censo de propriedade no ser humano e me parece que essa necessidade de possuir é que fez surgir o trabalho na forma que conhecemos hoje, alguns acham que é uma evolução, pois o trabalho hoje é livre, ou seja, não somos escravos. (não?). Não me interessa onde se encontra na história esse lapso que nos transformou em escravos-livres.
O trabalho além de aviltante é reificador de modo que o que somos está reduzido ao que podemos produzir de bens materiais para outrem e em que quantidade e valor. A virtude de um homem hoje é medida pela sua capacidade de produzir riquezas e essa forma de medir nossa virtude é maquiavelicamente apurada e desenvolvida pelos detentores do poder econômico que ao nos medirem pela nossa capacidade de os deixar mais ricos nos transformam em máquinas e a partir do surgimento de uma nova versão somos descartados. O desenvolvimento tecnológico, a priori, não trouxe nenhum benefício ao ser humano visto que a grande maioria das pessoas não tem acesso a ele e, os que têm e vangloriam-se deste fato, são aqueles que levam o computador portátil para casa e trabalham mais três ou quatro horas, depois das dez que já passou no escritório e sentem-se privilegiados. Que privilégio imbecil é esse onde nos privamos de ler um bom livro, conviver com nossos amigos e amantes e ficamos gerando riqueza para os outros e perpetuando nossa própria miséria.
O trabalho coisifica o ser humano no momento em que elimina toda e qualquer possibilidade de sermos humanos, raciocinarmos para produzir algo abstrato, abstrair para produzir algo atraente, belo, que aguce o intelecto. O trabalho é contra a criação, a criação depende do ócio. A lei da gravidade foi formulada por um homem sentado sob uma árvore e não construindo um prédio, de onde usualmente os homens despencam sem saber o que é gravidade e sem perceber a gravidade do problema que o trabalho imbecil causa ao ser humano.
Abraços.


Chaplin mandandoporrada na escravidão moderna e uma foto chamada "operários" o único momento que somos belos.
autor: Sexto

Comments:

Terça-feira, Maio 06, 2003

Dull

Em inglês quer dizer, sem fio, como uma faca feita de metal vagabundo ou sobre utilizada de forma que vai perdendo sua força, seu poder de cortar. Usa-se também para falar de uma pessoa, que como a faca, ou rendeu-se ao desgaste da superutilização ou era feita de metal ruim, possibilidade mais remota ao meu modo de ver. Também podemos utilizar para uma situação ou momento, como o que vivemos hoje, a guerra acabou exatamente do modo como era esperado, apesar de ser guerra, pouquíssimos sobressaltos. O "governo" do Iraque vai sendo recomposto, imposto ao gosto do imperador de plantão, até que daqui a alguns anos não sirva mais e volte a ser deposto.
O Lula e a elite petista (seria estúpido se não fosse real a existência de uma elite dentro de um partido que se julgava libertário) vão fazendo o óbvio, mas até ontem inesperado, jogo das elites (a palavra assim como a história se repete, elite, elite) e quem diverge degola-se. Espero que o Baba a Heloisa e o Paim não percam o fio e continuem lutando pelo que sempre defenderam sem fazer esse jogo sujo que só continuará massacrando os pobres. Repito, fomos ingênuos ao achar que mudaríamos algo usando as armas do inimigo, eles só nos deram as defeituosas.
O Beira-Mar, sempre ele, está sendo mudado novamente, o Rio de Janeiro continua lindo não fossem as balas que se perdem e matam e ferem estudantes, crianças e transeuntes. A violência deixou de chamar a atenção, perdeu o fio também. Os filmes do Tarantino e do Peckinpah parecem seção da tarde se comparados com as tardes nas seccionais policiais da Rocinha e do Capão.
Hoje, até o dia está desafinado, plumbeo, sem fio e junto com ele, eu.
O tempo vai passando e nosso fio vai engrossado, a ponto de ficarmos indiferentes à miséria, aos amigos, à poesia, à dor e à morte. Vamos deixar de ser facas cegas e tomar uma atitude, brindemos ao século XXI, saúde!


.
Uma! No comments
Sam Peckinpah! Selvagem nos filmes e na vida!

autor: Sexto

Comments:

Domingo, Abril 27, 2003

Ilha Bela


O sol não havia nascido e o velho já estava preparando sua "tralha" , como ele mesmo costumava chamar seus apetrechos, escolhia os anzóis que levaria naquele dia, um a um, os punha próximos ao rosto, fechava um dos olhos e examinava as pontas para ver se continuavam afiadas o suficiente para cumprirem sua função. Usa de sua experiência para escolher as linhas também, dentre as centenas de opções que ele tinha em seu depósito sempre escolhia as mais adequadas, ele já sabia de antemão o que enfrentaria, cada detalhe era importante, para cada anzol e linha escolhia um encastôo, um chumbo e até o pedaço de sarrafo cortado em "V" nas pontas para enrolar a linha era importante, ele se apegava aos mínimos detalhes e eu admirava a incomum conjunção de paciência, sabedoria, técnica e paixão.
Depois de separados cada item era necessário uni-los, cada linha ao seu sarrafo, cada anzol ao seu encastôo, cada encastôo à sua linha e chumbo. Nós atados e desatados num processo meticuloso que para o espectador leigo poderia parecer desperdício de tempo, mas para alguém mais experiente era como uma aula de música ministrada por um grande maestro, suavidade, sensibilidade e controle.
Já com o material arranjado e dentro da sacola, ele andava pelo quintal, chamava o cachorro, pegava a garrafa de água, o sanduíche de filé de baiacu que era uma delicia e punha-se a andar pelo trilho que ele mesmo traçou no transcorrer da sua vida, passando por entre as árvores até chegar no riacho de água transparente e gelada que descia até a praia.
Quando ele chegava à praia já estava clareando o dia, desatava o nó que prendia sua canoa na árvore, verificava o remo e a poita, punha a sacola com a tralha dentro, fazia um último agrado no falcão e saia remando devagarzinho sem fazer barulho, no começo do inverno dava para ver as algas cintilantes brilhando a cada batida do remo.
Um dia ele contou-me que não tinha saudade de muitas coisas ou pessoas, mas que o primeiro remo que ele fez com ajuda do seu pai e que utilizou por mais de 30 anos havia caído do barco e sumido num dia que um noroeste imprevisível entrou pela baia destruindo tudo, ele disse que remou tão rápido para fugir da tempestade que se alguém estivesse em um barco com motor de poupa não o alcançaria e até hoje quando ele vai pescar pelas bandas do norte na volta ele vem costeando para tentar re-haver o remo. Depois ele concluiu: - Sabe, eu fiz outro idêntico, mas não é aquele!
O falcão deita na areia e espera paciente pela volta do seu dono, o dia vai avançando tranqüilo, um grupo de turistas barulhentos e inadequadamente vestidos passa pelo cais tirando fotografias de tudo, compram um quilo de camarão rosa pelo dobro do preço e acham que fizeram um negócio da china, o pirangueiro ri de felicidade e faz graça com o dinheiro fácil que acabou de ganhar.
Lá no horizonte vejo a canoa apontar, só pela precisão, regularidade e ritmo das remadas eu sei que é ele, não importa se pegou muito ou pouco, o ritmo do remo é sempre o mesmo.
Ele encosta a canoa, eu o ajudo a puxá-la até a mesma árvore de sempre e pergunto: - Como foi hoje?
E recebo a mesma inabalável resposta: - Calmo!



Um dos lugares mais interessantes que eu tive o privilégio de visitar à exatos 20 anos e a Canoa!
autor: Sexto

Comments:

Segunda-feira, Abril 21, 2003

Como havia dito aproveitei o final de semana para ler alguma coisa e li, Alexander Soljenitsin "Um dia na Vida de Ivan Denisovith". Também assisti à uns filmes, tomei umas cervejas um vinho, comi e descansei um pouco. O livro é curto, rápido e foi uma cacetada no regime Stalinista, mas só foi publicado na era Kruchev, que ao autorizar a publicação admitiu ter que expor certas verdades sobre o regime e o partido que, como sabemos, infelizmente, Stalin foi tão ditador e assassino como os piores ditadores e assassinos foram, mas ainda resta a esperança de que homens melhores virão. Para engatar a conversa, que absurda essa história do Fidel fuzilar os dissidentes sem piedade, isso acaba com as nossas esperanças, se não acaba diminui e muito. Mas nós já sabíamos que ele sempre foi um camarada violento e de índole ditatorial, apesar de muitas outras virtudes esses vícios são inadimissíveis. Independente disso, a resistência de Cuba e do seu povo ainda é admirável. Às vezes eu penso que se não houvesse esse embargo criminoso por parte dos EUA contra Cuba a Ilha seria um dos melhores países da América Latina para o seu povo, a desgraça é essa, digo no ponto de vista dos capitalistas, aí serviria de exemplo para outros povos miseráveis. Então matem-nos de fome assim não servirão de exemplo para ninguém. Mentalidade capitalista, assassina e impiedosa! Viva a revolução!
Voltando ao livro, ele conta a história de um dia na vida desse homem em um campo de trabalhos forçados (eufemismo para campo de concentração e assassinato) na Sibéria. Você imagina o que é trabalhar ao ar livre, mal vestido e mal alimentando sob um frio de -28C? Acho que não, mas isso não é a pior das humilhações impostas aos "inimigos do regime".
Além de a história ser interessante Soljenitsin tem estilo. Ganhou premio Nobel de literatura com Arquipélago Gulag, portanto é importante conhecê-lo.
Soljenitsin não foi o único grande escritor que ficou preso em campos de trabalho forçado na Sibéria, Dostoievsky também teve uma "hospedagem" de quatro anos em Omsk. Certa vez foi terrívelmente espancado por ter salvo um homem que estava morrendo afogado, ficou hospitalizado por muito tempo devido a este espancamento. Sobre o que passou escreveu um livro chamado " Buried Alive in Sibéria", que não sei se foi traduzido para português.
O anarquista Kropotikine foi "hospedado" também, a lista é imensa de pensadores incomparáveis que foram exilados, toda ditadura é burra e não adimite a proximidade da inteligência-divergência.


Estão todos convidados para o próximo inverno!
autor: Sexto

Comments:

Quarta-feira, Abril 16, 2003

Assim como falham as palavras quando querem exprimir qualquer pensamento, assim falham os pensamentos quando querem exprimir qualquer realidade.A.C.


Já vou chegar escrevendo (para que?) porque como sempre estou sem tempo, sem tempo para pensar, sem tempo para tomar uma cerveja num bar, ver as pessoas passarem também com pressa sempre tendo que chegar o quanto antes a algum lugar, seja ao trabalho, ao metrô, ao bar, todos estão sempre chegando com pressa. Há pressa até para parar.
Semana passada, ou antes, escrevi uma linha sobre um poema do Fernando Pessoa chamado "autopsicografia" e hoje resolvi transcrevê-lo integralmente para que possam apreciá-lo, mas antes vou fazer uma pequena biografia do autor. Fernando Pessoa nasceu em 1888, ano da abolição da escravatura, acho que esquecemos de avisar os escravos que ainda somos, viveu em Lisboa e Durban, estudou letras dirigiu revistas criou vários heterônimos como Alberto Caieiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, cada um com sua própria personalidade e estilo. Morreu em 1935. Sua obra é extensa e deve ser lida, portanto mexam-se.
Sinceramente o Blogg coletivo do Brunoc deixou-me um tanto dividido sobre onde escrever, vou tentar manter atividade nos dois, mas se quiserem visitar o mesa de boteco é só entrar no link:
www.mesadeboteco.blogger.com.br
Deixem seus comments!

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.



Auto retrato e Foto!


autor: Sexto

Comments:

Terça-feira, Abril 08, 2003

Requien aeternam dona eis.


A guerra acabou, junto com ela observamos a dissolução da cortina de fumaça que tentava esconder um estado de direito que respeitava as diferenças unicamente dentro dos limites permitidos e admitidos pelo ditador de plantão. O respeito acabou, ao mínimo sinal de perigo (que perigo?), a ganância imperialista sempre impôs limites às divergências através do terror, da ameaça e quando "necessário" da violência das armas. Não importando a concepção de estado escolhida pelo tirano.
Claro que ainda vão dar mais uns tiros aqui e ali, mas o que podemos ver é que o país que era tido como a grande ameaça para o planeta não sustenta a defesa de sua própria capital por mais de meia dúzia de horas. Juro que acreditei que haveria uma batalha sangrenta nas ruas de Bagdad, mas que nada, as pessoas caminham indiferentes ao lado dos tanques e soldados, independente de que lado eles estejam combatendo, é tudo igual, a miséria será perpetrada, só vai mudar o nome do imperador, combater o que? Com que finalidade?
Não consegui entender os motivos da guerra, petróleo, vingança ou demonstração de força. "Aceitem-me ou explodo-te!"
Agora se discute quem vai cuidar da reconstrução do Iraque. A maior das guerras deve ser travada a partir deste momento, os EUA vão querer se apossar de tudo para "cobrir as custas" da guerra, França e Rússia devem entrar de sola na defesa dos seus interesses $$$$$ e todos os outros vão tentar abarcar seu quinhão através da falida falácia, ONU.
O ser humano está à beira da morte e não faz nada para mudar essa condição, dai-lhes o repouso eterno.
Mudando de assunto, mas nem tanto, hoje vou publicar o link de um filme da época da ditadura (acabou?) que mostra os dois lados da moeda, a força da resistência e a imbecilidade das regras impostas pela força! O diretor é o mesmo do "Ilha das flores", Jorge Furtado.
"O dia em que Dorival encarou a guarda". Viva a resistência!
http://www.portacurtas.com.br/filme_abre_pop.asp?Cod=399


Prometo não mais falar de guerra! Quer um cigarro?

Abraços e até a semana que vem! Infelizmente vou tirar umas férias forçadas do blog!



autor: Sexto

Comments:

Segunda-feira, Abril 07, 2003

Quem tem acesso ao uol, acredito que seja necessário ser assinante, já deve ter visto que é possível assistir aos melhores curtas brasileiros através do site sem pagar absolutamente nada e, além disso, tem comentários, ficha técnica e etc. Vou tentar publicar uns links dos filmes que eu mais gosto sempre que possível. Tive o prazer de assistir o "ilha das flores" pela milésima vez e cada vez que o assisto duvido mais ainda da possibilidade do ser humano manter-se vivo por muito mais tempo, nós somos abomináveis em todos os sentidos!
Mas como seres espúrios, somos capazes de produzir obras sensíveis, inteligentes e humanas? Talvez seja essa interminável capacidade de fingir! O Pessoa levou ao extremo a análise dessa IN-capacidade em sua autopsicografia. O poeta é um fingidor...
O filme de hoje chama-se 3 minutos, quantas coisas podem ser decididas em 3 minutos? Coze-se um ovo, corre-se uma corrida, muda-se uma vida, toma-se uma decisão, volta-se atrás. Nunca é tarde demais. E para quem é velho o suficiente para ter feito uma ligação à partir de um orelhão vermelho, sabe que as fichas duravam 3 minutos ou simplesmente um impulso.

http://www.portacurtas.com.br/filme_abre_pop.asp?Cod=10

divirta-se, chore, pense...

Amanhã tem mais! Se der tempo, ainda não inventaram forma feliz de se adquirir o sustempo-sustento!



Um quadro do filme só para não perder o costume!
autor: Sexto

Comments:

Quarta-feira, Abril 02, 2003

O texto de ontem está estúpida e absolutamente horrível. Repetição desnecessária de determinadas construções, extrapolação dos limites no uso de adjetivos inúteis e uma centralização narcizista na própria pessoa que faz parecer até que eu me acho bom. EU SOU UM MERDA! E ainda por cima estou começando a sentir falta de escrever isso aqui, como aquela menininha sonhadora que escreve seus anseios e devaneios no seu diário antes de dormir. Aos amigos que têm acesso a esta página peço desculpas! Mas infelizmente continuarei, pois como já disse antes, preciso praticar para compor meus solilóquios suspeitos.
Há alguns dias atrás o Laerte (cartunista) começou a publicar algumas charges (em crise) existencialistas que eu gostei muito. São seres humanos que carregam pequenas selas nos seus pescoços e vivem a mercê de outros seres "humanos" menores que dominam e dirigem suas vidas, ações e vontades. Acho que gostei tanto delas porque é exatamente assim que eu me sinto, dirigido, comandado, alienado. Em uma análise superficial pareço estar no comando das minhas próprias ações, mas essencialmente sou propriedade alheia, não me conduzo pelas minhas vontades e desejos, mas pelas necessidades e não só pelas minhas!
Revolucionário é aquele que consegue romper com este estado das coisas e substituí-los por outros completamente diversos.
Hoje eu li um fato no mínimo curioso no jornal, o homem, o mesmo homem que processou o Lula com base nas leis de segurança nacional da ditadura lhe concedeu uma condecoração da ordem suprema do mérito militar ou algo que o valha. Um dia "criminoso" outro presidente, mas puxa-saco é puxa-saco sob qualquer regime. Se houve pessoas na França que se aliaram ao nazismo porque não "flexibilizar-se" de acordo com a necessidade aqui na nossa republica "democrática". Flexibilização muitas vezes pode ser eufemismo para pusilanimidade, pequenez da alma!
E o Delfim Neto, o Sarney, Maílson da Nóbrega, o Ricupero e tantos outros canalhas ou incompetentes ou ambos simultaneamente são bem vindos para escrever em jornais revistas e etc...! Decretou o AI-5 e achou pouco na época, fizeram planos econômicos que foram um fracasso total, mas continuam opinando sobre economia, perpetuam a miséria e são premiados com espaço e atenção, pergunto, para satisfazer quais interesses? ATARAXIA! Suspendo meu juízo mil vezes.
Segue um excerto do livro que estou lendo e que é bem pertinente:
"O mundo dos negócios estava profundamente comprometido com os nazistas, e não teve dificuldade em tolerar o que os nazistas estavam fazendo, muito menos em termos de emprego de trabalho escravo, com que o regime o supriu durante a guerra. Tudo isso, porém, é história; mas antes de deixá-la para trás, também é bom lembrar que foi muito estreito o vínculo dos interesses capitalistas com certas políticas estatais que ensejaram a morte violenta de milhões e milhões de homens, mulheres e crianças inocentes".
Ralph Miliband, Socialismo e Ceticismo.

Qualquer semelhança não é mera coincidência.

Até!


Uma das charges e o unico resultado da guerra: Sofrimento!
autor: Sexto

Comments:

Terça-feira, Abril 01, 2003

Apesar de eu ter me auto batizado "Sexto" o fato de eu ter voltado a escrever algo novamente após seis dias é pura coincidência, apesar de eu não acreditar nelas, às vezes acontecem, ou talvez lá na mais profunda sinapse do meu cérebro há algo de subconsciente que me fez retornar aqui após exatos seis dias. O que importa?
Estive trabalhando muito, infelizmente, preferia estar lendo. Vou falar do que importa, o final de semana: Sábado voltei ao Dr. Armando e conforme ele previu terei que tomar um remédio todos os dias pelo resto deles, nada grave, mas um saco. Como ainda era cedo acabei indo para a praia, desta vez não levei nenhum livro, estava sol, tomei umas cervejas e fiquei conversando com a Jojo, como sempre a conversa foi prazerosa apesar de freqüentemente ser ríspida.Voltei no final da tarde, era para descansar cedo, pois domingo tive que trabalhar, mas não descansei, encontrei velhos amigos e bebemos até as 02:00, foi divertido relembrar as velhas histórias. No domingo, fora o trabalho, assisti uns filmes. O melhor deles foi "O homem que sabia demais" do Hitchcoc, um filme de 1934 cujas cenas são muito bem planejadas e as seqüências sistematicamente estruturadas, o que nos traz a impressão de não haver necessidade dos diálogos, que são excelentes, provavelmente pelo fato do Hitchcoc ter iniciado sua carreira no cinema mudo. Outra coisa que chamou minha atenção é que a personagem criança está sempre causando problemas, não consegui concluir se ele não gosta de crianças ou se as adora, a segunda opção agrada-me mais. Aceito opiniões. Assistam!
Ontem trabalhei bastante, como estava um pouco irritado, sem motivos, resolvi escutar Brahms, admirável! Eu nunca comentei, mas escuto música todos os dias quando estou trabalhando, sempre dei preferência ao Jazz, mas de uns tempos para cá voltei a escutar os clássicos, principalmente os cameristas. Brahms, considerado conservador, foi um compositor de sucesso na sua época e como Mozart, guardando as devidas proporções, também se mostrou um grande músico muito cedo. Além de suas composições para camera escutei "Um réquiem alemão", primoroso, apesar de tratar da morte. Se tiverem oportunidade ouçam. Tenho que ir, abraços!


Hitchcoc e Brahms, Claro que pouco importa como eles são, o importante é a obra! Então vá apreciá-las!
autor: Sexto

Comments:

Quarta-feira, Março 26, 2003

6 dias depois!

É verdade, já faz seis dias que eu não passo por aqui, foram dias atribulados confusos cheios de altos e baixos. Em dois deles eu li um diário de viagens do Ernesto Guevara, o Che! Como já conhecia seus textos e seus argumentos, serviu apenas para confirmar que se trata de um homem inteligente, observador e que tem grande habilidade para escrever. A viagem em si não me chama muita atenção porque eu fiz exatamente o mesmo, andei por vários países, trabalhei em alguns deles para poder continuar viajando, fiquei mais tempo em alguns lugares e menos em outros, por isso posso afirmar que não é preciso ser um grande revolucionário ou ter um espírito superiormente livre para fazê-lo, para falar a verdade sou um tanto conservador.
Foi nessa viagem que ele conheceu o Fidel, e falou dele com admiração. O livro, que como já mencionei é um diário, conta histórias interessantes do inicio dos anos 50, menciona o suicídio do Getulio, analisa mais longamente a implantação da ditadura na Guatemala com apoio do imperialismo expansionista americano, e ainda fala da necessidade dos Estados Unidos exportarem sua formula de "democracia". A história se repete ( o 18 brumário).
Continuo lendo o "Socialismo e Ceticismo" lentamente e entremeado por outras leituras, é um livro denso que está cada vez melhor em suas análises, prometo transcrever algumas passagens em breve.
Foi uma tremenda ingenuidade da nossa parte achar que poderíamos mudar o status quo através dos métodos criados e perpetuados pelas elites. Essa história de voto democrático. É bem provável que o método em si de coleta dos votos seja lícito, mas o processo em geral é espúrio. Se a grande maioria dos meios de comunicação quisessem, o Lula não passaria do primeiro turno, nem participaria da eleição. Inventariam um bocado de dinheiro na sede do partido ou seja lá o que for. Se mataram um presidente indesejado e elegeram outro que não obteve a maioria dos votos no berço e sede do império capitalista "democrático", imaginem aqui na nossa recém extinta (extinta?) ditadura pós colonial!
A verdade é que nada vai mudar e se mudar não será em benefício de quem está na miséria, principalmente porque a miséria não participa do processo, não tem acesso a nada e o objetivo é mantê-la assim, excluída, escrava e calada, pois é dessa forma que vive o capitalismo, predispondo a exploração. E se for necessário tirar algo de alguém para acalmar qualquer grito dos miseráveis quem vai perder é a classe média covarde que para manter esse sentimento de superioridade, necessita da miséria tanto quanto as elites detentoras dos meios de produção e não percebe que está muito mais próxima à situação de miserável do que ao poder capitalista e assim perpetua-se, numa órbita obtusa, esse sistema inescrupuloso.
Miseráveis, levantemo-nos!



Che, na mais histórica de suas fotos. Os miseráveis exigindo seus direitos (greve dos metalúrgicos). Lula e Walesa dois operários que chegaram a presidência de seus países e viraram mito. Só esperamos que tenham destinos diferentes. Lembram do "Solidarnosk"?
autor: Sexto

Comments:

Quinta-feira, Março 20, 2003

"As melhores opções para acompanhar a guerra estão na televisão por assinatura, principalmente para quem paga os pacotes mais caros".

Acreditem ou não esta frase foi retirada da Ilustradaonline da Folha de São Paulo edição de 20/03/03 às 14:55. Alguém pode até querer dizer que ela está descontextualizada, mas não está, ela significa exatamente o que vocês lêem. Faz tempo que eu queria escrever sobre a cede que assola as pessoas por esta guerra, principalmente os meios de comunicação. Apesar de eu ter prometido a mim mesmo que não encheria meu blog com comentários sobre essa guerra estúpida, indecente e absurda, hoje não pude resistir. O fato é que as pessoas falam da guerra como se fosse um acontecimento cotidiano, normal, corriqueiro, esperado ansiosamente, como o natal para crianças bem nascidas. E o pior é que eu começo a crer que a total banalização da violência no nosso dia a dia leva todo mundo a achar que dizimar milhares de vidas num bombardeio a uma cidade de cinco milhões de habitantes é aceitável!
Estou vendo o momento em que entre um flash e outro das transmissões ao vivo e simultâneas do show piro-tecno-esterminador dos senhores da guerra apareça uma propaganda protagonizada por um galã musculoso e sem camisa à Rambo dizendo: "Nova supermetralhadora AR 1115 dispara 300 projéteis por segundo, compre a sua e proteja-se de uma invasão de um ditadorzinho, mata até 5 soldados por minuto, não exige treinamento específico e se preferir o modelo de luxo vem com lança granadas acoplado, seu filho de 5 anos pode utilizá-la".
A luta por audiência, como a guerra, é inescrupulosa e maquiavélica, não importa quem será atingido desde que a batalha seja vencida. É só ligar a televisão e não precisa comprar o pacote mais caro da TV por assinatura para ver a miséria ser oferecida sem medida. Não me refiro só à miséria da falta de recursos materiais, mas a pior delas, aquela que transcende nossa capacidade de compreensão, como o canal que mostrou as fotos daquela senhora que foi esquartejada e esfolada pelo seu médico-amante, e a mãe, os filhos, o marido? Danem-se! E o que eles dizem? O que vale é minha guerra, seja por audiência ou por qualquer outro motivo torpe.









Os bonifrates! O problema é saber quem controla os movimentos! Ganância, Vingança, Loucura. Uma cidade sendo morta, junto com ela seu povo.
Escolha um modelito, o 1o é um AK47 muito apreciado pelos correligionários do Sadã, o 2o um AR15 apreciadíssimo nos morros cariocas e pelo pessoal do PCC, O 3o, esse são os maiores FDPs que apreciam. OS exércitos do 1o mundo.
Proletários de todo o mundo, levantem-se!

E adianta pedir? Temos que impor!
autor: Sexto

Comments:

Quarta-feira, Março 19, 2003

Já que só se fala em guerra eu vou de poesia, não é fugir da realidade, ou é, mas poesia é bem melhor.
Como ontem eu falei de dois poetas bem interessantes, quer dizer de um eu falei superficialmente e do outro eu só publiquei uma foto, decidi hoje escrever brevemente sobre eles e publicar um poema de cada. Charles Baudelaire viveu no inicio do seculo XIX, foi boêmio e teve sérios problemas de relacionamento com seu padastro. Sua obra mais importante é o livro "As flores do mal" que teve poemas censurados até 1949. Também escreveu "Os paraisos artificiais" sobre os efeitos estéticos das drogas, caso tenham a oportunidade leiam! Com certeza encontrarão uma biografia melhor que a minha, mas é que estou com pressa, o imbecíl do trabalho continua aviltando minha vida. Prometo melhorar amanhã.
Maikovsky nasceu no final do século XIX e suicidou-se em 1930, se não me falha a memória. Escreveu principalmente poesia engajada, revolucionária. Apoiou a revolução bolchevique e foi propagandista dela, além de revolucinário na política também foi revolucinário nas artes. Bebeu nas águas do cubismo e criou o futurismo russo junto com outros artistas. Chega de bláláblá e vamos lá:

As Cidades Amadas

"Conheceis o francês,
sabeis dividir,
multiplicar,
declinar com perfeição.
Pois, declinai!
Mas sabeis por acaso
cantar em dueto com os edifícios?
Entendeis por acaso
a linguagem dos bondes?
O pintainho humano mal abandona a casca
atraca-se aos livros
e a resmas de cadernos.
Eu aprendi o alfabeto nos letreiros
folheando páginas de estanho e ferro.
Os professores tomam a terra
e a descarnam
e a descascam
para afinal ensinar:
"Toda ela não passa de um globinho!"
Eu com os costados aprendi geografia.
Não foi à toa que tanto dormi no chão.
Os historiadores levantam
a angustiante questão:
- Era ou não roxa a barba de Barba Roxa?
Que me importa!
Não costumo remexer o pó dessas velharias!
Mas das ruas de Moscou
conheço todas as histórias.
Uma vez instruídos,
há os que se propõem
a agradar às damas,
fazendo soar no crânio suas poucas idéias,
como pobres moedas numa caixa de pau.
Eu, somente com os edifícios, conversava.
Somente os canos d'água me respondiam.
Os tetos como orelhas espichando
suas lucarnas atentas
aguardavam as palavras
que eu lhes deitaria.
Depois
noite adentro
uns com os outros
paravam
girando suas línguas de catavento".

("Minha Universidade" de Vladmir Maiakowski )



O Vampiro

Tu que, como uma punhalada,
Entraste em meu coração triste;
Tu que, forte como manada
De demônios, louca surgiste,

Para no espírito humilhado
Encontrar o leito e o ascendente;
- Infame a que eu estou atado
Tal como o forçado à corrente,

Como ao baralho o jogador,
Como à garrafa o borrachão,
Como os vermes a podridão,
- Maldita sejas, como for!

Implorei ao punhal veloz
Que me concedesse a alforria,
Disse após ao veneno atroz
Que me amparasse a covardia.

Ah! pobre! o veneno e o punhal
disseram-me de ar zombeteiro:
"Ninguém te livrará afinal
De teu maldito cativeiro.

Ah! imbecil - de teu retiro
Se te livrássemos um dia,
Teu beijo ressuscitaria
O cadáver de teu vampiro!"

Baudelaire!


Preciso falar mais alguma coisa? LEIAM!!!!!!!!!!!!!!!! Mas não esqueçam de viver!

!

Ponte Louis Philippe, reconstruida em 1860 com Notre Dame ao fundo e Trotsky na Praça Vermelha (anos 20).
autor: Sexto

Comments:

Terça-feira, Março 18, 2003

Paris,


O avião pousou tarde da noite devido um atraso inexplicável, claro que houve milhares de desculpas por parte dos funcionários da empresa aérea, mas eram tão desencontradas como as oferecidas à minha mãe pelo homem com que ela havia decidido viver após a partida do meu pai, quando ele chegava cheirando a cigarro, bebida e sexo às 03:00 da manhã. Não sei se ele cheirava dessa forma, mas minha mãe jurava que sim e eu nunca duvidei.
Estava frio, mas não insuportável. Fui até um guichê de informações e perguntei qual era a forma mais rápida e barata para eu chegar ao albergue da juventude, descobri que a mais rápida estava longe de ser a mais barata, a velocidade é cara! Peguei um trem lento e cheio de tipos extravagantes por excesso ou falta de alguma coisa, tenho certeza de que naquele vagão eu era o único que tinha um bilhete válido para apresentar ao fiscal caso ele aparecesse, a viagem de fato não foi das mais rápidas, mas eu preferia dessa forma, pois o albergue estaria fechado e eu teria que passar frio até a hora que eles abrissem. Cheguei na estação subterrânea e ao sair na rua percebi que era um bairro afastado, estava tudo fechado, inclusive o albergue. Minha previsão consumou-se, fiquei sentado na escada de entrada do prédio em baixo do meu surrado saco de dormir até o dia clarear. Fui até um café do outro lado da rua que ainda estava abrindo e fui escorraçado pelo dono, sei que fui escorraçado, mas não entendi absolutamente nada. Voltei para porta do albergue e logo depois apareceu um grupo de inglesas esperando pelo mesmo que eu, a conversa foi amistosa, as mesmas perguntas de sempre, parecia até uma sala de bate papo da internet, o que eu só viria a descobrir anos depois. Viajantes e internautas, em geral, perguntam sempre as mesmas coisas, de onde você vem, quantos anos tem, o que faz, para onde vai, etc. Eu sempre quis saber as respostas para estas perguntas e talvez seja atrás delas que eu esteja. Mas os que fogem dessas perguntas, independente do que dizem, são mais interessantes.
Uma das inglesas abriu uma latinha de refrigerante ou coisa que o valha e inacreditavelmente ofereceu-me um gole, aceitei na hora, estava morrendo de sede e fome e cansaço, veio a calhar, mas o gosto não era dos melhores. O nome dela era Gert, até hoje acho que Gert é diminutivo de Gertrud. Agradeci e ela perguntou se eu gostava de ler, disse que sim e ela abriu a mochila e entregou-me um livro, Maiakovsky-The complete poems. O livro era caprichosamente encadernado e na primeira página havia uma dedicatória que eu achei melhor não ler para não parecer intrometido. Disse a ela que o livro era lindo e que eu já havia lido alguns poemas desse autor, mas que provavelmente meus conhecimentos de inglês não eram suficientes para apreciá-lo e fiz um gesto para devolvê-lo. Ela disse: Guarde-o. Que voz maravilhosa.
Fiquei espantado, insisti em devolvê-lo e ela insistiu para que eu ficasse com ele afirmando que sabia de cor todos os poemas. Depois de apreciar os detalhes da capa, guardei-o na mochila e prometi esforçar-me para decorá-los também.
O albergue abriu, nos registramos e quando estávamos indo para os quartos ela perguntou o que eu pretendia fazer. Falei que a primeira coisa que iria visitar era a catedral de Notre Dame e depois o Museu Picasso e sem saber quão próximos eles eram disse que também iria pelo menos dar uma olhada no Sena, não era um sonho, nunca tive sonhos, mas eram lugares que eu queria ver de perto. Ela me informou que iriam ao Louvre, então propus para nos encontrarmos no albergue à noite, tomarmos um vinho e comermos juntos, eu me surpreendi por ter feito o convite, ela aceitou.
O meu encontro com a catedral foi inesperado, eu vinha andando por uma rua completamente despreocupado e a última vez que eu havia olhado no mapa já fazia algum tempo, portanto julgava-me 'perdido'. Andei por mais dez minutos levantei o rosto e lá estava ela, com as gárgulas e os arcos, surpreendente, magnífica. Fui ao museu Picasso, passei horas que pareciam minutos vi o Sena, mas o que eu realmente queria era voltar para o albergue.
Passei em uma loja e comprei um boujolais, uns pedaços de queijo, pão, salame e duas pêras, jantar de rei para quem morava sozinho e só comia em boteco. Tomei um banho, juntei minhas compras e fui para o refeitório que ficava ao lado da recepção, ela chegou em seguida e confesso que fiquei surpreso com a rapidez com que ela tomou banho e voltou. Abri o vinho, já havia separado dois copos idênticos, o que era um milagre no albergue, enchi os copos, brindamos, parti o pão, queijo, salame, comemos tudo, eu e ela não tínhamos comido nada o dia inteiro, cortei as pêras em fatias bem fininhas e ficamos lá falando das nossas aventuras daquele dia e de outros, combinamos de ir ver a torre e visitar o d'Orsay juntos no dia seguinte, perguntei sobre suas amigas e ela me disse que uma delas era sua irmã e que elas não se davam muito bem. Perguntei para mim, porque será que elas viajam juntas? Quem sabe?
Terminamos o vinho, juntamos nossa bagunça e subimos para o quarto. Antes de subir despedi-me da irmã e do resto do grupo. Dei uma folheada no livro e gostei, adormeci logo.
O dia seguinte foi ótimo, tomamos café cedo e caminhamos até a estação de metrô de mãos dadas tendo certeza de que a vida era perfeita e era, andamos por mais de uma hora pelo Sena, comentei que havia lido alguns poemas, recitei as partes que eu lembrava e ela os completava. Vimos a torre por todos os ângulos, como um pedaço de ferro torna-se um marco e um símbolo de uma cidade que tem tantos outros? Comemos um sanduíche fomos ao d'Orsay, o dia voou e combinamos de voltar ao museu no outro dia, voltamos. Passados mais três dias sem que nós nos desgrudássemos ela me informou que partiria de volta para Inglaterra, fizemos promessas e juras de enviar cartas, de nos visitarmos, trocamos endereços e como eu ainda ficaria na França mais uma semana ela me disse que quando eu chegasse em casa já haveria uma carta na caixa do correio. O restante da viajem foi monótono, visitei o Louvre e constatei que a Vênus de Milus realmente tem erisipela como eu havia lido em algum lugar.
Nice me pareceu chata e sem vida, com exceção ao museu Matisse, fiquei trancado no albergue alguns dias lendo ou tentando ler o livro. Passei minha última noite em Nice em um bar chamado Inferno e que tinha uma banda ao vivo tocando bossa nova. Esperei até às 06:00 que era a hora que o albergue abria e o ônibus começava a circular. Cheguei no albergue, tomei um banho, dormi até meio dia e meia, arrumei minha mochila e rumei para o aeroporto, enfim iria reencontrar Gert, pelo menos por carta.
Pouso tranqüilo, freeshop razoavelmente vazio, comprei um vinho, um uísque, uns pistaches e fui embora, a alfândega e o controle de passaportes foram rápidos, todo mundo estava gastando seus últimos dólares. Peguei um táxi, fazia muito tempo que eu não pegava um.
A caixa de correio estava cheia, separei tudo com pressa, olhei mais uma vez, nenhuma carta de Leeds. Restou-me o vinho, o uísque, os pistaches e Maiakovsky.





A vênus com doença de pele (Louvre) e Um retrato de Charles Baudelaire feito por Félix Nadar (1855) d'Orsay
autor: Sexto

Comments:

Quinta-feira, Março 13, 2003

Miséria!

É impressionante o número de pessoas que se dispõe a comentar a superanunciada guerra. Motivos para o Sr. W. Bush mandar o Iraque pelos ares já ouvi mais de cem e ironicamente, ele vai gastar vinte zilhões para mandar o país pelos ares e mais vinte para reconstruí-lo! Patético! Claro que causa preocupação a todos, afinal todos dependemos das ações do imperador, o que ele diz e faz nos influencia diretamente. Mentira!?
Nessas horas você acha que a vida daquele 'homem' que anda pelado em baixo do minhocão e faz suas necessidades fisiológicas (eufemismo para 'dá uma cagada') na calçada ao lado dos carros no horário de rush vai mudar algo? Ele não liga para nada, ele é o ultimo sintoma da desumanização do ser humano. Lembram da Monga-Macaco? Aquela mulher maravilhosa que transformava-se em gorila diante dos nossos olhos devido a um jogo de espelhos de terceira categoria e nos deixava assustados, desesperados para fugir daquele lugar. Pois o desgraçado que vive nu é a monga dos anos do exacerbamento do capitalismo e o jogo de espelhos é a necessidade de enriquecimento e desenvolvimento de um fatia cada vez menor da sociedade. A vontade de fugir da monga-pos-moderna e do rush é a mesma, mas a monga de antigamente ficava dentro do parque de diversões e depois da porta de saída de sua tenda macabra sempre tinha o carrossel e o algodão doce. O problema é que nossa monga-pos-moderna não é reflexo de espelhos fáceis de quebrar, mas de uma sociedade imbecil que insiste em não mudar. O pior é que já não há mais carrossel nem algodão doce e o imperador lá como cá acredita que vai resolver tudo jogando algumas bombas e dando alguns tiros!
Essa foi em memória do tio Guilherme!


.

Gostaria de colocar umas fotos melhores mas o texto está ruim o assunto é horrível e a vida é bela! (vocês viram este filme?) A 1a é aquela clássica do carandiru e a 2a é de algum lugar no conflito Israelo-Palestino e a 3a são soldados e eles estão rezando(guerra santa?). De onde virão as próximas?
P.S. Os autores das fotos que me desculpem mas de onde eu as tirei não haviam créditos, portanto elas seguem sem créditos.
autor: Sexto

Comments:

Sexta-feira, Março 07, 2003

Nem sei o que dizer hoje, estou triste, cançado e desapontado. Mas, como eu mesmo costumo repetir, problemas são categorias de situações que têm solução, as que não têm, são coisa diversa e portanto não devem ser tratadas como tal. É uma tentativa de sentir-me melhor. Talvez a melhor forma seja tentar rir da nossa própria merda, então lá vai:

The frontier between tragedy and comedy is tin!

autor: Sexto

Comments:

Quinta-feira, Março 06, 2003

Voltei, quase inteiro depois de um carnaval sem graça. Passei quatro dias sem fazer nada, tomando algumas cervejas assisti ao filme adaptação, está longe de ser um grande filme, mas não é ruim.
O nome da peça que mencionei anteriormente? Não fui capaz de descobrir, mas o autor é o Guilermo Cabrera Infante com certeza.
Li a folha hoje! Ataraxia total aos artigos do Cony e do Frias Filho, suspendo o meu juízo! Quem está certo? Na mesma página dois superstars da cultura brasileira afirmam coisas diametralmente opostas a respeito do mesmo assunto. Um, Cony, acha que o exército deve invadir as ruas do Rio e por ordem na escumalha, o outro afirma que seriam corrompidos em breve e a escumalha iria mostrar quem manda no terreiro! E aí o que fazer após ter a principal força de defesa da nação na mão da corrupção? Mas já não está? O Beira-Mar era militar! Se não estou enganado tinha até patente! Se não podemos com eles, fujamos para Paris.
O problema maior será se a miséria resolver utilizar suas armas não só para garantir o tráfico das próprias armas e do pó que alimenta a Vieira Souto, mas sim invadir ainda mais o espaço controlado pelo estado e tomar conta de tudo. Mais ou menos como fazem as Farc na Colômbia. Guerrilha urbana! Exagero? Pode ser, mas que lembra, ah se lembra!
Estou terminando de ler um livro do Bukovisky, companheiro inseparável desde os anos 80, e ainda tem umas ilustrações ótimas do Crumb. Trata-se de um diário que ele escreveu no final da sua vida, aos 70 anos. Traz-me uma certa melancolia da época que eu lia gibis excelentes, escutava única e exclusivamente Hard Core e tinha minha própria banda (SKARNIO) e pouquíssimas preocupações. O livro chama-se: O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio. Seco, Cético e Safado! Editora L&PM.




Esse é um auto retrato do R. Crumb.



E esse é o Bo Bo Bolinsky o cara que não serve para nada!

Visite:http://members.tripod.com/~cultalt/2.htm

tchau
autor: Sexto

Comments:

Quinta-feira, Fevereiro 27, 2003

Hoje serão só mundanalidades, ontem tentei escrever, mas na hora de postar apagou tudo, como tinha um compromisso não deu para reescrever fiquei de saco cheio e desisti. Tomei um tombo hoje que foi ridículo, cai no corredor em meio aos funcionários, foi tão ridículo que ninguém riu, pelo menos não riram na minha frente.

Não sei porque lembrei de uma peça de teatro que eu assisti à muito tempo com o meu pai, foi uma recomendação de um professor dele, lembro que várias pessoas deixaram o teatro antes do final. Era uma produção ambiciosa, artistas importantes faziam parte do elenco, infelizmente não me recordo dos nomes. A peça tratava da disputa entre familiares pela posse de um deficiente mental, isso mesmo, eles disputavam a posse do deficiente! Explico:
A obra era ambientada na idade média e os 'proprietários' do deficiente o levavam dentro de um carrinho de madeira até as feiras de cada vilarejo e pediam esmola, então sua posse era rentável.
O ator que interpretou o papel do deficiente conseguiu impor tamanho realismo à sua interpretação com gritos, grunhidos e gestos, que era quase inimaginável serem humanos,causava repulsa e constrangimento, como toda loucura causa. As pessoas de alguma forma punem-se por achar um ser humano repugnante, mas era impossível evitar o sentimento. Na peça deixa-se o teatro na vida dá-se uma esmola, formas distintas de redimir-se.

Acredito que o autor da obra é o cubano Cabrera Infante, mas não tenho certeza, acredito que a peça chamava-se Escrito nas Estrelas, do que também não estou certo, vou tentar pesquisar e resolvido o problema dou o nome correto do autor e da obra.

Mas tanto texto como peça eram anárquicos e desconcertantes!

O aprendizado deve começar cedo, tirem seus filhos da escola! 8aE, quadrinho de 1a e histórias idem, não percam!


Até a próxima!

http://www.8e.com.br
autor: Sexto

Comments:

Terça-feira, Fevereiro 25, 2003

Depois de alguns dias consegui um tempo para voltar a escrever, não que eu seja um escritor, mas é que eu estou gostando de fazer esse blog e ainda tenho a intenção de desenvolver meus estudos sobre o ceticismo filosófico e esse blog vai servir de treino. Porém hoje escreverei sobre um livro que a minha querida Jojo me deu. Chama-se Socialism for a Sceptical Age, foi traduzido para português como Socialismo e Ceticismo, porém não trata de nenhum estudo do socialismo do ponto de vista cético, mas simplesmente utiliza-se da palavra ceticismo no seu significado popular de descrença. O autor chama-se Ralph Miliband e o pouco que eu já li causou-me boa impressão. Estou no primeiro capítulo onde o autor questiona o capitalismo como "organização social" e ele vai desenvolvendo suas teses com clareza e alicerçando seus pensamentos com exemplos e citações como esta: " Assim, Douglas Hay observa que, de acordo com as estatísticas (Home Office statistics), 1985, "na Inglaterra, quase um terço dos jovens, sobretudo os mais pobres, tinham condenação por crimes graves". Nos Estados Unidos, diz ele também, quase um quarto dos homens negros por volta de vinte anos de idade estava na cadeia, em liberdade condicional ou em sursis em 1990".
Depois desses dados postos, Ralph Miliband continua, " As privações sofridas pelos pobres nas sociedades capitalistas ricas, por mais acerbas que sejam, constituem "opulência" quando comparadas às condições em que a maioria dos povos do "mundo em desenvolvimento" estão condenados a viver e a morrer".
As mesmas condições que levam pessoas de sociedades capitalistas a viverem excluídas são as que alimentam anomalias como o racismo, o anti-semitismo e a xenofobia, encorajando a busca de bodes expiatórios, busca essa que sempre encontra um alvo. Você saberia dizer qual é este alvo aqui no Brasil? Vários: negros, nordestinos, estrangeiros, etc...

O autor prosseguirá seus questionamentos sobre a eficiência do capitalismo como organização social já que ele, o capitalismo, gera todas essas distorções no corpo social e virá com alternativas, que como ele mesmo afirma, são impossíveis de serem provadas empiricamente, mas são alternativas que devem ser consideradas, como todas outras devem já que o atual sistema é imperfeito, pois apesar de ser excelente como meio de produção é péssimo na hora de atender os anseios sociais. Continuarei lendo e provavelmente voltarei a citá-lo.

Para mudar de assunto, nesse fim de semana li o suplemento cultural de um jornal paulistano que trazia alguns contos baseados na vida e na obra do Kafka, gostei de todos eles, tentavam reproduzir o universo onírico do autor tcheco e acredito terem conseguido. Os contos eram seguidos por um ensaio não concluído do filósofo Felix Guatari a respeito do mesmo assunto, como o editor destacou em sua introdução aos textos, em alguns momentos ensaio e conto confundiram-se o que mostra a permeabilidade dos testos literários.
Falei de Kafka hoje por ele ter sido contemporâneo de Augusto dos Anjos, Dali e dos modernistas e pelo fato de que meu trabalho freqüentemente faz com que eu me sinta como Gregor Samsa, metamorfoseado em um inseto. Essa semana então recomendo O Processo, O castelo e o maior representante de sonhos transformados em obra literária Kafkiana, A Metamorfose.

Seguem desenhos encontrados nos diários do autor e um trabalho sobre sua foto!






Abraços!
autor: Sexto

Comments:

Quinta-feira, Fevereiro 20, 2003

As coisas não se definiram, tudo na mesma e eu aqui parado sem saber o que fazer! Tem vezes que eu quero que nada mude, meia volta volver, mudar é tudo que pude. Leminsky by heart. Como eu havia prometido lá vai o poema completo do Augusto dos Anjos. Esse poema foi originalmente publicado em 1904 no Jornal do Commercio, é isso mesmo, com dois Ms. Se quiserem ler mais leiam o EU, que foi publicado quase 100 anos atrás, causou polêmica na época e ainda pode ser surpreendente. Lá vai:

ês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a ingratidão, esta pantera,
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se alguém causa ainda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Para mexer com mais sentidos também vou falar do homem que mais se confundiu com sua obra: Salvador Dalí. Ou melhor, não falarei nada. Deleitem-se com os relógios derretendo, que na verdade chama-se A persistência da memória.
Até segunda!


autor: Sexto

Comments:

Terça-feira, Fevereiro 18, 2003

O ceticismo é um desafio direto contra as reivindicações de conhecimento. Para cada processo epstemológico há um desafio distinto.Mas é sempre um desafio, nunca uma conclusão da impossilbilidade do conhecimento mas sim um desafio à descoberta, uma oportunidade à dúvida.
Nem sei que dia é hoje, não tenho dormido bem, vamos ver se apartir de amanhã as coisa melhoram, ou pioram, mas que ao menos definam-se. Em homenagem aos modernistas que beberam nas águas augustinianas amanhã postarei um soneto de Augusto dos Anjos. Poeta de primeira linha. Chama-se versos íntimos. ês, ninguém asistiu ao formidável enterro de tua última quimera...

autor: Sexto

Comments:

Sexta-feira, Fevereiro 14, 2003

Uma pequena homenagem aos modernistas! Não esqueçam de ler um livro este fim de semana, vai chover! O manifesto Antropofágico é uma excelente pedida! Se não chover vá ao parque ver o Brecheret com calma. Esqueci do Macunaíma, se não ler o manifesto leia o macunaíma! Ou leia ambos!



autor: Sexto

Comments:

Ontem não deu para escrever, o aviltante trabalho não me permitiu. Assisti ao programa do Abujanra, às vezes acho que ele trava a maior disputa da história com o Jô, quem tem o maior ego, mas o provocações é melhor. O Renato Janine Ribeiro estava lá ontem, tremendo pensador. Ambos falaram sobre as virtudes da dúvida e os perigos da certeza da razão, etc. e como a dúvida é tema central do meu blog, resolvi escrever hoje. Coincidência. Vamos dar uma chance à dúvida, será que estamos certos? O vinho pode ser saboroso pra mim e amargo para você. Ataraxia! Os fenômenos só se manifestam através dos nossos sentidos, nós só os percebemos através do filtro dos nossos juízos, a verdade, o âmago, o principio fundamental é inatingível. Quando demonstramos algo ainda temos que duvidar da demonstração em si ela ainda é fruto dos nossos juízos e sentidos. Nunca concluímos nada, não chegamos a verdade alguma, sobre o nosso objeto só podemos dizer o que ele nos representa. E a verdade, a inatingível verdade. Suspendo meu juízo, mas não meus pensamentos e estudos. Um dia desses vou estruturar minhas idéias e construir meus suspeitíssimos solilóquios. Até segunda!
autor: Sexto

Comments:

Quarta-feira, Fevereiro 12, 2003

Cacete!!!!!!!!!!!Tinha feito um tratado mundano e quando eu fui postar apagou tudo! Resumindo, parece que o Jorge Arbusto vai mandar os Iraquianos pelos ares mesmo, é :
Faz tempo que eu não vejo uma charge que casa-se tão bem com o que eu penso a respeito de um politico. Essa acertou na mosca. O "homem" não tem culhones e então usa um artificial, e quanto mais o falso falo foder mais ele se julga poderoso. Agente se vê! Avante populi que atrás vem brócoli. (quem lembra desse bordão?)
O ceticismo terá que esperar. Aviltados pelo trabalho, nossa mais valia aviltada, só pensamos no ócio. (a ambigüidade é proposital).

P.S. Se quiserem deixar um comentário, seja lá o que for, é só clicar na palavra "coments" eu agradeço.


autor: Sexto

Comments:

Terça-feira, Fevereiro 11, 2003

Bom dia, desculpem-me, boa tarde, pode ser boa noite, não sei exatamente de onde você está lendo este texto. Se for meu amigo Shin que o lê, lá do japs, bom dia, se for o Paulera de algum lugar da França, boa noite, e se forem todos vocês aqui no Bras-ill, boa tarde. Como todos estão certos, suspendo meu juizo! Ataraxia Cartesiana. Mas esse blog irá dedicar-se pricipalmente ao cetcismo filosófico e quase sempre às indispensáveis mundanalidades. Abraços!
P.S. Acho que vou chamar essa merda de "Solilóquios Suspeitos" em homenagem às considerações suspeitas de Tímon.
autor: Sexto